Gatoca

Educação, sensibilização e mobilização pelos animais

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23.1.26

Diário dos Gatos Yon & Mu: encontro 'Cluboca do Livro'

A moda do anime no Brasil já me pegou velha (de alma). Mas há tempos queria dar uma chance a um mangá e a combinação inusitada de Junji Ito, o mestre do terror japonês, com história fofa felina parecia perfeita, empolgando a galera do Cluboca a ler comigo Diário dos Gatos Yon & Mu (sinopse aqui).

O começo rolou meio atabalhoado, porque fui direto para a última página e perdi as instruções de que a ordem dos quadros também respeitava o sentido inverso, ou seja, da direita para a esquerda. Aí, veio um revival de revistinha Coquetel, interrompendo a narrativa gráfica com perguntas do público para o autor. E cheguei ao fim sem entender por que a Akko não tem pupilas.

A experiência, no entanto, me permitiu revisitar saudosa 20 anos de Gatoca ― Jota relutante com a adoção de Yon, peludo dos pais da noiva, e Mu, um norueguês da floresta, depois tentando conquistá-los sem muito jeito, até terminar blindando os pés da cadeira do escritório com rolos de fita crepe para não atropelar rabos inconsequentes.


Eu também chorei no veterinário por um frajola de quem achava não gostar. Mercv queimou os bigodes na vela, contrariando o instinto de sobrevivência. Lily adorava morder. Pufosa desfilava com cocô de Natal no pelo. Pimenta espirrava nas paredes. Intrú voltou semimorto da castração. Toda gangue ostenta um ladrão de ração. Jujuba anda me fazendo ver monstros por privação de sono.

A exposição de animais de raça, de onde saiu Mu, me agradaria mais como abrigo de ONG. Dava para abordar os perigos do acesso à rua em tom menos didático. E a arte não é espetacular, mas gostei bastante da versão polvo da Akko brincando com a dupla e do Goro, o arisquinho dos pais dela, representado por hachuras ― as Gudinhas me submetiam a esse constrangimento social.

Junji Ito, que trabalhava como técnico de prótese dentária, tirou a inspiração para seus contos dos artrópodes (insetos e aranhas) do banheiro da família, localizado ao fim de um túnel. E a encomenda para escrever sobre gatos veio do editor, duas décadas depois, ao notar a mudança no desenho de seus bichanos, antes assustadores, entregando a recente adoção.


A edição estadunidense ainda traz o relato da morte de Yon por insuficiência cardíaca, em fevereiro de 2011, chamado Yon Went to Heaven (Yon Foi para o Céu), e uma carta da esposa de Ito comentando o luto ― conteúdo produzido para uma coletânea japonesa que visava a ajudar os abrigos felinos afetados pelo Grande Terremoto de Tohoku, em 2011.

No nosso encontro de discussão, realizado no último domingo, conversamos sobre as raízes do mangá, lá no século 8, com os primeiros rolos de pintura japonesa, que associavam textos para contar uma história à medida que se desenrolavam. Os vários gêneros literários, de ação-aventura a negócios e comércio. E a polêmica da pedofilia.

Só em 1999 e 2004 o Japão aprovou leis que criminalizam a prostituição infantil e criação e venda de material pornográfico envolvendo menores. Mas a posse desses materiais segue permitida, dividindo opiniões ― há quem milite pela extensão da punição e quem argumente que personagens fictícios não podem ser vítimas de violência e isso feriria a liberdade de expressão.


Como mulher, exausta com a objetificação e alarmada pelo aumento de feminicídios no país, não posso concordar com conteúdos que normalizem a violência, mesmo que coloridos, com olhos grandões.

Por aqui, aliás, também tem gente produzindo mangá (ganhando prêmio e fazendo sucesso no exterior), graças à globalização. Segundo o PublishNews, entre os 100 quadrinhos mais vendidos no Brasil, de julho de 2023 a julho de 2024, 71% são mangás. E eles representam 46,7% do total de títulos comercializados no período.

