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19.5.17

Culpa da chuva

Atrasada para ioga, ouço aquele miado fininho ininterrupto, que faz o coração calar no peito. Largo a bolsa no carro destrancado e saio pela rua procurando a criatura. Filhote de pelo encardido e olho esquerdo colado, em visível desespero. Tento atrair com sachê, mas ele entra cada vez mais fundo em um motor desconhecido. Deixo bilhete no para-brisa e me programo para continuar a caçada na volta.

Não há volta. O carro se foi e o pequeno também. Converso com a vizinha fofoqueira do prédio, que comenta indiferente sobre o surgimento dos miados pela manhã. E emenda, de graça, a história em que foi mordida por uma gata no cio, mandou colocarem a coitada em um saco e desovarem no Riacho Grande.

Eu poderia falar do instinto animal, explicar a importância da castração, citar a lei que criminaliza o abandono. Mas agradeci e me enfiei embaixo das cobertas. Também tenho direito a meus dias de desesperança na humanidade.

17.5.17

Bronzeamento urbano

Pelo preço de três cabeçadinhas e uma ronronada de dois minutos e meio, você pode desfilar seu charme felino na coloração dourada, como as estrelas da savana. O pacote para quatro gatos ainda inclui sessão de carinho e apertos ― promoção não válida para Jujubas e demais animais selvagens.

11.5.17

Aniversariante do mês - maio de 2017

No post comemorativo de 2016, eu escrevi sobre o lado zen da Guda*. Ela redefiniu o conceito de maternidade ao amamentar as Gudinhas por três anos, se esfrega nos meus pés quando saio do banho e vira e mexe serve de travesseiro para alguém. Mas Guda também é gata moderna.

Com uma década de vida recém-completada, estapeia bolinhas pela casa feito filhote e não há fogão ou geladeira que atrapalhem sua diversão ― o resto da gangue se limita a acompanhar com a cabeça.


*Novelinha: conheça a história da Guda

Outros aniversários: 2016 | 2015 | 2014 | 2013 | 2012 | 2011 | 2010 | 2009 | 2008

6.5.17

Super-heroínas à procura de esconderijos secretos

Elas são donas dos olhos que conquistaram o Facebook. Mas, por um motivo inexplicável, ainda não ganharam suas famílias de filme de aventura ― com final feliz, claro. Como o barraco em que moram provisoriamente está superlotado, publico novamente as histórias das cinco. Ajudem a compartilhar? Candidatos devem mandar um bat-sinal para: contato@gatoca.com.br.

Pegou o longa começado? Entenda aqui.


Batgirl, 1 ano
Desovada nas vielas da favela pela filha quando a tutora entrou em coma, precisa ser conquistada ― com a adoção do irmão, ficou ainda mais murchinha.


Viúva Negra, 11 meses
Encontrada quase morta em uma das intermináveis obras da cidade, adora um cafuné.


Vampira, 11 meses
Dócil e faladeira, conheceu o gostinho de ter uma família por apenas alguns meses.


Mulher-Maravilha, 9 meses
Supercarinhosa, foi resgatada desnutrida, acreditem, na feira.


Mulher-Invisível, 1 ano
Dengosa e tranquilona, corria risco de atropelamento em uma avenida movimentada.

3.5.17

O segredo de uma vida plena

Mercv descobriu sem viajar para o Tibete.

E as coisas fluem.

Enquanto as Gudinhas disputam as cadeiras da mesa de zoar, ele se estica nos almofadões. Se tem companhia, aproveita o calorzinho. No dia em que compro mamão para o café da manhã, é o primeiro a chegar na cozinha. Quando acaba, toma água com a mesma empolgação.

Nunca briga por comida. Nem por brinquedinhos ou qualquer tranqueira mundana. Adora sol (de sair fritando). Adora chuva (de ficar ensopado). Adora tardes cinzentas, passadas feito estátua no meu colo. Nenhuma preocupação ou obstáculo atrapalha seu sono.

28.4.17

Mulher-Hulk e o filme que não terminou

Ela me recebeu com festa na porta do barraco da Cida, ignorando o feriado pascoal. Demorou para entender como subir no carro, mas aprendeu rápido que coisas incríveis aparecem e desaparecem nas janelas em movimento. Não desobedeceu nenhum comando ao longo da viagem até Campinas ― saudade do freio de mão do Escortinho, mastigado pelo Marley!


