Gatoca

Educação, sensibilização e mobilização pelos animais

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31.7.26

Gatos históricos de Paris ─ e a viagem à França (#1)

Atualizado às 19h57

Quando elas decidiram comemorar nossos 30 anos de amizade em Paris, eu estava cuidando da Keka, senão teria respondido com a complacência destinada às crianças que ostentam rabiscos como Picasso. Os planos seguiram, Keka partiu, emendei os cuidados com a Jujuba e nos intervalos tentava acompanhar os vídeos temáticos que se acumulavam no grupo.

Não é que me faltasse só corpo (e emocional), eu também não saberia de onde tirar a grana para uma viagem internacional ─ nem bate e volta para a praia rolava há sete anos. Mas não adiantava argumentar. Aceitariam minha ausência apenas em caso de morte ─ da gata, o que acabou acontecendo, na semana anterior. E tudo saiu ainda mais caro pela possibilidade de cancelamento.


Eli pagou o hotel com cama extra, Fê trocou milhas pela passagem de avião, MFê comprou o ingresso mais alto para a torre Eiffel, aquele que incluía champanhe, Bá escolheu um restaurante vegano do Guia Michelin e a camiseta girls trip ficou por conta da Tati. Minha participação se resumiu a desenhar a baby look de zoeira, com a ajuda do Leo, e ligar o computador por quatro madrugadas até conseguir ingressos gratuitos dos museus mais disputados ─ acordada eu já estava.


De peruca e sorriso congelado na torre


Fazendo valer a camiseta na Cloud Cakes

No pacote, ainda entrou a Disney, com hospedagem do Toy Story e a icônica queima de fogos no castelo, um sonho que minha mãe não viveu para realizar e de que Eli me outorgou representante (motivo da cara inchada na foto). Nem fui a melhor das companhias ─ precisava desesperadamente dormir, sofria com o frio embrulhada em múltiplas camadas de roupa, não podia comer em qualquer lugar, sempre sobrava para trás fotografando.


Esnobando seu Valdisney


Sendo esnobada de volta


Sentindo saudade

Espero retribuir o carinho com esta série ─ tinha tanta coisa incrível para ver que muitas vezes o contexto passava batido. E estendo também a vocês, que me conheceram uma década depois, já gostando de gatos ─ aos apoiadores, trouxe presentes. E Intrú ganhou um Remy, o ratinho de Ratatouille, para assassinar sendo fofo.

Bouquinistes

Às margens do Sena, eles compõem a maior livraria a céu aberto do mundo, uma tradição que vem do século 16, hoje considerada patrimônio cultural imaterial da França ─ os bouquinistes aparecem até no clipe novo da Céline Dion. Cerca de 900 caixas verdes fixadas ao parapeito do rio se desdobram em barracas para comercializar 300 mil livros usados, de edições antigas a raridades, cartazes, cartões postais, gravuras, selos e colecionáveis.


Para ampliar, cliquem nas imagens


Jardim de Luxemburgo

Abriga o palácio que atualmente serve como sede do Senado, a Fonte Médici, plantas escupidas como estátuas e estátuas que parecem reais. Talvez não seja o caso deste gatão, encomendado para representar poder e proteção, mas seu criador tem uma história legal: Jean-Baptiste Henraux recuperou a pedreira de mármore do Monte Altíssimo, na Itália, de onde Michelangelo retirou os blocos para a Basílica de San Lorenzo ─ e em que descobriram recentemente uma sala secreta com estudos atribuídos a ele.



Shakespeare and Company

Inaugurada por George Whitman em 1951, a livraria foi considerada por Sylvia Beach uma "sucessora espiritual" da sua, ponto de encontro para escritores expatriados como Ernest Hemingway, F. Scott Fitzgerald e T. S. Eliot ─ Beach publicou Ulysses, de James Joyce, quando ninguém mais ousava fazê-lo! Mesmo a Shakespeare and Company atual teve entre seus visitantes Anaïs Nin e Julio Cortázar.


Eles provavelmente dividiram o espaço com algum mascote, porque quatro cachorros e oito gatos vêm se revezando na função ao longo de sete décadas, incluindo Aggie, encontrada na seção de mistério, batizada em homenagem à Agatha Christie e falecida no Halloween de 2022 ─ quem nos recebe agora é a canina Djuna (Barnes), mas até porquinho já passou pela librairie independente mais famosa do mundo.