Algumas participantes do grupo sentiram dificuldade de se conectar com o formato, porque perdiam informações nos desenhos, que não costumam contemplar. A comunicação truncada do casal, as camas separadas e os animais com nomes de números, que a gente já havia visto em Vou te Receitar um Gato, também chamaram a atenção.


Fernanda curtiu com a filha. Paula recomenda para quem está descobrindo o universo felino. Viviane amou as fotos reais dos peludos. Eliane achou tudo tão esquisito que acabou ficando ótimo. Lorena disse que gosta do clube justamente por desafiá-la a ler coisas que não leria normalmente. E mesmo Cris, que não se divertiu com nada, admitiu que concluiu em uma sentada.

Ainda pretendo comprar Os Gatos do Louvre, de Taiyo Matsumoto, sobre os peludos que moram no sótão do museu parisiense, dando vida às galerias que abrigam obras de arte mundialmente famosas. E Spy × Family, de Tatsuya Endo, que tem um espião disfarçado de pai de família, casado com uma assassina disfarçada de mãe de família e uma filha adotiva que sabe a verdadeira identidade de ambos, pois lê mentes ― em algum momento, Yor vai salvar um gatinho!

*

Quer viver outras histórias, cair na risada junto, se emocionar e culpar o clima seco, basta apoiar o Gatoca com qualquer valor a partir de R$ 15, escolher uma bebida e comprar sua edição favorita da obra ― usando nossos links, uma porcentagem vem para o projeto. :)


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:: Vou te Receitar um Gato, da japonesa Syou Ishida
:: O Mestre e Margarida, do russo Mikhail Bulgakov
:: Um Homem Chamado Ove, do sueco Fredrik Backman
:: Um Gato entre os Pombos, da inglesa Agatha Christie
:: Felinos e Macabros, coletânea de contos de autores como Edgar Allan Poe, H. P. Lovecraft e Bram Stoker

9.1.26

2025

Eu podia estar na piscina, lendo na rede ou sendo devorada por formigas em um piquenique, mas estou aqui, lutando contra a epopeia de asfaltamento da prefeitura para escrever esta retrospectiva ― em vez de oferecer o sossego das cidades rurais, Araçoiaba da Serra surpreende com dengue + dez meses de obra, sem conseguir concluir sete quarteirões.

2025, porém, foi o primeiro ano em que nenhum integrante de Gatoca morreu e, para quem teve as expectativas dos últimos quatro réveillons destroçadas, considero que saí no lucro ― se chegar a 22 de maio, Jujuba fará 19 anos! Os 18 ela completou inteiraça. Até pediu o primeiro colo!

Só não sei quais crimes a privação de sono me levará a cometer ― a caminha de tubarão contornou bem a miação de madrugada, mas ainda acordo entre 3h e 5h para dar o sachê, na esperança de evitar os vômitos ornamentais da doença renal.


Este blog também comemorou a maioridade, com esquenta ― quantos projetos vocês conhecem que resistem desde 2007? E gente que não gostava de gatos e passou duas décadas cuidando de uma centena deles? ― em junho visitei o Snow, doado em 2010!

Agora, a versão para celular permite encontrar as informações de um jeito muito mais fácil, graças ao menu sanduíche programado pelo Beto e à busca parida na força do ódio por quem só cursou técnico em processamento de dados porque as outras opções eram mecânica e eletrônica.

As amigas dessa época seguem amigas, aliás, e vieram festejar meu aniversário, pós-faxina descarrego para encerrar a repetição de um 2020 da marmota ― só não funcionou com o celular da Samsung, que estufou com um quarto do tempo que durou o iPhone anterior (nunca mais!).

Leo e eu também quebramos o ciclo de mudar de casa a cada quatro anos ― e finalmente instalamos a rede e a porta do banheiro! O que não podia ter quebrado era a validação da autoridade do Gatoca pelo Google, que mostrava nossos posts nas primeiras páginas, rendendo texto com mais de meio milhão de visualizações.


