Gatoca

Educação, sensibilização e mobilização pelos animais

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9.10.26

Eleições 2026: Lula ou Flavio Bolsonaro pelos animais?

Há 19 anos, o Gatoca educa, sensibiliza e mobiliza corações pelos animais ─ se você é novo por aqui, dá uma olhada nos projetos que a gente já fez juntos. E eu não podia deixar de contribuir para o debate que tem tomado as redes, pré-segundo turno das eleições. Já abro o texto ressaltando que um candidato à presidência que enxergue todos os bichos como sencientes ainda não chegou lá. Mas isso não quer dizer que Lula e Flávio Bolsonaro sejam iguais.

Clique em todas referências, aliás ─ não confie em informação sem fonte, mesmo que ela venha de uma jornalista rodada, rs. E espalhe para quem mais esteja em dúvida sobre a melhor escolha para governar o Brasil de animais humanos e não humanos, nos próximos quatro anos. :)


:: Propostas de Lula

- Ampliar o ProPatinhas

Ele oferece apoio técnico e grana para que estados e municípios possam esterilizar cães e gatos, implantar microchips que permitam sua identificação, ensinar os tutores a cuidarem melhor dos peludos, controlar as zoonoses (doenças que passam de bicho para gente), combater o abandono e os maus-tratos.

Como algumas páginas do site no Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima estão indisponíveis por causa do período eleitoral, usei a Lei de Acesso à Informação para pedir o número de beneficiados até agora ─ se responderem a tempo, acrescento. A meta é castrar mais de 675 mil animais até o fim do ano e fortalecer as caravanas no próximo mandato.


Para ampliar, clique nas imagens


- Dar continuidade ao SinPatinhas

O Sistema do Cadastro Nacional de Animais Domésticos reúne dados essenciais para o planejamento de políticas públicas de bem-estar para cães e gatos, como as que descrevi lá em cima. O responsável loga com a conta Gov.br, digita as informações do pet (mesmo que ele não tenha microchip) e, se quiser, pode imprimir a carteirinha para fixar na coleira.


Tem foto melhor de RG? 😂

Cerca de 1 milhão de bichos, em 97% dos municípios brasileiros, foram identificados até o momento.

- Realizar a Conferência Nacional de Proteção e Defesa dos Direitos Animais

Marina Silva, ministra do MMA, assinou a portaria em março (nº 1.641/2026) e anunciou a iniciativa em evento que reuniu especialistas, representantes do poder público e organizações da sociedade civil. O objetivo da conferência, prevista para 2028, é debater o futuro das políticas de proteção animal com quem põe a mão na massa.

- Fortalecer instrumentos e equipamentos de preservação da biodiversidade

Nesse trecho, o programa traz um adendo controverso: "sem abdicar de seu potencial para o desenvolvimento do país". Mas na sequência vem o incentivo à criação de Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPNs) e a busca por avançar em uma política de valorização dos 75 parques nacionais, integrando conservação ambiental, turismo sustentável, desenvolvimento regional e educação ambiental.

Para acessar o plano de governo completo do petista, clique aqui.


:: O que Lula já fez

Logo no dia da posse, em 2023, o presidente criou o Departamento de Proteção, Defesa e Direitos Animais, hoje vinculado à Secretaria Nacional de Biodiversidade, Florestas e Direitos Animais. E meteu um "revogaço" nas medidas do governo anterior:

- Suspendeu a concessão de novos registros para caçadores, atiradores e colecionadores (CACs), que também ficaram proibidos de registrar novas armas.
- Assinou o decreto que reestabeleceu o Plano Nacional de Combate ao Desmatamento.
- Determinou a retomada no formato original do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama), órgão que garante a participação da população.
- Anulou a norma que facilitava o garimpo ilegal na Amazônia, inclusive em terras indígenas e áreas protegidas.