Como não pode fotografar do lado de dentro, aceitem estas imagens clandestinamente tortas da sala de leitura. rs



Catedral de Notre-Dame

Se tem coisa que católico sabe fazer é igreja maravilhosa. A arquitetura gótica da Notre-Dame, cuja construção durou 182 anos (entre 1163 e 1345), guarda o único monumento funerário medieval sobrevivente em seu local original. E Simon Matifas de Bucy, bispo de Paris entre 1290 e 1304, descansa eternamente acompanhado por ele: o leão, símbolo de coragem e proteção, lembram?




Igreja de Santo Eustáquio

Em Paris, há uma igreja inteirinha dedicada a São Francisco de Assis, a Église Saint-François-d'Assise, localizada no 19º distrito, mas só fiquei sabendo depois. O Chicão que trago para representar o padroeiro dos bichos é da Église Saint-Eustache, uma das mais visitadas da cidade por sua arquitetura gótica tardia e por ter o maior órgão da França.


Projetada pelo arquiteto italiano Domenico da Cortona e construída entre 1532 e 1632, ela batizou Madame de Pompadour, casou Molière e velou a mãe de Mozart!


Faubourg Daimant

Acho que nunca comi nada tão chique. E sensacional! O Faubourg Daimant junta alta gastronomia e culinária à base de plantas, "inspirando-se nas tradições burguesas da França". Neta de um restaurador vietnamita, a chefe Alice Tuyet é vegana há oito anos e se diz obcecada pelo bem-estar animal. Olha a felicidade da vegana aqui!



Nós pedimos o "menu experiência", que oferecia uma amostra generosa de cada prato. Escolhi destacar o caviar de algas bretãs, porque caviar sempre tem ovas de peixe, né? Mas também fiquei impressionada com o carpaccio de rabanete, o repolho recheado, as cenouras glaceadas e a berinjela à milanesa ─ esqueçam a ideia de vegetal com gosto de vegetal. Quando não cabia mais meio croquete, chegou a sobremesa: bolo, pavlova e ganache.


LaCrèma

A sorveteria artesanal que forma fila na porta também é vegana e de uma brasileira. Fundada pela mineira Roberta Faria, LaCrèma trabalha com máquinas que movidas à água, colheres de biscoito comestível, frutas que os supermercados recusam pela aparência, açúcar de beterraba não refinado. E chantilly grátis!


A casquinha da foto combina chocolate de Madagascar com cookies & cream, mas também experimentei os sabores de gianduia e pistache, memória afetiva. Zero diferença dos sorvetes preparados com leite de vaca!


Disney Paris

Quem não se encanta com a Disney carrega uma pedra no peito ─ eu me derretia até com a Montanha Encantada do Playcenter! Este Gato de Cheshire, também conhecido como Gato Que Ri, decora a Fantasyland, parte do parque destinada a crianças de até 7 anos. Fiquei com vontade de espiar o labirinto de Alice no País das Maravilhas? Fiquei. Mas tomei vergonha na cara e fui passar medo na montanha-russa do Indiana Jones.


Na história de Lewis Carroll, escrita em 1865 e reinterpretada até hoje, o Gato de Cheshire consegue sumir e reaparecer quando quer, além de dar conselhos enigmáticos ─ é dele a manjada frase: "Se você não sabe para onde vai, qualquer caminho serve". O meu, sem querer, levou a um conto de fadas.



Em breve...

:: Gatos históricos de Paris ─ e a viagem à França (#1)
:: Os gatos dos museus D'Orsay e L'Orangerie (#2)
:: O gato (desaparecido) de Monet e o jardim de Giverny (#3)
:: Os gatos famosos do museu do Louvre (#4)

24.7.26

A saga do comedouro automático para gatos

Uma semana pesquisando modelos de comedouro automático para gatos na internet e a conclusão era desanimadora: nenhum deles parecia prestar. Vários tinham o pratinho de plástico, enquanto os de inox deixavam a desejar no tamanho. Um vinha sem fonte, outro com cabo específico e curto. Muitos usavam o aplicativo da Tuya, que já nos tortura com as luzes do jardim.

E as avaliações também não ajudavam: porções imprecisas, programação zerada mesmo com pilha de backup, bichano que aprendeu a apertar o botão de emergência para soltar a ração ─ essa, ao menos, me fez rir. Lorena sugeriu no nosso grupo de apoiadores uma versão mais analógica, sem design burro, mas ela não funcionava com app e não dava para acionar a distância.

Acabei escolhendo o da Positivo, mais caro, com o reservatório mais transparente do que gostaria e um cliente revoltado por ter perdido dois comedouros após um ano de uso ─ espero contar com melhor sorte.



