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3.8.21

Saudade

Você foi meu parto ao contrário. E, quando decidi te chamar de Clara Luz, não fazia ideia disso. Era uma homenagem a um livro de infância, sobre uma fada que não queria seguir as regras do livro das fadas. Nossa história toda, aliás, foi avessa a regras, né? Você quem me adotou, há 15 anos e (quase) quatro meses, enroscando as garras, de dentro da gaiolinha do pet shop, na minha blusa de lã.


E eu, que só tinha o Mercv, perguntei para a atendente se poderia te devolver caso a adaptação não desse certo — você, recém-abandonada em um saco de lixo com toda a ninhada! Se dependesse do seu gênio ariano adotivo, não daria certo mesmo. Mas Mercv te amou desde o primeiro instante. Hoje eu olho esta foto, que nomeei inexperiente como "beijo", e dou risada: você cogitava um ataque.


Aí, depois de sete anos e meio sem pegar um resfriado, apareceu um tumor, retirado com sucesso. E a hiperqueratose inofensiva, em 2015, que ninguém imaginou virar um carcinoma. Uma sorte, porque a quimioterapia te proporcionaria uma sobrevida de dois anos e você só baqueou nos últimos nove meses.

Nossa gestação ao contrário começou com o colar elisabetano, porque o machucado que nunca cicatrizaria passou a coçar cada vez mais e você transformou o escritório em um filme do Tarantino. Sem conseguir comer direito, a gente inventou de bater a ração úmida da Pet Delícia no processador e te dar de colherinha. 270 dias. Você curtiu cada um deles. E, quebrando a tradição mais uma vez, preferia lamber as costas da colher.

Não bastassem as limitações impostas pelo colar, ainda rolou um quase enforcamento com a coleira. Eu tentei muitos modelos e acabei te deixando o mais solta possível, com algumas derrotas para o carcinoma, porque você descobria novos jeitos de se libertar. Ninguém aproveitou tanto o terreno da nossa casa nova, aqui em Araçoiaba da Serra — o resto da gangue precisou se contentar com o gatil. Eu via seu colarzinho espetado no gramado, ao longe, e te chamava de girassol, lembra?


A primeira bicheira não demorou a nos aterrorizar. E tirei tantos ovos da sua cabeça depois dela que não sei de que jeito a segunda conseguiu evoluir. Você só desistiu dos passeios há quatro semanas, quando ficou cega de vez — o olho direito o carcinoma já tinha roubado no início da nossa gestação ao contrário. Como sobraram os insetos, criei as coleções "primavera-verão" e "outono-inverno". Várias vezes por dia alternava a "cobertura" entre o lençol e o edredom. Sempre com o Mercv colado — eu sei que sua paixão era o Simba, mas ele aceitou o segundo lugar com elegância.


Seus irmãos se afastaram porque seu cheiro mudou. Ele não se importava. E, quando eu limpava seu rosto com o paninho úmido quente, precisava tirar pus e sangue do pelo do coitado.


Me desculpa por ter gritado na noite em que você fez xixi na coberta? Era desespero de te deixar com frio. E, enquanto a máquina de lavar trabalhava, eu esquentava o lençol com secador, na esperança de me redimir. Bateu 2ºC naquela manhã — não esqueço porque esfreguei o colar no tanque com os dedos adormecidos.


Tentei colocar alarmes a cada duas horas para te levar ao banheiro. E fomos bem até o dia da diarreia. Eu só tinha experiência com fralda + gato paraplégico e fralda + bebê humano sem garras. Não foi fácil. Insistia só para te ver devorar feliz a xicrinha de patê. Esse era nosso acordo: aproveitar a comida, o sol no jardim, ainda que no colo, o carinho.


Anteontem você não conseguiu. Parece que o carcinoma chegou na mandíbula e a gente quebrou o galho com a pipeta, depois ficou só na água e ontem não desceu mais nada. Você miou sofrido quando sentei no gramado, dando a entender que preferia voltar. E nunca mais ronronou. Eu procurei um veterinário para te ajudar a descansar, mas quis dar a chance de ir sozinha primeiro. 24 horas, muitas lágrimas, meia oração, porque também não sou boa com protocolos.

Ajeitei seus 2,35 kg (de 6!) no meu quarto, aquele que ninguém entra porque sou uma gateira alérgica a gatos. Acordei nas três vezes em que você engasgou, botei no colo, arremessei o colar — você não precisava mais. Quando amanheceu, te trouxe para o sol e Mercv tratou de reassumir seu posto:


Foram dez minutos. Você gritou, eu te embalei e nublou.

Amanhã, quando abrir a janela do quarto, você será girassol.


*

Antes de morrer, sonhei que Clara tentava por três vezes, bem baixinho porque estava fraca, me dar um recado: "Se desesperar... Se desesperar... Se desesperar... pega uma bandeira e coloca no altar". Foram 12 dias quebrando a cabeça até me tocar que bandeiras representam coletivos — ordens religiosas, templárias, torcidas de futebol, brasões familiares.

E, quando pedi, a ajuda veio. Minha mãe e meu pai em sonho também, Tati Spinelli com um reiki que só fiquei sabendo depois (estrelado por Santa Clara e Pachamama!), Amanda Herrera perguntando se estava tudo bem, Mari Levischi mandando um vídeo sobre o tempo das coisas que importam. E Rose Hacklaender com a intermediação para a eutanásia desnecessária.