Depois do ProPatinhas, do SinPatinhas e da Conferência Nacional de Proteção e Defesa dos Direitos Animais, teve a sanção da Lei Amar (nº 15.355/2026), que instituiu a Política de Acolhimento e Manejo de Animais Resgatados, voltada situações de emergência, acidentes e desastres ambientais.


E a edição do Decreto Justiça por Orelha (nº 12.877/2026), que aumentou as penalidades por maus-tratos ─ as multas, antes de R$ 500 a R$ 3 mil, subiram para R$ 1.500 a R$ 50 mil, podendo chegar a R$ 1 milhão nos casos com agravantes.

:: Propostas de Flávio Bolsonaro

A única menção aos animais se refere à criação de gado ─ cheque você mesmo, no plano de governo registrado pelo PL no TSE (Tribunal Superior Eleitoral).


Mas, pelos quatro anos do Bolsonaro pai, dá para antever o repeteco:

- Incentivo à caça

A emissão de licenças para caçadores mais do que triplicou durante o mandato de Jair, graças à política de flexibilização de acesso a armas e munições. Usando o javali como janela legal, o número de municípios com registros para abate saltou de 700, em 2017, para mais de 2 mil, em 2022.

E o povo praticava mesmo é a caça esportiva ─ como vegana, não acho que a vida dos javalis valha menos, só que o Ibama considera a espécie invasora e autoriza o controle populacional pelo abate regulamentado (com regras específicas e cadastro técnico).

Estudos publicados posteriormente mostraram que essa facilidade na compra de armas, aliada à menor fiscalização, acabou levando ao crescimento do abate ilegal de animais nativos e ameaçados de extinção, principalmente em regiões de fronteira agrícola (onde se cria boi e se cultiva monocultura) e na Amazônia.

Parlamentares da base de apoio ainda tentaram liberar geral, mas seus projetos de lei não foram aprovados.

- Flexibilização de regras ambientais

Com a justificativa de priorizar o desenvolvimento econômico e a expansão do agronegócio, o ex-presidente desmantelou o Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) e o ICMbio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade) ─ cortou verbas destinadas à fiscalização ambiental e ao combate de incêndios florestais, reduziu o quadro de funcionários, editou normas e despachos que dificultavam a aplicação de multas.

E nem vou falar da paralisação nas demarcações de terras indígenas, combinada ao incentivo do garimpo e da mineração em áreas protegidas, para o texto não ficar gigante.


- Apoio a rodeios e vaquejadas

Em setembro de 2019, Bolsonaro sancionou a Lei nº 13.873/2019, reconhecendo a vaquejada, o rodeio e o laço como manifestações culturais nacionais e patrimônio cultural imaterial do Brasil. Para quem não faz ideia, a vaquejada consiste em puxar o boi pelo rabo e derrubá-lo na areia, deixando-o com as quatro patas para cima.

A "diversão" pode provocar descolamento da pele, fratura das vértebras coccígeas, rompimento de ligamentos, arrancamento do rabo e danos à medula espinhal. A queda ainda causa contusões, fraturas nas costelas e nas patas, lesões viscerais e hematomas internos.

Já o rodeio é mais conhecido pela música sertaneja, mas talvez você não saiba que, para o animal pular daquele jeito, tem sua virilha esmagada por uma tira chamada de sedém e é constantemente golpeado com esporas. Eu não imaginava, inclusive, que se usam bezerros nas provas de laço. Pensa em um filhote recebendo aquele tranco na região do pescoço e da coluna. Estiramento muscular, fratura vertebral e traumas em órgãos internos acompanham o pacote.

- Falta de empatia até por bichos de estimação

Você deve se lembrar do pitbull Sansão, que em 2020 pulou o muro de sua casa em Confins (MG) para brigar com o cachorro de um vizinho e teve as duas patas traseiras decepadas com um facão. Pois o ex-presidente relutou em sancionar a Lei nº 14.064/2020, que elevava a punição por abuso, maus-tratos ou mutilação de cães e gatos para até cinco anos de reclusão.

Dias antes da assinatura, questionou a rigidez da pena, sugerindo que seria desproporcional, e só mudou de ideia com a pressão popular.