A reação do Intrú lembrou as cinco fases do luto: negação, se recusando a acreditar que aquele monte de comida permaneceria inacessível; raiva, alternando entre tentar puxar a ração pela saída com a pata e forçar a tampa do reservatório com o nariz; barganha, me encarando com as pupilas dilatadas do Gato de Botas; depressão, agachadinho ao lado do prato vazio; aceitação, quando finalmente entendeu que aquele não era o brinquedo interativo de chacoalhar.


E voltei a dormir de madrugada, depois de um ano e oito meses ─ mais por causa da Jujuba, que partiu no fim de maio, do que do frajola. Agora, programo a traquitana para liberar duas porções (12 g) à 1h30 e mais duas às 5h30, podendo soltar a ração pontualmente pelo app deles também, sem que a criatura se ponha a miar na porta do quarto quando levanto para fazer xixi.

Importante esclarecer que tenho alergia a gatos, por isso o gordinho fica do lado de fora, e que o apelido dá spoiler do motivo da compra do comedouro. A gente tentou puzzle toys de formatos diferentes (tabuleiro e joão-bobo), mas ele termina ambos muito rápido. Já, durante o dia, investimos na alimentação úmida para manter os rins felizes.

Ah! Os veterinários alertam para não usar o recurso de gravação de voz, porque ouvir o tutor chamar no vácuo deixa os coitados confusos ─ muitos se põem a procurar pela casa.

17.7.26

Quanta água um gato precisa beber por dia?

Essa pergunta sempre surge quando termino de palestrar sobre a importância de garantir a hidratação dos bigodes, que geralmente não querem beber água nenhuma ─ porque na natureza árida do norte da África e do Oriente Médio eles tinham de se contentar com o sangue e as vísceras de suas presas, compostas por 70% de líquido, e blábláblá.

O cálculo é até simples: basta multiplicar 50 ml pelo peso do animal ─ um gato de 5 kg, portanto, deveria secar um potinho de 250 ml. Já a execução dá mais de trabalho. Comecem mantendo a água fresca, em bebedouros limpos, com pedrinhas de gelo no calor. Se sobrar uma grana, invistam em fontes, como esta que Jujuba decidiu usar de um jeito disruptivo antes de morrer.


Ração úmida é obrigatório, já que a quantidade de água da tradicional não passa de 10% ─ Jackson Galaxy diz que o sachê mais porcaria funciona melhor do que a ração seca mais super premium. Sei que comida que azeda fora da geladeira complica a rotina de quem passa o dia na rua, mas ofereçam como complemento à dieta. Não faltam opções no mercado e a gente ainda pode dar uma batizada. :)

Se seu amigo não curtiu a experiência, tente outra textura, sabor, marca ─ o blog está cheio de dicas, vejam os links no final do post. Sobrevivente de uma década de cuidados com gatos renais, doença causada justamente por déficit na hidratação, vocês sabem que eu também advogo pelas seringadas de água, gratuitas, né? E o vet só recomendou fluidoterapia nos raros casos em que nada parava no estômago.

Tratei de correr atrás do prejuízo depois da partida do Simba, aos 13 anos. Pipoca e Pufosa viveram 16, Clara e Mercv 16 e meio, Guda e Pimenta 17, Keka e Chocolate 17 e meio, Jujuba 19. Valeu cada centavo e a tendinite. rs


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10.7.26

2ª temporada de Gatoca: é, adotei o Intrú

Vocês já sabem que não fui para Cancún, tomar drinks de guarda-chuvinha na piscina de borda infinita, né? Chicão rejeitou meu pedido de aposentadoria por tempo de serviço prestado aos gatos e nem um guarda-chuvinha da Pan eu ganhei. Essa história, porém, traz outro personagem e foi a jornada dele que fez o público se emocionar.

Cabeçudo, faminto e machucado, Intrú podia ter escolhido qualquer casa ─ na verdade, ele escolheu, mas derrubou uns livros de autoajuda da estante e logo percebeu que merecia mais. Gatoca estar fechada para novos integrantes, principalmente FeLV+, era um detalhe. Nosso anti-herói, serial killer de passarinhos, não trabalha com pressa.

Meses se passaram, os bigodes idosos foram diminuindo no almofadão, até que sobrou apenas a Jujuba. E, como nos blockbusters as coisas sempre tensionam antes do desfecho favorável ao protagonista, ela viveu mais um ano e meio. Em 15 de junho, quase três de espera depois, o gordinho finalmente entrou em casa ─ importante dizer que convidado, porque das invasões perdemos a conta.


