Eu fui uma criança privilegiada, a ponto de ter obra de arte favorita em museu ─ dona Vera recebeu uma educação burguesa, incluindo latim, francês, etiqueta, piano e violão, mas o dinheiro não sobreviveu às minhas fraldas descartáveis, um luxo para bebês de 1980, rs. Na primeira visita ao Masp, fiquei encantada com as
irmãs pintadas por Renoir.
(Para ampliar, cliquem nas imagens)
A menorzinha, de olhos chorosos, lembrava Mariana e eu, o oposto de loira, também costumava andar com ela de mãos dadas, protetora.
Rosa e Azul, de 1881, retrata Alice e Elisabeth, filhas do banqueiro Louis Raphael Cahen d’Anvers, que, diferente do resto da humanidade, não gostou do quadro pronto e o pendurou na parte da casa em que ficavam os empregados.
Tudo isso para dizer que, apesar das
acusações de machismo, foi emocionante pegar as exposições
Renoir et l'Amour: la Modernité Heureuse (1865-1885) e
Renoir Dessinateur, no
Musée d'Orsay ─ antiga estação ferroviária, que guarda a maior coleção impressionista e pós-impressionista do mundo e quase foi demolida na década de 1970.
Renoir e o Amor: a Modernidade Feliz reunia 50 pinturas das duas décadas iniciais da carreira do artista, entre as badaladas
Banhistas na Grenouillière,
Os Guarda-chuvas,
O Passeio e
Dança em Bougival. Mas eu prometi bichanos, né?
Garoto com Gato, de 1868, é um óleo sobre tela e a legenda o descrevia como um dos mais estranhos dessa fase, porque nenhum pretexto histórico ou mitológico justifica a nudez do jovem modelo, mesmo que sua pose evoque certas representações do deus Eros, para os Gregos, ou Cupido, para os romanos.
A luz fria e a camada grossa de tinta, influência do realismo cru de Gustave Courbet e Édouard Manet, contrastam ainda com o gesto afetuoso em relação ao animal, dando uma sensação de ternura e intimidade à cena. Acreditam se tratar de Félix, irmão mais novo de Lise Tréhot, principal modelo e companheira romântica do pintor.
Já
Renoir Desenhista trazia uma centena de obras em papel, muitas delas inéditas, com técnicas gráficas variadas ─ caneta e tinta, giz preto, grafite, carvão, giz vermelho e branco, pastel, aquarela, gravura e litografia. Segundo Jean Renoir, filho do artista, ele nunca deixou passar um dia sem esboçar algo, mesmo que apenas uma maçã no caderno.
Criança com Gato (Julie Manet), de 1887, também é um óleo sobre tela, mas estava acompanhado pelo estudo em carvão sobre papel azul. Notem que na versão final Renoir gira o torso de Julie, filha de Berthe Morisot e Eugène Manet, irmão do pintor famoso, para conferir mais dinamismo e elegância ao retrato ─ do peludo a gente não sabe nada.
E não podia deixar de compartilhar o
Estudo para Mulher com Vaca, de 1886, misto de aquarela, caneta, tinta e lápis grafite sobre papel. Não parece que a camponesa leva uma pulga para passear? A paisagem se refere à Saint-Brisac, na Bretanha, e a "
pulga" vai virar uma
ovelha. rs
O site informa que Orsay também abriga
O Gato Branco, quadro de 1894, em que Pierre Bonnard usa a distorção para criar uma imagem humorística de bichano arqueando as costas ─ qualquer semelhança com o estilo de Hokusai não é mera coincidência.
E estão na reserva técnica ou emprestadas as obras felinas de Théophile-Alexandre Steinlen, conhecido pelo cartaz do cabaré
Le Chat Noir (
O Gato Preto):
Gato na Poltrona, entre 1859 e 1923,
Gato Preto Deitado em Posição de Bola no Sofá, de 1920, e
Gato Sentado, de Frente, com a Cabeça Voltada para a Direita, com data indeterminada.
(Fotos e explicações nos links, que vocês conseguem ler em português clicando no botão de traduzir do navegador.)
No
Musée de l'Orangerie, o destaque é a coleção das
Ninfeias, assinada por Monet, pintor do meu coração adulto, que representa o jardim deslumbrante que visitamos em Giverny (próximo capítulo!).
Mas o bichano se escondia na exposição do Henri Rousseau,
L’Ambition de la Peinture (
A Ambição da Pintura). Autodidata e ridicularizado pelos críticos da época, ele trabalhava como inspetor alfandegário e se tornou a figura mais marcante da arte naïf (ingênua ou primitiva), conquistando admiração de uma vanguarda europeia que incluía nomes como Pablo Picasso e Jean Cocteau.
Retrato da Madame M., concluído por volta de 1895, pode se tratar de sua primeira esposa, Clémence Boitard, falecida em 1888. Rousseau curtia botar mulheres de traços marcantes em cenários enigmáticos, então não me perguntem por que o gato de estilo medieval e tamanho desproporcional brinca com um novelo de lã no meio do caminho.
Comecei o post com Renoir e
este artigo do
PubMed Central, um arquivo digital mantido pela Biblioteca Nacional de Medicina dos Estados Unidos, justifica terminar com ele. Aos 60 anos, sofrendo com as dores de uma artrite reumatoide agressiva, que só amenizava no calor, o pintor passou a trabalhar segurando no colo um dos muitos gatos que viviam ao redor da casa.
O Instituto Pasteur de Paris, a quem especialistas e historiadores recorrem para verificar a autenticidade de obras de arte, chegou a identificar pelos felinos na tinta de seus quadros, ajudando a datá-los. Outra curiosidade maluca é que o médico dele na época, Dr. Gachet, aparece neste
retrato de Van Gogh, mais um paciente célebre.
Veja também:
::
Gatos históricos de Paris ─ e a viagem à França (#1)
::
O gato (desaparecido) de Monet e o jardim de Giverny (#3)
:: Os gatos famosos do museu do Louvre (estreia em outubro)