*

Está liberado não gostar do Lula ─ eu mesma tenho muitas críticas aos governos do PT. Se a democracia continuar de pé, no entanto, em 2030 nós dois poderemos escolher candidatos mais alinhados ao nosso ideal de país. 💚💛

2.10.26

Cluboca do Livro: quando gatos viram coterapeutas

Entre gateiros, os bichanos têm fama de escravizadores de humanos, pedintes de comida e escavadores de banheiro. Mas a psiquiatra Nise da Silveira os enxergava como coterapeutas e criou um climão quando decidiu levar "animais não humanos" ao hospital de Engenho de Dentro, no Rio de Janeiro, como alternativa ao eletrochoque ─ tratamento oferecido para pacientes psiquiátricos.


Estamos falando de uma mulher (a única de sua turma de medicina), alagoana, em 1955 ─ o Setor de Terapia Ocupacional, onde introduziu o trabalho com arte, ela assumira uma década antes. Certa de que cães e gatos eram seres afetivos, que poderiam estabelecer uma relação em que pessoas com esquizofrenia conseguissem se apoiar, Nise se tornou um ícone da luta antimanicomial, chamando a atenção de médicos importantes, como o suíço Carl Jung.

E fez muita gente chorar no cinema, em 2016, interpretada por Glória Pires, com direção de Roberto Berliner. Gatos, a Emoção de Lidar (1998), livro que discutiremos no dia 17, está esgotado há anos, mas a editora Leo Christiano nos autorizou a usar o PDF que roda na internet ─ Aline Silpe melhorou a resolução exclusivamente para o clube. ❤️


Nele, a psiquiatra traça o perfil dos felinos e seu papel relevante na vida do home, de divindades no Egito a amassadores de pãozinho, descrevendo suas qualidades metafísicas, o simbolismo nos sonhos e a influência na cultura. Com fotos de Sebastião Barbosa, homenageia também seus companheiros de peludos, incluindo Carlinhos (sim! rs).

A obra é considerada um pilar humanista na psiquiatria brasileira, mostrando que a saúde mental se reconstrói por meio da arte, da dignidade e das conexões afetivas interespécies. Para participar do encontro, basta apoiar o Gatoca com qualquer valor a partir de R$ 15 e preparar a bebida que seu humor pedir ― ainda dá tempo, o livro é curtinho!


Discussões anteriores

:: Vou te Receitar um Gato, da japonesa Syou Ishida
:: O Mestre e Margarida, do russo Mikhail Bulgakov
:: Um Homem Chamado Ove, do sueco Fredrik Backman
:: Um Gato entre os Pombos, da inglesa Agatha Christie
:: Felinos e Macabros, coletânea de contos de autores como Edgar Allan Poe, H. P. Lovecraft e Bram Stoker
:: Diário dos Gatos Yon & Mu, do japonês Junji Ito
:: A Mão Esquerda da Escuridão, da estadunidense Ursula K. Le Guin (que ainda não tive tempo de contar aqui no blog)
:: Good Omens: Belas Maldições, dos ingleses Neil Gaiman e Terry Pratchett
:: Macanudo, do argentino Liniers

23.9.26

5 jeitos de um gato descolado usar a caixa de areia

Para extravasar a frustração com as portas fechadas.


Para beliscar, quando a geladeira está vazia.


Para relaxar, depois de um dia sem fazer nada.


Para pegar um bronze.


Para comemorar a dominação mundial.

18.9.26

O gato (sumido) de Monet e o jardim de Giverny (#3)

Atualizado no dia 24, porque esqueci do vídeo!

Pensem em um lugar encantado, saído das páginas de um livro (ou de um quadro), com flores coloridas, uma ponte bucólica sobre o lago e passarinhos como única trilha sonora. Pois Claude Monet fez o caminho inverso: primeiro construiu o jardim de Giverny, em 1883, para depois pintá-lo ─ eternizando-o, inclusive, nas badaladas paredes do Musée de l'Orangerie, capítulo anterior desta série.