Leo e eu havíamos feito um bolão: ele correu para o pote de ração renal, que não estava mais no chão porque a renal também partira, recorrigiu a rota para dar com a porta do quarto fechada e terminou comendo areia da caixa do lavabo. O que ninguém imaginava era que o gato de patinhas de elefante seria uma coletânea da gangue.

Ele caça como o Simba, mas se assusta como as Gudinhas ─ e, quando a gente menos espera, vem no colo. Desfila com os brinquedinhos na boca como a Pimenta. Ama mamão como o Mercv e (cheiro de) pão francês como a Guda, além de petelecar bolinhas para baixo dos móveis. Quando abrimos o atum vegano, paixão da Pipoca, quase derrubou a pizza. Afia as unhas no tronquinho do gatil, como a Chocolate.


E é um vadio como a Clara. No segundo dia, se pôs a miar na porta de vidro da lavanderia, aquela em que passou dois anos aporrinhando para entrar, querendo sair. No terceiro, conseguiu fugir escalando o alambrado e voltou com diarreia.


Comecei a desenhar um projeto de blindagem, só que o bicho não curte ser contrariado (sete anos na rua) e achei melhor investir primeiro na sedução: brincadeira de varinha crepuscular, sachê da Pet Delícia sem restrições, burrito de cobertor no frio, carinho a qualquer momento.



Nem o ratinho é um simples ratinho. Foi comprado em Paris, com o logo da Disney brilhando na bunda.


Pois ele tem saído cada vez menos e parece que não mais do terreno ─ esses dias, voltou correndo para usar o banheiro, hábito que pensei que jamais emplacaria, após sucessivos fracassos e com 90 m2 de gramado. Quando sento na privada, aliás, vem fazer xixi sincronizado. Ainda fica preso no telhado, tentando se infiltrar no quarto pelas portas do contêiner que fecham o janelão. E toca Leo, que já acumulava a função de coveiro, atuar como bombeiro.



O comedouro automático merece um texto à parte, mas vale adiantar que ele confunde com o joão-bobo, que basta estapear para soltar mais ração ─ pelo menos tem me substituído nas refeições da madrugada porque, 20 meses sem dormir, estou a ponto de assassinar alguém. E o parquinho talvez precise de mais ousadia. Ou de peças maiores.

Há 20 anos e meio, Mercv chegou e mudou tudo. Eis que outro frajola não solicitado estreia a segunda temporada de Gatoca.


Obrigada Alice, Samanta, Renata, Vanessa, Paula, Elaigne, Bárbara, Reginas, Solimar, Lorena, Michele, Adrina, Fernanda, Roberta, Viviane, Liliane, Neide, Glaucia e Elisa Serikawa, que escolheram continuar amadrinhando o cara de pau! ♥️


Epopeia do Intruso

:: Como tudo começou
:: Serial killers sempre voltam à cena do crime!
:: Ronrom, ataques e caos
:: Amansando a fera
:: Intruso: 1 sucesso e 2 bombas
:: Um morto muito louco e perdão felino
:: Cartinha de um gato excêntrico ao Papai Noel
:: Nossos presentes de Natal, com penetra
:: O que acontece com gato que vai para a rua
:: Férias do Intrú
:: Procuram-se madrinhas
:: Intrú ganhou madrinhas e um chalé!
:: 59 dias sem acidentes!
:: O primeiro brinquedinho... que ele nem viu
:: Teste: o desaparecimento do frajola
:: Intrú ganhou um cobertor e me emocionou
:: O primeiro colo (sim!)
:: A primeira ioga
:: A primeira brincadeira de caçar (sem mortes!)
:: O desafio de aquecer um bicho que não entra em casa
:: 17º quase-aniversário do Gatoca e bastidores
:: A escova perfeita para aventureiros
:: Vigilantes do Peso Felino
:: Um ano do gato que eu não sabia que precisava
:: Dia de levar o pet ao trabalho
:: Ele não quer uma casa, quer uma família
:: Quando as Cataratas do Niágara visitaram Intrú
:: Um post mal-humorado fofo de Natal
:: O gato que só falta tocar a campainha!
:: Intrú adoeceu antes de ganhar uma casa
:: Ressurreição e mordidas literárias
:: Quase grudinho
:: Lado errado?
:: História de filme: a vida dupla de Intrú!
:: Agressividade por frustração?
:: Garoto propaganda do boletim +Gatoca
:: Um bicho que quebra expectativas (e outras coisas)
:: Intrú conseguiu morar dentro de casa ― parcialmente
:: Por que gato não deve ir para a rua, nem no interior
:: Destruiu o estúdio e se jogou da janela
:: Dois anos do frajola que ninguém quis
:: Amores brutos
:: A gente veio aqui para beber ou se banhar?
:: Descobri por que Intrú atacou meu rosto!
:: Relacionamento tóxico com o gato
:: Gato come plástico para salvar a própria vida