Para ampliar, cliquem na imagem

Só que a Hostinger tirou o blog do ar por injustificáveis 27 dias, desindexando-o do buscador, deixando milhares de tutores e seus animais sem ajuda e nos fazendo perder apoiadores essenciais para a gincana dos boletos ― a sentença do Juizado Especial Cível saiu nove meses depois, com uma indenização irrisória.

Mas vou continuar gastando canetinha neste planeta árido e botando vocês no Gramado da Fama ― com os programas de afiliados, dá para apoiar o trabalho sem tocar na carteira! O Focus, que compete em idade com a Jujuba, agradece. Assim como Chicão, que me salvou de ficar sem embreagem na estrada. rs

Nossa comunidade é maravilhosa, com direito a amigo secreto de talentos ― nesta edição, transformei a gangue da Paula em livro para colorir. ❤️ E passamos mais um Natal com quem importa. Os laços ainda se estreitaram com o Cluboca do Livro, projeto de que morro de orgulho.

A gente leu e discutiu O Mestre e Margarida, fantasia satírica do russo Mikhail Bulgakov, Um Homem Chamado Ove, comédia dramática do sueco Fredrik Backman, Um Gato Entre Pombos, mistério de detetive da inglesa Agatha Christie, Felinos e Macabros, coletânea de contos de suspense de autores como Edgar Allan Poe, H. P. Lovecraft e Bram Stoker.

Já está agendado, inclusive, o encontro de Diário dos Gatos Yon & Mu, mangá fofo do mestre do terror Junji Ito. Nosso diferencial são, claro, os gatos ― como personagens, no título da obra, ilustrando a capa ou na biografia do autor. E procuro sempre equilibrar escritores homens e mulheres, sem repetir os países nem os gêneros literários.

Nesta retrospectiva, não poderiam faltar os clássicos posts de serviço, sobre os perigos do tapinha na bunda, agressividade por frustração, miados de madrugada, brinquedinhos automáticos, colher com balança para ração, potinhos e hipertireoidismo, enriquecimento alimentar e comedouros interativos, como cortar unha de antissociais, quantas palavras um bichano entende, como usar a IA para cuidar melhor do seu amigo.

E a continuação da série inspirada em O Encantador de Gatos, bíblia do Jackson Galaxy, com os capítulos sobre gatificação: mundo vertical e autoestradas, relógio solar e TV felina, necessidades especiais e mapa da gatice, ferramenta queridinha dos especialistas em comportamento para acabar com a destruição de móveis e disputas de território.

Como os algoritmos das redes sociais entregam conteúdo orgânico para cada vez menos gente, vocês garantem não perder nada assinando nosso boletim (gratuito), de casa nova no Substack. Por falar em casa nova, Intrú ainda não ganhou a ele.

Até descobrimos que tinha uma família bastarda, mas era inadequada como a nossa. Aí, ele ficou doente, seguiu brigando com os intrusos que o sucederam, fez mais inimizades pelo bairro, cavou um cantinho no estúdio do Leo, surtou preso com o temporal e veio para a lavanderia, completou dois anos me roubando sorrisos, sem sensibilizar ninguém.


Que 2026 seja onírico ― porque isso significará que consegui voltar a dormir e que a gata de dentro e o gato de fora estão bem.


Retrospectivas dos anos anteriores: 2024 | 2023 | 2022 | 2021 | 2020 | 2019 | 2018 | 2017 | 2016 | 2015 | 2014 | 2013 | 2012 | 2011 | 2010 | 2009 | 2008 | 2007

4.12.25

Cluboca do Livro: mestre do terror em mangá de gato

Fim de ano já é caótico, com Black Friday, Natal e a utopia das férias se atropelando, o que pedia uma leitura mais leve. Lembram quando a gente perguntava na escola se o livro tinha figura? Pois história em quadrinhos não só tem figuras como elas são a maior parte o babado! E eu nunca arrisquei um mangá ― famosa HQ japonesa que se folheia da direita para a esquerda.