O espaço era promissor: 10 mil m² de pomar, com uma horta e o caminho que levava até a casa margeado por ciprestes e abetos. Monet trabalhou incansavelmente, então, para torná-lo perfeito. Batizado de Clos Normand ("Terreno Normando"), por ficar na região francesa da Normandia, o jardim ganhou arcos de metal com rosas perfumadas e capuchinhas, e as macieiras foram substituídas por cerejeiras e árvores de damasco do Japão.


O chão passou a ostentar milhares de narcisos, tulipas, íris, papoulas orientais, peônias. No lado esquerdo, o artista plantou canteiros de cores únicas, como nas paletas de pintura, aplicando seu conhecimento pictórico para criar efeitos de perspectiva, mostrar a residência e intensificar as áreas sombreadas. Em 1893, comprou um terreno do outro lado da rua para a parte aquática, desviando o curso do córrego Ru, um braço do rio Epte.


Sobre lago particular, atravessou uma ponte verde de estilo japonês, cercou o local de espécies orientais, como bambus, bordos e salgueiros-chorões, e completou com as famosas ninfeias (nenúfares ou lírios-da-água), parentes da vitória-régia amazônica: "Eu gosto de água, mas também gosto de flores. É por isso que, a bacia cheia, pensei em adorná-la com plantas. Peguei um catálogo e fiz uma escolha para a pequena felicidade, só isso".


Pequena felicidade para um homem, saltitos para a humanidade, que pode contemplar em museus pelo mundo o jogo de luz com reflexo celeste que tanto fascinava Monet. Parêntese para contar que quando ele morreu, 43 anos depois, Clos Normand ficou abandonado, até ser restaurado pelo curador do Palácio de Versalhes e aberto ao público em 1980 ─ quando nasceu esta jornalista, que também amava passear com o pai em um jardim japonês, embora bem menos exuberante.


"E o gato?", vocês devem estar se perguntando. Ficava na casa, igualmente pintada com as cores da paleta do artista ─ verde para as portas e persianas, amarelo para sala de jantar, azul para a cozinha. Não se tratava, contudo, de um ser ronronante, mas de uma escultura de biscuit (ou porcelana fria), produzida no Japão (notaram a obsessão, né? rs), em meados do século 19.


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Michel Monet herdou-a do pai, faleceu num acidente de carro, em 1966, e o bichano passou 45 anos desaparecido! O mistério só foi solucionado em 2011, quando Adrien Meyer, especialista em arte impressionista, avaliava os bens de Rolande Verneiges, filha ilegítima (e secreta) de Michel ─ seu apartamento escondia um verdadeiro tesouro de obras originais e o gatinho deitado despretensiosamente no piano.

Hideyuki Wada o arrematou em um leilão por $ 67 mil e doou à Fundação Claude Monet, para que o pequeno voltasse a descansar em sua almofada favorita ─ com plaquinha de agradecimento.


Há uma réplica da peça também no quarto de Blanche Hoschedé-Monet, enteada e única aluna do pintor.


Guardei por seis meses a calça bafônica que ganhei das meninas, só para estrear nessa ocasião.



Tati comprou as passagens erradas de trem, chegamos superatrasadas à Giverny e não deu para esticar até Rouen, onde queimaram Joana D’Arc. Usando as passagens "certas", porém, não veríamos o jardim com sol. Tenho pensado muito sobre isso ─ e, para provar que não sou iluminada, contrabandeei sementes do Monet para Gatoca.



Veja também:

:: Gatos históricos de Paris ─ e a viagem à França (#1)
:: Gatos dos museus d'Orsay e l'Orangerie (#2)
:: Os gatos famosos do museu do Louvre (estreia em outubro)

9.9.26

Macanudo: encontro do Cluboca do Livro

A ideia era escolher um dos 11 volumes de Macanudo publicados no Brasil, mas quem resiste a um quadrinho que junta coelho escritor, frajola com nome de cineasta italiano, pinguins ativistas, criança com questões existenciais, amigo imaginário sem gênero definido, duendes usando chapéus de pompom e uma figura misteriosa com nariz de cenoura?