29.6.26

19º quase-aniversário do Gatoca e bastidores

Se não tivesse anotado na agenda, este 29 de junho passaria batido. É a data em que criei o blog, mas acabamos adotando duas comemorações anuais porque, para publicar o primeiro post, se foram mais seis semanas. Nos últimos tempos, porém, os festejos deram lugar à melancolia ─ demorei a perceber e não sei até quando posso culpar a morte em sequência da gangue.

Em vez da aposentadoria com drink de guarda-chuvinha, aliás, Chicão mandou um gato genioso com FeLV, que continua me roubando noites de sono ─ vou contar na sexta, porque a segunda temporada de Gatoca já está rendendo episódios impagáveis.


Por hora, compartilho os marcos importantes da nossa jornada: 1.939 textos, e-book, mutirão de castração, oficina com crianças, roda de conversa com adolescentes, canal no YouTube, websérie felina, loja colaborativa, boletim, Gatonó, edital do Condeca com a prefeitura de Sorocaba, clube do livro — links todos aqui.

E acrescento duas novidades: agora temos vitrine na Amazon com as obras discutidas no Cluboca e os produtos aprovados pelos bigodes, e Intrú recebe no Gramado da Fama a Danielle Miranda, tutora do trio de desenho animado Banguela, Maui e Moana.


Ela se junta ao grupo de apoiadores mais maravilhosos da internet ♥️ ─ obrigada, Adrina Barth, Alice Gap, Itacira Ociama, Regina Haagen, Renata Godoy, Leonardo Eichinger, Irene Icimoto, Tati Pagamisse, Roberta Herrera, Vanessa Araújo, Dani Cavalcanti, Samanta Ebling, Bárbara Santos, Marina Kater, Sonia Oliveira, Marcelo Verdegay, Fernanda Leite Barreto, Bárbara Toledo...

...Solimar Grande, Aline Silpe, Lucia Mesquita, Michele Strohschein, Marilene Eichinger, Sérgio Amorim, Gatinhos da Família F., Luca Rischbieter, Rosana Rios, Regina Hein, Paula Melo, Paulo André Munhoz, Marianna Ulbrik, Cristina Rebouças, Lorena da Fonseca, Karine Eslabão, Michely Nishimura, Danilo, Klay Kopavnick, Glaucia Almeida, Ana Hilda Costa, Elisângela Dias...

...Ivoneide Rodrigues, Vanessa Almeida, Vivian Vano, Maria Beatriz Ribeiro, Elaigne Rodrigues, Simone Castro, Viviane Silva, Arina Alba, July Grafe, Erika Urakawa, Vera e Gabriela Fromme, Lucia Trindade, Aline Silva, Sara Gonçalves, Soraia Mancilha, Celina Matsuda, Paula Martinez, Eliane Clal, Beto "Pena" Spinelli e Ines Rudzit!

Espero voltar em 10 de agosto com fogos de artifício biribinhas. 😊


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26.6.26

A Mão Esquerda da Escuridão, pelo Cluboca do Livro

Eu sabia que seria desafiador ler uma obra de ficção especulativa, gênero literário pelo qual não morro de amores, em ritmo mais lento do que nosso cérebro ultraprocessado está acostumado e com o sono atrasado por causa do processo de partida da Jujuba. Mas a estadunidense Ursula K. Le Guin vale o esforço e A Mão Esquerda da Escuridão propõe discussões sobre gênero, feminismo e alteridade que, 57 anos depois, a gente ainda precisa fazer.

O livro, em si, não tem a ver com os bichanos. Só entrou para o clube porque a autora, vencedora dos prêmios mais relevantes da ficção científica e da fantasia (Nebula, Hugo, Locus), os amava: "A presença de um gato me mantém em contato com o mistério, a irracionalidade, a beleza, a teimosia selvagem do mundo não humano" ─ ela chegou a escrever Book of Cats, um compilado de poemas e meditações sobre a "felinidade", sem tradução no Brasil, e Gatos Alados, série infantil focada no desejo de liberdade, respeito à natureza e à diversidade.