Aqui, abro um parênteses para agradecer o Marcelo Verdegay, a Paula Castro, a Rosemay Fenselau, a Vera Lúcia Ribeiro, a Andréia Toledo e a Bonna Straccialini pelo help com o pedágio, o combustível e, indiretamente, com o projeto de educação, conscientização e mobilização do Gatoca ♥. Fecha parênteses.

Cris preparou um almoço vegano árabe, neste cenário de filme:


Michele e Cléber, adotantes da Penélope e dos bebês Cartoon, estão na foto porque o mundo é uma pracinha. A própria Cris ficou com três ex-queletinhos da dona Lourdes, o caso mais antigo deste blog (quase dez anos). E Pérola continua viva!


O roteiro parecia de comédia romântica. Mas, na segunda, chegou a mensagem dizendo que a recém-batizada Hebe não havia se acostumado com a casa nova. Late sem parar de madrugada, arrumou briga com uma das cachorras e até lhe mordeu. Eu não sabia que ela ficaria do lado de fora porque dentro já moram 45 bichanos. Talvez, prefira ser pet de sofá.

Durante o tempo em que passamos lá, não saiu de perto do meu carro, provavelmente tentando dizer isso. :\


Me ajudem a encontrar a família certa para a pequena? Prometo que ela retribuirá com este olhar brilhante ― e uma tonelada de amor.

26.4.17

Trabalho em ONG não precisa ser só voluntário

Essa mentalidade provinciana é cultivada pela proteção animal brasileira. As organizações grandes, principalmente internacionais, contratam funcionários remunerados para garantir que as atividades estratégicas não sobrem para as horas vagas. Trata-se de matemática básica: o dia tem um tempo limitado, certo? Se a gente não precisar trabalhar com outra coisa, cresce mais rápido e ajuda mais bichos.

Eu sempre recebi pelos projetos desenvolvidos em ONGs renomadas de educação e, além de pagar as contas (capitalismo não é opcional), pude investir parte dessa grana no Gatoca ― que ainda não anda com as próprias patas. Se aproveitar de uma causa para ganhar dinheiro é bem diferente de ganhar dinheiro fazendo algo que ama e colaborando para despiorar o mundo.

Está na hora de pensar fora do cercado, pessoal.


Conscientização e sensibilização no CCSP (foto de Giuliana Miranda)

20.4.17

Aniversariante do mês - abril de 2017

Entre namoricos e sonecas despreocupadas com a ameaça de guerra nuclear, Clara* completou 11 anos em Gatoca. O primeiro aniversário sem seu amor ensolarado ― dormir de patas dadas com um frajola desastradamente encantador é diferente de partilhar uma década de cumplicidade e banhos de língua. Mas sinto que só o meu coração se apertou. A gata de retalhos sabe que a vida se esvai enquanto a gente perde tempo deixando de viver.


*Novelinha: Conheça a história da Clara

Outros aniversários: 2016 | 2015 |2014 | 2013 | 2012 | 2011 | 2010 | 2009 | 2008

13.4.17

Dos gatos aos humanos: um novo projeto

Eu tenho muitas amigas gateiras e boa parte delas coloca a mão na massa. Mas a Paula Martinez resgatou uma galinha. E a galinha estava presa na macumba! Nas três vezes em que ficou grávida, ela doou leite para bebês sem a sorte de suas pequenas. E há alguns meses fundou a Ciranda para o Amanhã, com o objetivo de ajudar mais efetivamente os meninos e meninas que moram nos 19 abrigos da Lapa expandida.

Se Paula me pedisse para pular da ponte, eu consideraria seriamente. Ainda bem que ela só queria algumas aulas de português para facilitar a buscar por emprego da molecada que acaba na rua ao completar 18 anos. Desenhei, então, o curso em quatro encontros, partindo dos interesses dos adolescentes e tomando o cuidado de plantar a semente da leitura, assim eles poderiam seguir sozinhos ― nesse tempo não se ensina a escrever nem tuíte e estamos falando de dezenas de vidas que a escola não soube conquistar.