Escolhi, então, para a sexta edição do nosso clube, uma obra fofa do mestre do terror Junji Ito. Sim, o autor de histórias perturbadoras com arte chocante sucumbiu ao encanto dos felinos. E, em Diário dos Gatos Yon & Mu, retrata a relação entre os bigodes e seus tutores, usando um horror exagerado para provocar momentos cômicos.

Tudo começa com o convite de J-kun para que A-ko vá morar com ele, sem esperar que a noiva levaria uma companhia assustadora, Yon, além de adotar depois o peludo Mu. Quarto lugar na lista dos mangás mais vendidos pós-publicação, assinada pelo jornal estadunidense The New York Times, Diário dos Gatos Yon & Mu mostra o poder de transformação dos bichanos.


Para aumentar a imersão, Jujuba tem o estilo do "monstro" da capa, só que mais trabalhada na make. rs

O encontro de discussão ocorrerá no domingo de 18 de janeiro, assim dá tempo de todo mundo se recompor, entre 16h e 19h, pelo WhatsApp. Para participar, basta apoiar o Gatoca com qualquer valor a partir de R$ 15, escolher uma bebida e comprar sua edição favorita ― usando os links abaixo, uma porcentagem vem para a gente. :)

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:: O Mestre e Margarida, do russo Mikhail Bulgakov
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:: Um Gato entre os Pombos, da inglesa Agatha Christie
:: Felinos e Macabros, de autores clássicos de suspense e terror

6.11.25

Felinos e Macabros: encontro do Cluboca do Livro

Terror não é meu gênero literário favorito ― só parei de me assustar com barulhos estranhos quando adotei o Mercvrivs. Mas Edgar Allan Poe, Bram Stoker e H. P. Lovecraft ainda influenciam o cinema e a literatura contemporâneos e não tinha momento mais propício para encarar esse medo do que no Halloween, né?


A editora Pandorga ainda lançou uma coletânea de contos deles, junto com Arthur Conan Doyle, James Bowker, Norman Hinsdale Pitman e E. F. Benson, falando justamente sobre gatos ― e uma onça-preta. O encontro de discussão sobre Felinos e Macabros rolou no domingo que antecedeu o Dia das Bruxas, por isso as superproduções.

Cristina Barreto aproveitou para indicar o livro Mulheres e a Caça às Bruxas, da filósofa italiana Silvia Federici. E usamos como fio condutor a habilidade dos homens de fazerem homice, sugestão da Lorena da Fonseca.


Para ampliar, cliquem na imagem

Em O Gato Preto, Edgar Allan Poe (1809 - 1849) nos tortura com um narrador que passa de amante dos animais a assassino da própria esposa, culpando a "intemperança demoníaca" ― quando o sucessor do Plutão resolve se esfregar nele, todo ronronento, a gente quer sair gritando: "Corre, boy lixo!".

O escritor estadunidense é mestre em criar esses personagens que vão se perdendo na própria loucura, com um toque de sobrenatural, deixando o leitor angustiado até a última linha. Sua obra deu origem à ficção policial e contribuiu também para o desenvolvimento da ficção científica.

O próprio Poe teve uma morte misteriosa: encontrado delirando nas ruas de Baltimore, em 7 de outubro de 1849, faleceu quatro dias depois, aos 40 anos, sem a lucidez necessária para explicar como havia chegado àquele estado. As teorias incluem tentativa de suicídio, cólera, raiva, sífilis e até captura por agentes eleitorais.

Sua primeira biografia o retratava como um depravado, bêbado e louco, mas era assinada pelo rival, crítico e antologista Rufus Wilmot Griswold.

Gostou de Poe? O Coração Denunciador (ou delator, dependendo da tradução), tem essa mesma pegada e acaba de ser homenageado no seriado Dexter: Ressurreição, que eu também recomendo. Já as meninas indicaram A Queda da Casa de Usher, que deu uma roupagem contemporânea a outro clássico do autor.