Última participação da Jujuba no Cluboca do Livro

Esses temas também aparecem em A Mão Esquerda da Escuridão. Ambientado no planeta Gethen, chamado de Inverno pelos terráqueos por sua temperatura hostil, o romance traz personagens andrógenos e sem sexo definido, que apenas durante o kemmer (e aleatoriamente) se tornam masculinos ou femininos ─ a mãe de uma criança é, sem qualquer estranhamento, o pai de outra. Não se tratam, porém, de habitantes neutros, enfatiza a obra, mas de potencialidades ou integralidades.

E essa característica biológica molda a cultura local, eliminando os papéis de gênero tradicionais e as estruturas sociais baseadas na desigualdade entre homens e mulheres. Visualizem o sonho: qualquer um pode exercer qualquer profissão, o fardo e o privilégio da gravidez são compartilhados, não há divisão da humanidade em metades forte e fraca, protetora e protegida, dominante e submissa, dona e escrava, ativa e passiva ─ nem estupro, uma vez que os gethenianos passam a maior parte do tempo assexuados.

Durante o kemmer, ninguém trabalha ─ chupa, Fiesp! E nunca fazem guerra. Moradores do reino de Karhide, monarquia baseada em honra e tradição, são condenados ao exílio, morrendo sozinhos de frio e fome. Já Orgoreyn, estado burocrático e autoritário, possui uma colônia penal sem muros ou grande aparato de segurança, pois o frio e o isolamento tratam de desestimular eventuais fugas. Em época de Guerra Fria, Le Guin critica as contradições de ambos os sistemas políticos em disputa.

O livro alterna capítulos narrados por Genly AI, emissário humano enviado por uma coalizão interplanetária para convencer Gethen a se unir ao Ekumen, permitindo intercâmbio político e tecnológico, e Estraven, primeiro-ministro de Karhide que o ajudará nessa missão. Mitos e lendas do planeta gelado incrementam a história, junto com relatos de pesquisadores de campo ― um deles acredita que os gethenianos tenham sido um experimento antigo da Terra.



A maior parte do romance, porém, descreve os quase três meses de travessia da geleira Gobrin, uma das regiões mais inóspitas de Gethen, quando Genly e Estraven passam a entender melhor a cultura um do outro (contornando uma angustiante tensão "sexual"), e precisei lutar para manter os olhos abertos ─ respeito máximo, porém, à habilidade da autora de usar a forma para reforçar o conteúdo.

Aproveito a deixa para falar de Le Guin. Filha do diretor do Museu de Antropologia da Universidade da Califórnia, não havia fonte melhor para formar sua bagagem como escritora, complexificada pelo taoísmo, o feminismo e as ideias de Jung, principalmente sobre os arquétipos. Isso lhe rendeu cinco obras rejeitadas por editoras, entre 1951 e 1961, todas consideradas inacessíveis. rs

Em 1968, na publicação de Nine Lives, a revista Playboy disfarçou seu nome feminino como "U. K. Le Guin", episódio sobre o qual lamentou: "Parecia tão bobo, tão grotesco, que falhei em perceber que também era importante". Nunca mais sofreu preconceito de um editor por seu gênero. Ainda teve peito para recusar o Prêmio Nebula de 1977, em apoio a Stanislaw Lem, que criticara a ficção científica estadunidense e demonstrara simpatia ao bloco soviético.

Em 2009, saiu da Authors Guild, organização de escritores, por colaborarem para o projeto de digitalização do Google, classificando a atitude como "acordo com o demônio". E condenou o controle que a Amazon exerce sobre a indústria editorial, durante a premiação de 2014 do National Book Award. Quando uma figura dessas morre (aos 88 anos!), não se espera menos do que Margaret Atwood discursando em seu funeral.

Com esse abre, espero que me desculpem pela demora para contar sobre nosso encontro, realizado no dia 12 de abril. 😊

A discussão começou com a interdependência dos opostos, proposta pelo livro, não só masculino e feminino, mas também calor e frio, vida e morte, e até a luz e a escuridão, expressas no título, uma alusão ao conceito taoísta de Yin e Yang, representando o equilíbrio entre as forças opostas e complementares que regem o universo. A autora explica com poesia:

A luz é a mão esquerda da escuridão
E a escuridão, a mão direita da luz.
Dois são um, vida e morte, deitados
juntos como amantes em kemmer,
como mãos unidas,
como o fim e o caminho.



