Gatoca

Educação, sensibilização e mobilização pelos animais

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23.9.26

5 jeitos de um gato descolado usar a caixa de areia

Para extravasar a frustração com as portas fechadas.


Para beliscar, quando a geladeira está vazia.


Para relaxar, depois de um dia sem fazer nada.


Para pegar um bronze.


Para comemorar a dominação mundial.

18.9.26

O gato (sumido) de Monet e o jardim de Giverny (#3)

Atualizado no dia 24, porque esqueci do vídeo!

Pensem em um lugar encantado, saído das páginas de um livro (ou de um quadro), com flores coloridas, uma ponte bucólica sobre o lago e passarinhos como única trilha sonora. Pois Claude Monet fez o caminho inverso: primeiro construiu o jardim de Giverny, em 1883, para depois pintá-lo ─ eternizando-o, inclusive, nas badaladas paredes do Musée de l'Orangerie, capítulo anterior desta série.


O espaço era promissor: 10 mil m² de pomar, com uma horta e o caminho que levava até a casa margeado por ciprestes e abetos. Monet trabalhou incansavelmente, então, para torná-lo perfeito. Batizado de Clos Normand ("Terreno Normando"), por ficar na região francesa da Normandia, o jardim ganhou arcos de metal com rosas perfumadas e capuchinhas, e as macieiras foram substituídas por cerejeiras e árvores de damasco do Japão.


O chão passou a ostentar milhares de narcisos, tulipas, íris, papoulas orientais, peônias. No lado esquerdo, o artista plantou canteiros de cores únicas, como nas paletas de pintura, aplicando seu conhecimento pictórico para criar efeitos de perspectiva, mostrar a residência e intensificar as áreas sombreadas. Em 1893, comprou um terreno do outro lado da rua para a parte aquática, desviando o curso do córrego Ru, um braço do rio Epte.


Sobre lago particular, atravessou uma ponte verde de estilo japonês, cercou o local de espécies orientais, como bambus, bordos e salgueiros-chorões, e completou com as famosas ninfeias (nenúfares ou lírios-da-água), parentes da vitória-régia amazônica: "Eu gosto de água, mas também gosto de flores. É por isso que, a bacia cheia, pensei em adorná-la com plantas. Peguei um catálogo e fiz uma escolha para a pequena felicidade, só isso".


Pequena felicidade para um homem, saltitos para a humanidade, que pode contemplar em museus pelo mundo o jogo de luz com reflexo celeste que tanto fascinava Monet. Parêntese para contar que quando ele morreu, 43 anos depois, Clos Normand ficou abandonado, até ser restaurado pelo curador do Palácio de Versalhes e aberto ao público em 1980 ─ quando nasceu esta jornalista, que também amava passear com o pai em um jardim japonês, embora bem menos exuberante.


"E o gato?", vocês devem estar se perguntando. Ficava na casa, igualmente pintada com as cores da paleta do artista ─ verde para as portas e persianas, amarelo para sala de jantar, azul para a cozinha. Não se tratava, contudo, de um ser ronronante, mas de uma escultura de biscuit (ou porcelana fria), produzida no Japão (notaram a obsessão, né? rs), em meados do século 19.


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Michel Monet herdou-a do pai, faleceu num acidente de carro, em 1966, e o bichano passou 45 anos desaparecido! O mistério só foi solucionado em 2011, quando Adrien Meyer, especialista em arte impressionista, avaliava os bens de Rolande Verneiges, filha ilegítima (e secreta) de Michel ─ seu apartamento escondia um verdadeiro tesouro de obras originais e o gatinho deitado despretensiosamente no piano.

Hideyuki Wada o arrematou em um leilão por $ 67 mil e doou à Fundação Claude Monet, para que o pequeno voltasse a descansar em sua almofada favorita ─ com plaquinha de agradecimento.


Há uma réplica da peça também no quarto de Blanche Hoschedé-Monet, enteada e única aluna do pintor.


Guardei por seis meses a calça bafônica que ganhei das meninas, só para estrear nessa ocasião.