Os Gatos de Ulthar, de H. P. Lovecraft (1890- 1937), conta a história de um velho camponês e sua esposa, que assassinavam os bichanos que ousassem se aproximar do casebre macabro. Quando uma caravana de "viajantes de pele escura" chega à cidade para ler a sorte no mercado e o peludo de Mene desaparece, ele se põe a horar em uma língua desconhecida, fazendo a gente vibrar com os besouros no final.

Apesar do orientalismo, bem-apontado pela Aline Silpe, foi uma grata surpresa para quem conhecia o mestre do horror cósmico por Nas Montanhas da Loucura, uma chatice que leva dez páginas para descrever o raio da montanha e usa termos tão tecnicamente incompreensíveis para criaturas que podem se tratar de polvos ou batatas.

O escritor estadunidense também não conta muito com minha simpatia. Sim, ele influenciou o thriller contemporâneo, inspirando Stephen King e Alan Moore, mas era racista, antissemita e xenofóbico, até mesmo para os EUA sob as leis Jim Crow, de segregação racial.

Em cartas pessoais, declarava sua simpatia por Hitler, pregava a supremacia da "raça ariana", fazia apologia ao linchamento de pessoas negras (lamentando o fim da escravidão) e manifestava repulsa à miscigenação. A bizarrice? Ele foi sustentado pela mulher, a designer de sucesso Sonia Greene, que era judia!


Arthur Conan Doyle (1859- 1930) escreve, em seu O Gato Brasileiro, sobre um solteirão falido, que passa os dias atirando em pombos e aceita o convite de um primo rico para visitar a mansão na Inglaterra onde coleciona animais estrangeiros, principalmente trazidos do Brasil.

Entre cervos, queixadas, papa-figos, tatus e bestas, está a onça-preta que dá título ao conto e, infelizmente, degustará apenas um deles. Concordo com a Vanessa Araújo que podia ter terminado cinco linhas antes, aliás.

O autor escocês foi influenciado por Poe e, com seu Sherlock Holmes, personagem inspirado em um professor da faculdade de medicina, revolucionou a literatura de mistério e detetive. O título de Sir, porém, não é tão honroso assim, devendo-se ao panfleto que Doyle redigiu para justificar a guerra do Reino Unido contra os colonos de origem francesa e holandesa na África do Sul.

Cego de espiritismo, depois de perder a primeira esposa, um dos filhos e o irmão, ele também bateu cabeça contra a ciência, perdendo a amizade com Houdini por se recusar a acreditar que seus feitos não passavam de ilusões e teve o livro As Aventuras de Sherlock Holmes proibido na União Soviética, em 1929, por suposto ocultismo.

Mas a gente perdoa porque, morrendo de ataque cardíaco aos 71 anos, o escritor disse como últimas palavras à esposa que ela era maravilhosa. Sem contar que minha adolescência sem Um Estudo em Vermelho não teria a menor graça.


O Gato Espectral, de James Bowker (1877-1943), se passa em Whittle-le-Woods, região densamente arborizada e selvagem, onde a comunidade decide construir uma igreja, que insiste em aparecer na cidade vizinha, sob os protestos do padre Ambrose. O troféu "homice" vai para os dois vigias, que, como vocês podem concluir, não valem por meio.

Sobre o autor britânico não consegui encontrar nada no Google, exceto a informação de que esse conto integra uma coletânea de histórias folclóricas escritas em 1878, sob o título de Goblin Tales of Lancashire (Contos de Goblins de Lancashire).


Em O Tigre que Aquiesce, Norman Hinsdale Pitman (1858-1917) faz um lenhador ser devorado na floresta, levando a mãe idosa a cobrar reparação na justiça. Do tigre. E sobra para o assistente bêbado e sonolento, que não estava prestando atenção na audiência, a tarefa de levar o felino ao tribunal.

Também não tem muita coisa sobre o poeta canadense na internet, além do fato de que ele trabalhou como professor na China e contribuiu para disseminar o folclore chinês aos falantes de inglês, escrevendo coletâneas de fábulas e lendas.