Não passou batido, porém, a representação da androgenia de Gethen pelo pronome masculino ─ usado para se referir a um deus transcendente, por considerarem menos específico do que o pronome feminino. A escolha foi questionada à época por movimentos feministas e respondida por Le Guin em artigo: "Muitas mulheres queriam ir além, arriscar mais, explorar a androginia de um ponto de vista feminino também. [...] Acho que estavam certas em pedir mais coragem da minha parte".

E, para o texto não ficar gigante, encerramos falando sobre a colaboração, em vez da dominação, pouco comum na ficção científica estadunidense, que tende a retratar alienígenas como colonizadores, reflexo de sua sociedade ─ o Ekumen de Gently propõe troca, embora tivesse poder para conquistar Gethen.

Le Guin escreveu um ensaio maravilhoso que contesta a narrativa dominante centrada no "herói" e na "espada", chamado A Teoria da Bolsa de Ficção (1986), que li indicado pela Silvana Perez. Nele, a autora argumenta que a primeira ferramenta cultural essencial da humanidade foi uma bolsa (rede ou cesta) para carregar alimentos, não uma arma de caça ─ os veganos piram!

A maior parte da dieta humana na pré-história (entre 65% e 80%) vinha da coleta de vegetais, mas, como perseguir mamutes parece mais excitante, acabou virando a base da ficção tradicional: uma narrativa em forma de "flecha", que busca o conflito e o triunfo. Com a teoria da bolsa, Le Guin sugere manter elementos diversos em uma relação complexa, realista e inclusiva, voltada ao processo contínuo da vida, em vez de focar em um herói central ou clímax violento.

Já botei na lista outro livro de ensaios, o Sem Tempo a Perder: reflexões sobre o que realmente importa, em que ela detona o capitalismo. ❤️

*

Quer viver outras histórias, cair na risada junto, se emocionar e culpar o clima seco, basta apoiar o Gatoca com qualquer valor a partir de R$ 15, escolher uma bebida e comprar sua edição favorita da obra em discussão ― usando nossos links, uma porcentagem vem para o projeto. :)


Discussões anteriores

:: Vou te Receitar um Gato, da japonesa Syou Ishida
:: O Mestre e Margarida, do russo Mikhail Bulgakov
:: Um Homem Chamado Ove, do sueco Fredrik Backman
:: Um Gato entre os Pombos, da inglesa Agatha Christie
:: Felinos e Macabros, coletânea de contos de autores como Edgar Allan Poe, H. P. Lovecraft e Bram Stoker
:: Diário dos Gatos Yon & Mu, do japonês Junji Ito

4.6.26

O fim de uma Era

Quando adotei o Mercvrivs, convencida pelo Eduardo, eu dormia em uma cama de solteiro, no casarão de São Bernardo abandonado precocemente por meus pais, tentando ser porto-seguro para os irmãos mais novos, pagar os boletos sem desistir do jornalismo e acertar o arroz (com receita).

Me faltava tempo, dinheiro e paciência para um animal de estimação. Mas era o Mercv. E, mesmo tendo ameaçado devolvê-lo, chorei no veterinário com a possibilidade de perder o filhote que saía carimbando cocô pela sala. Começava ali a mudança que daria a cor das próximas duas décadas e meia.

O gato virou gangue, que virou blog, que virou trabalho. Edu virou amigo e Leo virou amor — contrariando o desfecho esperado para a louca dos gatos. Os irmãos viraram adultos, o casarão virou apertamento, São Bernardo virou Sorocaba e Sorocaba virou Araçoiaba.


Eu, que só passeava no concreto, vim morar no meio do nada para os bigodes terem jardim de novo. E levei a sério a recomendação de casar com alguém que ajudasse a esconder um corpo. Leo escondeu nove — tarde da noite, com chuva, espetando no barro o tripé de luz da fotografia.


No nosso Cat Sematary, ainda falta o Simba, mas decidi esperar aos rabos-de-gato crescerem para libertar as cinzas — foi sua morte inesperada, em 2016, que me tornou especialista em doença renal (e a maior divulgadora das seringadas de água).


Acordar com a casa mais quieta do que o cemitério, onde os passarinhos disputam para desenterrar nossas sementes, me roubou uma madrugada extra, das tantas que dediquei à Jujuba — ansiedade pela solidão, pelos projetos se debatendo na gaveta há tanto tempo, por não poder mais atropelar o luto com a rotina (alarmes para voltar da rua, seriados de 20 minutos pausados na metade, a última a tomar café da manhã, a última a chegar na cama).