Tati comprou as passagens erradas de trem, chegamos superatrasadas à Giverny e não deu para esticar até Rouen, onde queimaram Joana D’Arc. Usando as passagens "certas", porém, não veríamos o jardim com sol. Tenho pensado muito sobre isso ─ e, para provar que não sou iluminada, contrabandeei sementes do Monet para Gatoca.



Veja também:

:: Gatos históricos de Paris ─ e a viagem à França (#1)
:: Gatos dos museus d'Orsay e l'Orangerie (#2)
:: Os gatos famosos do museu do Louvre (estreia em outubro)

9.9.26

Macanudo: encontro do Cluboca do Livro

A ideia era escolher um dos 11 volumes de Macanudo publicados no Brasil, mas quem resiste a um quadrinho que junta coelho escritor, frajola com nome de cineasta italiano, pinguins ativistas, criança com questões existenciais, amigo imaginário sem gênero definido, duendes usando chapéus de pompom e uma figura misteriosa com nariz de cenoura?


Acabei comprando o primeiro e o especial de dez anos, para juntar com o quarto e o quinto, lembranças da exposição do Centro Cultural Correios, em julho de 2015, quando assisti ao Liniers compartilhar sua euforia numa folha em branco gigante ─ e comi algodão doce com a Amanda, que vocês acompanham por aqui há duas décadas.


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Ricardo Liniers Siri nasceu na Argentina, tem parentesco com um vice-rei fuzilado e, para a nossa sorte, não seguiu a carreira de publicitário. Aos 29 anos, encarou a crise política e econômica de seu país, a tensão mundial pós-ataque terrorista às Torres Gêmeas dos Estados Unidos e decidiu que os leitores de jornal mereciam "uma pequena carícia".

Por indicação da quadrinista Maitena, suas tirinhas "bacanudas" (em um misto de tradução livre e licença poética) começaram a sair no La Nacion, chegando ao Brasil em 2009 pela Folha de S.Paulo. De lá, tirei esta confissão: "Meus quadrinhos têm uma alma meio tangueira, uma coisa argentina de alimentar frustrações. Queremos ser pentacampeões, e isso nunca acontece. Queremos ter políticos honestos, e eles não aparecem".

Identificação explica o sucesso bananeiro da HQ, marcada pelo non sense e mais necessária do que nunca. Michel Gherman, professor de sociologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, diz que o fascismo odeia o abstrato porque vem acompanhado por alteridade e pensamento crítico ─ compreender o outro exige a capacidade de imaginar uma realidade diferente da nossa. "Um mundo somente literal é um mundo militarizado".


No encontro, cada participante mostrou suas tirinhas favoritas e compartilho as minhas aqui, para vocês também se divertiram com os personagens líricos, melancólicos, reflexivos e amalucados do Liniers ─ que se desenha como um coelho, estratégia para ajudar a rir de si mesmo. Ele desconhecia o alter ego leporídeo de Matt Groening, mas recebeu a benção oficial do criador dos Simpsons quando sua cunhada passou a namorá-lo.


(Referência à comédia de ficção científica O Dorminhoco, sobre um dono de loja de produtos naturais e aspirante a músico de jazz que acorda do congelamento sem consentimento em um futuro distópico, onde os dissidentes têm seus cérebros eletronicamente simplificados.)

Fellini homenageia o diretor italiano Federico Fellini e divide suas aventuras com Enriqueta, uma garota introvertida, meio filósofa e apaixonada por livros.





Olga, um monstro azul e peludo, aparece apenas para Martinzinho e, contrariando a expectativa do autor, virou um dos personagens mais queridos do público ─ Liniers pretendia desenhar um boneco que protegesse o garoto, como o Han Solo de sua infância, só que não conseguiria pagar os direitos autorais ao George Lucas.


O Misterioso Homem de Negro brinca com os clichês visuais do mistério, em contraste com situações banais. "Fiz num dia em que estava me sentindo esquisito, pus nele capa e chapéu para ficar elegante, mas não achava que iam gostar, porque suas histórias não se fecham."



Os pinguins (e outros animais) traduzem sentimentos puros e o estranhamento do cotidiano, com uma boa dose de crítica social.


Já os duendes exploram o absurdo e o encantamento, isentos de qualquer racionalidade.