Acabei comprando o primeiro e o especial de dez anos, para juntar com o quarto e o quinto, lembranças da exposição do Centro Cultural Correios, em julho de 2015, quando assisti ao Liniers compartilhar sua euforia numa folha em branco gigante ─ e comi algodão doce com a Amanda, que vocês acompanham por aqui há duas décadas.


Para ampliar, cliquem nas imagens



Ricardo Liniers Siri nasceu na Argentina, tem parentesco com um vice-rei fuzilado e, para a nossa sorte, não seguiu a carreira de publicitário. Aos 29 anos, encarou a crise política e econômica de seu país, a tensão mundial pós-ataque terrorista às Torres Gêmeas dos Estados Unidos e decidiu que os leitores de jornal mereciam "uma pequena carícia".

Por indicação da quadrinista Maitena, suas tirinhas "bacanudas" (em um misto de tradução livre e licença poética) começaram a sair no La Nacion, chegando ao Brasil em 2009 pela Folha de S.Paulo. De lá, tirei esta confissão: "Meus quadrinhos têm uma alma meio tangueira, uma coisa argentina de alimentar frustrações. Queremos ser pentacampeões, e isso nunca acontece. Queremos ter políticos honestos, e eles não aparecem".

Identificação explica o sucesso bananeiro da HQ, marcada pelo non sense e mais necessária do que nunca. Michel Gherman, professor de sociologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, diz que o fascismo odeia o abstrato porque vem acompanhado por alteridade e pensamento crítico ─ compreender o outro exige a capacidade de imaginar uma realidade diferente da nossa. "Um mundo somente literal é um mundo militarizado".


No encontro, cada participante mostrou suas tirinhas favoritas e compartilho as minhas aqui, para vocês também se divertiram com os personagens líricos, melancólicos, reflexivos e amalucados do Liniers ─ que se desenha como um coelho, estratégia para ajudar a rir de si mesmo. Ele desconhecia o alter ego leporídeo de Matt Groening, mas recebeu a benção oficial do criador dos Simpsons quando sua cunhada passou a namorá-lo.


(Referência à comédia de ficção científica O Dorminhoco, sobre um dono de loja de produtos naturais e aspirante a músico de jazz que acorda do congelamento sem consentimento em um futuro distópico, onde os dissidentes têm seus cérebros eletronicamente simplificados.)

Fellini homenageia o diretor italiano Federico Fellini e divide suas aventuras com Enriqueta, uma garota introvertida, meio filósofa e apaixonada por livros.





Olga, um monstro azul e peludo, aparece apenas para Martinzinho e, contrariando a expectativa do autor, virou um dos personagens mais queridos do público ─ Liniers pretendia desenhar um boneco que protegesse o garoto, como o Han Solo de sua infância, só que não conseguiria pagar os direitos autorais ao George Lucas.


O Misterioso Homem de Negro brinca com os clichês visuais do mistério, em contraste com situações banais. "Fiz num dia em que estava me sentindo esquisito, pus nele capa e chapéu para ficar elegante, mas não achava que iam gostar, porque suas histórias não se fecham."



Os pinguins (e outros animais) traduzem sentimentos puros e o estranhamento do cotidiano, com uma boa dose de crítica social.


Já os duendes exploram o absurdo e o encantamento, isentos de qualquer racionalidade.


Tem, ainda, as tirinhas com famosos, como Picasso.


De formatos experimentais.



E que funcionam como chacoalhões amorosos.