O pessoal do Flores na Varanda cedeu o espaço de jardim colorido para as aulas não convencionais e recebeu a turma com café da manhã durante as três últimas semanas ― na próxima, rolará uma visita à Biblioteca de São Paulo. Teve conversa sobre potencialidades, orientação vocacional express, ditado com música do Racionais, crônicas em voz alta, produção de currículo lúdico, palavrões, mensagens dos abrigos sobre a empolgação dos meninos. Eu ganhei poesia, desenho, dobradura, sorrisos. E W., quase o dobro do meu tamanho, dizendo que não queria ir embora.


(Leo, parceiro de todas as horas, tirou fotos da coleção de olhos brilhantes, mas não podemos publicar.)


Por que este post está aqui no blog? Mona Lisa, a mascote do restaurante, serviria facilmente de gancho ― jornalistas fazem milagres com as palavras.


Mas a verdade é que não existe mundo melhor se a gente pensar compartimentado em bicho, gente, planta. E o próximo projeto do Gatoca será com crianças! Leitores que tomam chá com empresários do bem, mandem mensagem: contato@gatoca.com.br. :)

7.4.17

Das oportunidades de recarregar as baterias

Eu escrevi aqui no blog que ia rolar uma roda de conversa sobre como deixar o mundo melhor, no Centro Cultural São Paulo, né? O pano de fundo era um encontro de fã-clubes de k-pop (se você não entendeu nada, clique aqui). Domingão ensolarado, depois de doar Tempestade e Wolverine, me pus a contar, então, pela milésima vez, a história do Gatoca.

Acontece que eu nunca tinha feito isso com fotos. E a reação das pessoas a cada imagem, da tensão dos resgates à euforia das doações, funcionou como um lembrete da importância de sensibilizar a humanidade por meio dos animais. Porque a gente acha que está salvando cães e gatos ― e hamsters, cavalos, galinhas. Mas eles servem, na verdade, para iluminar nossas sombras.


Foto do Leo Eichinger ♥

6.4.17

Primeira liga de super-heróis doada! E dois pedidos...

Victor mora no 19º andar de um prédio no Tatuapé. E passou o sábado pendurado nas janelas do apartamento, com a ajuda da Anna Moreira, para receber a duplinha superpoderosa do DER de telas novas. Escolher os integrantes foi ainda mais difícil. Wolverine acabou conquistando pelo sossego e Tempestade porque precisava de tratamento para os fungos ― tem gente assim no mundo! ♥


Feiticeira Escarlate e Doutor Estranho nem chegaram a ser divulgados no Facebook, vocês notaram? É que Cida doou a tigrinha para uma família que viu o cartaz dos bichanos na clínica que faz as castrações pelo CCZ e o amarelinho para uma das veterinárias da equipe. Todo mundo de casa blindada e coração aberto.

Homem de Ferro foi morar com uma amiga dela e o Aranha aguarda o final da reforma de outra para curtir a vida longe das vielas do submundo. Agora, o clímax: se vocês ajudarem com a gasolina e o pedágio, Mulher-Hulk, a cadelinha que tinha tudo para encalhar no barraco, poderá combater o mal em Campinas! Mandem um bat-sinal que passo os dados da conta: contato@gatoca.com.br.


E continuem divulgando os outros peludos, por favor. Viúva Negra, Mulher-Invisível, Mulher-Maravilha, Vampira e Batgirl também merecem um esconderijo secreto.


30.3.17

A primeira roda de conversa com adolescentes

Existe um negócio chamado k-pop. Se você nunca ouviu falar, tem a minha idade ou mais e zero filho/enteado adolescente. Trata-se da abreviação de korean pop, um misturerê de rock, hip hop, R&B e música eletrônica, com sul-coreanos de cabelos coloridos fazendo passinhos sincronizados ― a febre teen do momento.

Existem adolescentes apertáveis que organizam um evento de fanbase (o fã-clube moderno) para comemorar o aniversário de um dos integrantes de seu grupo favorito e, aproveitando a paixão dele por cachorros, resolvem arrecadar ração para o abrigo em que a presidente é voluntária. E existe esta jornalista pró-humanidade que, quando pedem ajuda ao Gatoca com divulgação, oferece logo um bate-papo.

Domingão (2 de abril), no Centro Cultural São Paulo (Rua Vergueiro, 1000, Paraíso), às 15h30. Bora trocar experiências sobre como deixar o mundo melhor? Levem a filharada ou apareçam só para dar uma força, porque eu não decorei a coreografia.