Tem, ainda, as tirinhas com famosos, como Picasso.


De formatos experimentais.



E que funcionam como chacoalhões amorosos.







Discussões anteriores

:: Vou te Receitar um Gato, da japonesa Syou Ishida
:: O Mestre e Margarida, do russo Mikhail Bulgakov
:: Um Homem Chamado Ove, do sueco Fredrik Backman
:: Um Gato entre os Pombos, da inglesa Agatha Christie
:: Felinos e Macabros, coletânea de contos de autores como Edgar Allan Poe, H. P. Lovecraft e Bram Stoker
:: Diário dos Gatos Yon & Mu, do japonês Junji Ito
:: A Mão Esquerda da Escuridão, da estadunidense Ursula K. Le Guin

2.9.26

Vermífugo palatável para gato difícil

Vocês não me veem falando de remédio porque precisei usar pouquíssimas vezes com os bigodes ─ aprendi com a partida do Simba, aos 13 anos, que estresse agrava a maioria dos problemas e quanto mais natural for o tratamento, melhor. Pipoca e Pufosa viveram, então, até os 16; Clara e Mercv, 16 e meio; Guda e Pimenta, 17; Keka e Chocolate, 17 e meio; Jujuba, 19.

Mas os vermes (Dipylidium caninum) do Intrú derrotam as pipetas há três anos ─ até porque ele insiste em experimentar toda a variedade da fauna araçoiabana. E queria testar uma versão em comprimido, sem perder os dedos ─ preocupação de sobrevivente de dez ataques. rs

Não botei muita fé quando sugeriram no nosso grupo de apoiadores um vermífugo palatável. O gordinho consegue estilingar com a língua os grãos de ração que considera velhos! Só que o Milbemax também se destacava pelo tamanho e decidi arriscar ─ paguei caro, fiquei indignada por virem apenas dois na cartela em que cabiam seis e não ganhei um centavo pelo post.

Sabendo que o frajola mia loucamente na hora do sachê da Pet Delícia, enchi o potinho, aproveitei a abertura de boca e tasquei-lhe o comprimido. O coitado estava tão concentrado no cheiro de frango que engoliu sem nem dar bola. Depois de duas décadas, terei eu um gato fácil de medicar ou a minidrágea é realmente palatável? Será que resistiria à mastigação?

Contem a experiência de vocês nos comentários!

27.8.26

Gatos dos museus d'Orsay e l'Orangerie (#2)

Eu fui uma criança privilegiada, a ponto de ter obra de arte favorita em museu ─ dona Vera recebeu uma educação burguesa, incluindo latim, francês, etiqueta, piano e violão, mas o dinheiro não sobreviveu às minhas fraldas descartáveis, um luxo para bebês de 1980, rs. Na primeira visita ao Masp, fiquei encantada com as irmãs pintadas por Renoir.


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A menorzinha, de olhos chorosos, lembrava Mariana e eu, o oposto de loira, também costumava andar com ela de mãos dadas, protetora. Rosa e Azul, de 1881, retrata Alice e Elisabeth, filhas do banqueiro Louis Raphael Cahen d’Anvers, que, diferente do resto da humanidade, não gostou do quadro pronto e o pendurou na parte da casa em que ficavam os empregados.

Tudo isso para dizer que, apesar das acusações de machismo, foi emocionante pegar as exposições Renoir et l'Amour: la Modernité Heureuse (1865-1885) e Renoir Dessinateur, no Musée d'Orsay ─ antiga estação ferroviária, que guarda a maior coleção impressionista e pós-impressionista do mundo e quase foi demolida na década de 1970.


Renoir e o Amor: a Modernidade Feliz reunia 50 pinturas das duas décadas iniciais da carreira do artista, entre as badaladas Banhistas na Grenouillière, Os Guarda-chuvas, O Passeio e Dança em Bougival. Mas eu prometi bichanos, né?

Garoto com Gato, de 1868, é um óleo sobre tela e a legenda o descrevia como um dos mais estranhos dessa fase, porque nenhum pretexto histórico ou mitológico justifica a nudez do jovem modelo, mesmo que sua pose evoque certas representações do deus Eros, para os Gregos, ou Cupido, para os romanos.