Discussões anteriores

:: Vou te Receitar um Gato, da japonesa Syou Ishida
:: O Mestre e Margarida, do russo Mikhail Bulgakov
:: Um Homem Chamado Ove, do sueco Fredrik Backman
:: Um Gato entre os Pombos, da inglesa Agatha Christie
:: Felinos e Macabros, coletânea de contos de autores como Edgar Allan Poe, H. P. Lovecraft e Bram Stoker
:: Diário dos Gatos Yon & Mu, do japonês Junji Ito
:: A Mão Esquerda da Escuridão, da estadunidense Ursula K. Le Guin

2.9.26

Vermífugo palatável para gato difícil

Vocês não me veem falando de remédio porque precisei usar pouquíssimas vezes com os bigodes ─ aprendi com a partida do Simba, aos 13 anos, que estresse agrava a maioria dos problemas e quanto mais natural for o tratamento, melhor. Pipoca e Pufosa viveram, então, até os 16; Clara e Mercv, 16 e meio; Guda e Pimenta, 17; Keka e Chocolate, 17 e meio; Jujuba, 19.

Mas os vermes (Dipylidium caninum) do Intrú derrotam as pipetas há três anos ─ até porque ele insiste em experimentar toda a variedade da fauna araçoiabana. E queria testar uma versão em comprimido, sem perder os dedos ─ preocupação de sobrevivente de dez ataques. rs

Não botei muita fé quando sugeriram no nosso grupo de apoiadores um vermífugo palatável. O gordinho consegue estilingar com a língua os grãos de ração que considera velhos! Só que o Milbemax também se destacava pelo tamanho e decidi arriscar ─ paguei caro, fiquei indignada por virem apenas dois na cartela em que cabiam seis e não ganhei um centavo pelo post.

Sabendo que o frajola mia loucamente na hora do sachê da Pet Delícia, enchi o potinho, aproveitei a abertura de boca e tasquei-lhe o comprimido. O coitado estava tão concentrado no cheiro de frango que engoliu sem nem dar bola. Depois de duas décadas, terei eu um gato fácil de medicar ou a minidrágea é realmente palatável? Será que resistiria à mastigação?

Contem a experiência de vocês nos comentários!

27.8.26

Gatos dos museus d'Orsay e l'Orangerie (#2)

Eu fui uma criança privilegiada, a ponto de ter obra de arte favorita em museu ─ dona Vera recebeu uma educação burguesa, incluindo latim, francês, etiqueta, piano e violão, mas o dinheiro não sobreviveu às minhas fraldas descartáveis, um luxo para bebês de 1980, rs. Na primeira visita ao Masp, fiquei encantada com as irmãs pintadas por Renoir.


(Para ampliar, cliquem nas imagens)

A menorzinha, de olhos chorosos, lembrava Mariana e eu, o oposto de loira, também costumava andar com ela de mãos dadas, protetora. Rosa e Azul, de 1881, retrata Alice e Elisabeth, filhas do banqueiro Louis Raphael Cahen d’Anvers, que, diferente do resto da humanidade, não gostou do quadro pronto e o pendurou na parte da casa em que ficavam os empregados.

Tudo isso para dizer que, apesar das acusações de machismo, foi emocionante pegar as exposições Renoir et l'Amour: la Modernité Heureuse (1865-1885) e Renoir Dessinateur, no Musée d'Orsay ─ antiga estação ferroviária, que guarda a maior coleção impressionista e pós-impressionista do mundo e quase foi demolida na década de 1970.


Renoir e o Amor: a Modernidade Feliz reunia 50 pinturas das duas décadas iniciais da carreira do artista, entre as badaladas Banhistas na Grenouillière, Os Guarda-chuvas, O Passeio e Dança em Bougival. Mas eu prometi bichanos, né?

Garoto com Gato, de 1868, é um óleo sobre tela e a legenda o descrevia como um dos mais estranhos dessa fase, porque nenhum pretexto histórico ou mitológico justifica a nudez do jovem modelo, mesmo que sua pose evoque certas representações do deus Eros, para os Gregos, ou Cupido, para os romanos.

A luz fria e a camada grossa de tinta, influência do realismo cru de Gustave Courbet e Édouard Manet, contrastam ainda com o gesto afetuoso em relação ao animal, dando uma sensação de ternura e intimidade à cena. Acreditam se tratar de Félix, irmão mais novo de Lise Tréhot, principal modelo e companheira romântica do pintor.