Eu não teria conseguido cuidar da Clara assim, aliás, se trabalhasse fora. Devo esse privilégio aos apoiadores do Gatoca, que me acolheram emocionalmente muitas vezes também. Ao Edu e à Maru, veterinários que viraram amigos, vieram ao interiorrr para consultar a retalhinha e responderam inúmeras mensagens fora do horário comercial. E à Mônica Campiteli, que nos socorreu no episódio da bicheira, uma das coisas mais desafiadoras que encarei na vida.

No final dessa gestação ao contrário, precisei apelar às drogas. E voltei para o corticoide, depois de cinco anos limpa e uma madrugada sufocando no hospital. Dr. Vagner passou semanas me acompanhando a distância, por texto e videoconferência, até desistir de cobrar pelas consultas — que loteria nenhuma no mundo pagaria, na verdade.

E, em todos esses momentos, cá estava ele: Leo Eichinger, o Mercvrivs que Chicão mandou para mim. ❤️

22 comentários:

Márcia disse...

Sinto muito muito muito muito muito muito... Tenho certeza que a Clara agora é uma luz lá no céu dos gatinhos e está feliz por encontrar o amor da vida dela por lá... Obrigada pelo texto... Imagino sua dor... E espero do fundo do meu coração que vc fique bem logo... Abraços virtuais bem apertados ...

Tati disse...

Clara agora é Clara Luz e renasce num mundo de sol e amor infinitos, onde junto ao Simba é livre das limitações físicas. Que a vibração do ronrom deles chegue até seu coração, retribuindo o amor e cuidados que sempre receberam. <3

Patricia disse...

Minha querida, sinta-se abraçada! Nenhuma palavra é suficiente para confortar nesse momento, mas a vida não é só isso que a gente vê aqui, isso é só uma ínfima fagulha na eternidade. um dia vocês irão se reencontrar com certeza, porque o corpo tem validade, mas a alma é imortal. Alegre-se ao pensar que ela está livre de toda a dor e sofrimento que vinha passando, em um lugar muito, mas muito melhor que esse em que (ainda) estamos. Um grande abraço!

Anônimo disse...

Lágrimas copiosas aqui, como quando Simba se foi...

Maria disse...

Por mais que a gente saiba que esse dia chegará, nunca estamos preparados.
É devastador, nos joga num abismo de onde nem queremos sair

Anônimo disse...

Sinto muitissimo. Quem passou por isso sabe que dor doida eh a perda de um animalzinho. Por outro lado, e nao sei se voce sentiu isso em algum momento, traz um pouco de comforto saber que demos a eles uma boa vidinha, mesmo nos dias mais dificeis e que agora pararam de sofrer. Abracos e espero que voce fique bem logo.

Elaini disse...

____o_____

Unknown disse...

Sinto muito. A Clara marcou todos os que de um modo ou outro acompanhamos o Gatoca. Força, ela foi cheinha de amor pro céu dos gatos.

Sergio Amorim disse...

Erika disse...

Bia querida... eu li no Face o chamado para a publicação e, novamente, me revesti de todo o sentimento e sensações que você consegue colocar e ainda não terminei de ler... porque as lágrimas não deixam...
Você sabe o quanto te acompanho à distância desde... sei lá de quando!
Tudo o que mais sinto desse momento todo é que não posso dar e nem receber um abraço. Vou terminar de ler...
Estou aqui. Beijo enorme!

Meg disse...

Arrasada....

Unknown disse...

Bia, queria te fazer sopa, te cobrir os pés, te dar cafuné, te tirar a dor com a mão...

Josi Camargo disse...

Sinto muito mesmo pela sua perda. A gente nunca está pronta.

Taciane disse...

Sinto muito Bea

Anônimo disse...

Oi, Bia. Faz algum tempo que acompanho o Gatoca. É impressionante a conexão que dá pra sentir com você e os bigodes só de ler os seus posts. Estava angustiada pensando em vocês desde o finzinho do mês passado.
Sinto muito mesmo. Espero que você consiga passar por isso do melhor jeito possível.

Seu Marcelo disse...

Sinto muito! Estou aqui pois suas dicas me ajudaram muito antes eu de passar por uma despedida muito semelhante. Pessoas com essas conexões são raras e tenho certeza que proporcionam a melhor vida que estes filhos poderiam ter. Chorei de soluçar, escrevi chorando. Deus abençoe.

Unknown disse...

Mais uma dor grande guerreira Bia. Nem sei as palavras pra digitar. Clara Luz é luz! Se cuida Bia.

ValLindinha disse...

Eu fiquei presa num posto do Simba e da Clara nós últimos momentos dele. Agora eu estou aos prantos aqui!

Beatriz Levischi disse...

Obrigada, gente! Tem tanto amor nestes comentários que voltei para reler! ❤️

Suzeli disse...

😭😭😭😭😭😭😭😭😭😭😭

Unknown disse...

😭😭😭😭 sinto mto mto mto msm. Nem consigo imaginar sua dor.

wcris disse...

Esperei um tempo para maratonar no Gatoca e agora entrei no filme da partida de Clara como se estivesse junto. Rio salgado. E coração que bate lento com as saudades mais sentidas, Tiffany, Boris, Pepê... Gwaine... e tantos outros que perdi. A cada vez pensei estar mais preparada para as partidas, afinal chegadas e despedidas são uma certeza na vida. Há sim o preparo de saber o quê/onde buscar. Mas o baque no coração será sempre novo, o lugar vazio no peito será novo ❤
Um abraço apertado, amiga. Que bom voce ter o Leo e o Mercv ❤️