16.3.17

Gatos e HQs unidos para salvar o próprio mundo

Os personagens deste post têm o superpoder de fazer rir nos dias em que tudo dá errado, esquentar colos no inverno (e no verão também), encher a casa de bagunça amor. Mas, em vez de morar nas livrarias com cheiro de papel novo, amontoam-se em um barraco de favela em São Bernardo (SP). Quem topa ajudar a Cida, diarista que os resgatou, a combater o crime do abandono?

É só escrever para bialevischi@yahoo.com.br ou compartilhar as fotos tiradas no último domingo, quando os primeiros super-heróis conquistaram sua família ― sim, há uma cachorrinha-bônus na lista. :)

Tempestade, 3 meses
Jogada no lixo com dois dias de vida, perdeu os quatro irmãozinhos, mas não desistiu do ser humano ― ama colo.


Wolverine, 1 ano
Carinhoso e brincalhão, foi desovado nas vielas da comunidade pela filha quando a mãe entrou em coma.


Batgirl, 1 ano
Irmã do Wolverine (licença poética), precisa ser conquistada porque sente falta da tutora.


Viúva Negra, 9 meses
Encontrada quase morta em uma das intermináveis obras da cidade, adora um cafuné.


Vampira, 9 meses
Dócil e faladeira, conheceu o gostinho de ter uma família por apenas alguns meses.


Homem-Aranha, 8 meses
Preso na corrente a maior parte de sua curta existência, não desaprendeu a ronronar.


Mulher-Invisível, 1 ano
Dengosa e tranquilona, corria risco de atropelamento em uma avenida movimentada.


Feiticeira Escarlate, 3 meses e meio
Parida na caçamba de lixo bem no dia de Natal, é grudinha que só apertando.


Homem de Ferro, 3 meses e meio
Irmão da Feiticeira Escarlate (aqui pode), tem um grande potencial de chameguice.


Doutor Estranho, 3 meses e meio
Irmão da Feiticeira e do Homem de Ferro (não surtem), curte um agito sem compromisso.


Mulher-Maravilha, 7 meses
Supercarinhosa, foi resgatada desnutrida, acreditem, na feira.


Mulher-Hulk, 7 meses
Adotada filhotica, voltou para a rua aos 6 meses sem que a família se desse ao trabalho de inventar uma desculpa. Adora brincar, mas não tem espaço no barraco. Ainda sofre bullying dos cachorros maiores ― três em um único cômodo.

14.3.17

Ensinamentos de uma criança para barbados

Iris estudou comigo há duas décadas, mas, por causa da bobeira adolescente, nós não chegamos a ser amigas. Cida castrou boa parte dos animais da comunidade em que rolou nosso mutirão e só recebe o salário de diarista. Na semana passada, por uma daquelas coincidências franciscanas, ambas resolveram me escrever.

A primeira querendo adotar gatinhos (um singular, na verdade, que virou plural por insistência) e a segunda querendo doar gatinhos (um plural que, por causa do abandono, fica cada vez mais plural). E lá fomos nós, domingão, amassar barro nas vielas do DER para buscar Harry Potter e Luke Skywalker.


Fotos assim tem aos montes aqui no blog. O que vocês nunca viram é esta listinha de nomes com letra de criança.


Ou um montinho de brinquedos favoritos para dividir com os novos amigos.


Eric, o filhote humano da Iris, nem completou 7 anos e já sabe a responsabilidade que envolve adotar um animal de estimação ― estou pensando seriamente em usar esta imagem para educar alguns adultos.


Para ampliar, cliquem na imagem

Quando juntar coragem de pegar os pequeninos no colo (nhó!), publico outro post. ♥

P.S. A visita à favela rendeu seção de fotos de 12 bichos, que protagonizarão a próxima campanha de adoção do Gatoca. Preparem-se para compartilhar!

10.3.17

Morte também faz aniversário

Pelo menos a nossa. No domingo, Catrina completou um ano de rabugice na casa da Laís e da Lara Razza. E ganhou festinha com bolo de chocolate ― embora não tenha usufruído dele. As meninas contaram que ela está mais dócil, brincalhona e ronronenta, comprovando minha teoria de que todo animal é capaz de desabrochar na família certa. :)

Que venham mais duas dezenas de velinhas!


Epopeia da Catrina, La Muerte na busca por um lar:

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