Já Renoir Desenhista trazia uma centena de obras em papel, muitas delas inéditas, com técnicas gráficas variadas ─ caneta e tinta, giz preto, grafite, carvão, giz vermelho e branco, pastel, aquarela, gravura e litografia. Segundo Jean Renoir, filho do artista, ele nunca deixou passar um dia sem esboçar algo, mesmo que apenas uma maçã no caderno.

Criança com Gato (Julie Manet), de 1887, também é um óleo sobre tela, mas estava acompanhado pelo estudo em carvão sobre papel azul. Notem que na versão final Renoir gira o torso de Julie, filha de Berthe Morisot e Eugène Manet, irmão do pintor famoso, para conferir mais dinamismo e elegância ao retrato ─ do peludo a gente não sabe nada.




E não podia deixar de compartilhar o Estudo para Mulher com Vaca, de 1886, misto de aquarela, caneta, tinta e lápis grafite sobre papel. Não parece que a camponesa leva uma pulga para passear? A paisagem se refere à Saint-Brisac, na Bretanha, e a "pulga" vai virar uma ovelha. rs


O site informa que Orsay também abriga O Gato Branco, quadro de 1894, em que Pierre Bonnard usa a distorção para criar uma imagem humorística de bichano arqueando as costas ─ qualquer semelhança com o estilo de Hokusai não é mera coincidência.

E estão na reserva técnica ou emprestadas as obras felinas de Théophile-Alexandre Steinlen, conhecido pelo cartaz do cabaré Le Chat Noir (O Gato Preto): Gato na Poltrona, entre 1859 e 1923, Gato Preto Deitado em Posição de Bola no Sofá, de 1920, e Gato Sentado, de Frente, com a Cabeça Voltada para a Direita, com data indeterminada.

(Fotos e explicações nos links, que vocês conseguem ler em português clicando no botão de traduzir do navegador.)

No Musée de l'Orangerie, o destaque é a coleção das Ninfeias, assinada por Monet, pintor do meu coração adulto, que representa o jardim deslumbrante que visitamos em Giverny (próximo capítulo!).



Mas o bichano se escondia na exposição do Henri Rousseau, L’Ambition de la Peinture (A Ambição da Pintura). Autodidata e ridicularizado pelos críticos da época, ele trabalhava como inspetor alfandegário e se tornou a figura mais marcante da arte naïf (ingênua ou primitiva), conquistando admiração de uma vanguarda europeia que incluía nomes como Pablo Picasso e Jean Cocteau.

Retrato da Madame M., concluído por volta de 1895, pode se tratar de sua primeira esposa, Clémence Boitard, falecida em 1888. Rousseau curtia botar mulheres de traços marcantes em cenários enigmáticos, então não me perguntem por que o gato de estilo medieval e tamanho desproporcional brinca com um novelo de lã no meio do caminho.



Comecei o post com Renoir e este artigo do PubMed Central, um arquivo digital mantido pela Biblioteca Nacional de Medicina dos Estados Unidos, justifica terminar com ele. Aos 60 anos, sofrendo com as dores de uma artrite reumatoide agressiva, que só amenizava no calor, o pintor passou a trabalhar segurando no colo um dos muitos gatos que viviam ao redor da casa.

O Instituto Pasteur de Paris, a quem especialistas e historiadores recorrem para verificar a autenticidade de obras de arte, chegou a identificar pelos felinos na tinta de seus quadros, ajudando a datá-los. Outra curiosidade maluca é que o médico dele na época, Dr. Gachet, aparece neste retrato de Van Gogh, mais um paciente célebre.


Veja também:

:: Gatos históricos de Paris ─ e a viagem à França (#1)
:: O gato (desaparecido) de Monet e o jardim de Giverny (#3)
:: Os gatos famosos do museu do Louvre (estreia em outubro)