Edu me convenceu daquela primeira adoção dizendo que nem perceberia a existência do Mercv ─ um filhote que não brincava, não miava, mal saída da caixinha. E cá estou relendo o mesmo livro, Belas Maldições, só que para o Cluboca, um dos muitos desdobramentos da decisão mais irracional e afortunada que tomei na vida. O primeiro agradecimento dos créditos, portanto, não poderia ser para outra pessoa.


Sem o Leo, acolhedor nos piores momentos de angústia (mudanças, soros e despedidas), eu provavelmente teria me fundido à mobília do casarão. Maru e Edu (não o ex, o veterinário) garantiram a longevidade invejável dos bigodes. João cuidou da parte técnica do blog, Mari virou porto seguro. E a AGD, irmandade de 30 anos, me deu o descanso mais sensacional com que uma pessoa que nem bate e volta para a praia consegue mais fazer podia sonhar (soon!).

Depois de duas décadas de dedicação aos gatos, entreguei minha carta de aposentadoria. Mas Chicão tinha outros planos. Aguardem a segunda temporada de Gatoca!

31.5.26

Saudade (o fim de uma Era?)

Esta é a primeira despedida que começa em um post de aniversário ─ e vai terminar no próximo post. Só percebi com ele escrito, mas na vida real não perdi uma pista: quando começou a sobrar cada vez mais ração no pote e menos peso na balança, o último dia em que você desceu para xeretar o estúdio do Leo e voltou correndinho pelo gramado (27 de abril), a última vez em que subiu nas prateleiras para tomar sol (12 deste mês).

E na segunda roubou o último carinho no lavabo, enquanto eu fazia xixi grogue de sono, na quarta não quis mais lamber o sachê da madrugada na colher, na sexta arriscou os últimos passos. A experiência de ter apenas um gato é muito louca! Todos os cocôs e vômitos só podiam ser seus e davam inveja, para uma renal de 19 anos. Você morreu com as mucosas coradas.

Acho que posso dizer de velhice porque, afinal de contas, de velhice mesmo ninguém morre ─ algum órgão precisa parar de funcionar. Gosto da ideia da vela se apagando, privilégio com que Keka também contou, mas, no seu caso, parece que alguém esqueceu uma fresta de janela aberta e sobrou um finalzinho de pavio sem queimar.


De manhã, você até arrumou forças para pular no sofá, ignorando a escadinha improvisada. E ficou pendurada pelas garras no cobertor, porque as patas traseiras já estavam escorregando para os lados, como nas dancinhas do Axl Rose. Passava, então, uma eternidade imóvel e do nada se punha a desequilibrar pela casa, como a criatura do Frankenstein ─ só faltavam os raios.

Escrevo chorando, mas sei que ainda vou rir desses momentos. Como rio de ter te batizado de Vaquinho e mudado para Jujuba ao descobrir que era menina. Ou quando lembro do seu jeito maluco de usar o primeiro bebedouro elétrico ─ revisitado nesse finalzinho, com empoleiramento, cabelo molhado e competição de remo. Dizem que idosos voltam a ser crianças, né?


A gata que rasgou meu braço para fugir da caixa de transporte, inventou o carinho Playcenter, demorou 13 anos para ronronar e só aceitou colo aos 18, partiu deitada no meu peito, após 18 meses de tentativas de substituir o calor da gangue com caminha de tubarão e tapete térmico ─ os encardidos vivem mais para compensar os cafunés que deixaram de ganhar, Guebis estava certa.

Chicão, em descrédito com Leo, até providenciou sol. Acontece que você não morreu sozinha ─ levou contigo duas décadas e deixou dez lutos. Eu continuo acordando no nosso horário, passo pelo lavabo vazio, não dou sachê para ninguém no sofá. Pela primeira vez, nos últimos seis anos, não posso pausar a tristeza com os cuidados da próxima despedida.

E não sei o que fazer com o tubarãozinho.

22.5.26

19 anos de Jujuba

Eu não imaginava que ela iria tão longe, assustadinha, antissocial, desfalcada de família. Depois, comecei a acreditar que iria ainda mais longe. Agora, represo para adequar expectativas, porque a magrela passou a viver em câmera lenta ─ a alimentação, a caminhada, o silêncio substituindo os miados, como naquelas cenas que antecedem o momento de chorar nos filmes.


Faço carinhos cada vez mais leves, acordo cada vez mais vezes, registro tudo, mesmo sabendo que não será igual. Nunca mais. A última a menos.



*Novelinha: conheça a história das Gudinhas

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