A luz fria e a camada grossa de tinta, influência do realismo cru de Gustave Courbet e Édouard Manet, contrastam ainda com o gesto afetuoso em relação ao animal, dando uma sensação de ternura e intimidade à cena. Acreditam se tratar de Félix, irmão mais novo de Lise Tréhot, principal modelo e companheira romântica do pintor.


Já Renoir Desenhista trazia uma centena de obras em papel, muitas delas inéditas, com técnicas gráficas variadas ─ caneta e tinta, giz preto, grafite, carvão, giz vermelho e branco, pastel, aquarela, gravura e litografia. Segundo Jean Renoir, filho do artista, ele nunca deixou passar um dia sem esboçar algo, mesmo que apenas uma maçã no caderno.

Criança com Gato (Julie Manet), de 1887, também é um óleo sobre tela, mas estava acompanhado pelo estudo em carvão sobre papel azul. Notem que na versão final Renoir gira o torso de Julie, filha de Berthe Morisot e Eugène Manet, irmão do pintor famoso, para conferir mais dinamismo e elegância ao retrato ─ do peludo a gente não sabe nada.




E não podia deixar de compartilhar o Estudo para Mulher com Vaca, de 1886, misto de aquarela, caneta, tinta e lápis grafite sobre papel. Não parece que a camponesa leva uma pulga para passear? A paisagem se refere à Saint-Brisac, na Bretanha, e a "pulga" vai virar uma ovelha. rs


O site informa que Orsay também abriga O Gato Branco, quadro de 1894, em que Pierre Bonnard usa a distorção para criar uma imagem humorística de bichano arqueando as costas ─ qualquer semelhança com o estilo de Hokusai não é mera coincidência.

E estão na reserva técnica ou emprestadas as obras felinas de Théophile-Alexandre Steinlen, conhecido pelo cartaz do cabaré Le Chat Noir (O Gato Preto): Gato na Poltrona, entre 1859 e 1923, Gato Preto Deitado em Posição de Bola no Sofá, de 1920, e Gato Sentado, de Frente, com a Cabeça Voltada para a Direita, com data indeterminada.

(Fotos e explicações nos links, que vocês conseguem ler em português clicando no botão de traduzir do navegador.)

No Musée de l'Orangerie, o destaque é a coleção das Ninfeias, assinada por Monet, pintor do meu coração adulto, que representa o jardim deslumbrante que visitamos em Giverny (próximo capítulo!).



Mas o bichano se escondia na exposição do Henri Rousseau, L’Ambition de la Peinture (A Ambição da Pintura). Autodidata e ridicularizado pelos críticos da época, ele trabalhava como inspetor alfandegário e se tornou a figura mais marcante da arte naïf (ingênua ou primitiva), conquistando admiração de uma vanguarda europeia que incluía nomes como Pablo Picasso e Jean Cocteau.

Retrato da Madame M., concluído por volta de 1895, pode se tratar de sua primeira esposa, Clémence Boitard, falecida em 1888. Rousseau curtia botar mulheres de traços marcantes em cenários enigmáticos, então não me perguntem por que o gato de estilo medieval e tamanho desproporcional brinca com um novelo de lã no meio do caminho.



Comecei o post com Renoir e este artigo do PubMed Central, um arquivo digital mantido pela Biblioteca Nacional de Medicina dos Estados Unidos, justifica terminar com ele. Aos 60 anos, sofrendo com as dores de uma artrite reumatoide agressiva, que só amenizava no calor, o pintor passou a trabalhar segurando no colo um dos muitos gatos que viviam ao redor da casa.

O Instituto Pasteur de Paris, a quem especialistas e historiadores recorrem para verificar a autenticidade de obras de arte, chegou a identificar pelos felinos na tinta de seus quadros, ajudando a datá-los. Outra curiosidade maluca é que o médico dele na época, Dr. Gachet, aparece neste retrato de Van Gogh, mais um paciente célebre.


Veja também:

:: Gatos históricos de Paris ─ e a viagem à França (#1)
:: O gato (desaparecido) de Monet e o jardim de Giverny (#3)
:: Os gatos famosos do museu do Louvre (estreia em outubro)