A Índia, de Bram Stoker (1847-1912), estraçalha nosso coração com um casal em lua de mel que convida um estranho para acompanhá-los ao Castelo de Nuremberg, na Alemanha, onde fica a Torre da Tortura, e o infeliz decide jogar uma pedra no filhotinho de gato que brincava com sua mãe, sob a justificativa de aumentar a diversão.

O irlandês que revolucionou o gênero de vampiros com um vilão imortal, o Conde Drácula, nunca visitou a Europa Oriental, onde se passa o romance, casou com a paquera do Oscar Wilde e morreu após vários derrames. Dizem que se inspirou em Carmilla, romance lésbico de Sheridan LeFanu, lançado em 1872, que também tem gato.


E. F. Benson (1867-1940) assina os dois últimos contos, respiros da coletânea, porque parecem mais crônicas de gateiro do que histórias de suspense e mistério. Em A Gatinha, ele diz que "nenhum tipo de persuasão fará um gato desviar um milímetro sequer do curso que planeja seguir. Eles nos utilizam e, se os satisfizermos, até podem chegar ao ponto de nos adotar".


Já em E Assim Surgiu um Rei, a convivência com os bichanos é descrita como formas de governo: primeiro republicano, com gatos trabalhadores, que se sentavam em frente a buracos de ratos por horas a fio, passando então por dois meses de anarquia sombria, sem presidente ou qualquer governante, e culminando na monarquia de Cyrus, após uma revolução pacífica, já que o filhote persa, descoordenado e catarrento, chegara em uma cestinha de vime.

A biografia do autor inglês também contraria a linha editorial dos colegas: Benson era homossexual, o que explica a sensibilidade para narrar o universo felino. Em suas obras, ele costuma destacar as peculiaridades e os rituais da classe média-alta vitoriana, usando a sátira afiada e o humor sutil para desmascarar as excentricidades e contradições.

Seu último livro, entregue à editora dez dias antes de morrer de câncer na garganta, foi uma autobiografia intitulada Edição Final ― como não querer ser amiga desse figura?


Eliane Clal definiu bem a experiência: "Péssima, maravilhosa, péssima". Um desafio para quem gosta de animais, com autores incontornáveis (apesar de suas homices), que brincam com as nossas emoções como gatinhos e seus novelos. Sorte nossa que tem cada vez mais mulheres se destacando nesse gênero.

No sábado anterior, inclusive, eu participei do bate-papo organizado pelo Sesc Sorocaba com a Nicole Annunciato e a Cláudia Lemes, finalista do Jabuti, que em algum momento estreará no nosso clube.


Terror e suspense: do clássico ao moderno

Ao final do encontro, para manter o clima, a câmera do laptop morreu, minha imagem congelou roxa e a foto de um frajola misterioso entrou na chamada, rendendo à Regina Haagen o troféu involuntário de assombração de videoconferência.

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:: Um Gato entre os Pombos, da inglesa Agatha Christie

9.10.25

Cluboca do Livro: um ano de literatura e gatos!

Tudo começou com resolução de usar menos as redes sociais para voltar a ler livros em papel ― Mari ainda não havia comprado o Kindle e eu não fazia ideia de que preferiria e-books nas caminhadas ou antes de dormir. Era a virada de 2018 para 2019 e Leo escolhera o incentivo perfeito de presente de aniversário: a obra completa do Sherlock Holmes, escrito por Arthur Conan Doyle.

Eis que, por uma dessas coincidências bizarras do destino, a edição especial de Halloween do Cluboca do Livro tem um conto justamente do Doyle, chamado O Gato Brasileiro.


Mas faltou falar da criação do clube, né? Eu precisava espalhar para o mundo que os livros estavam me salvando em uma fase bem difícil. Entre os alarmes de cuidados dos felinos idosos, podia investigar assassinatos com idosos humanos. Sem sair de casa, dançava balé em Paris. O coração pesado pelas perdas descansava em um quarto que se moldava a humores mais leves. Ainda recorria aos acervos gratuitos da Biblion, do Skeelo (incluso no plano de celular) e da Amazon.

Nosso diferencial, claro, seriam os gatos ― como personagens, no título da obra, ilustrando a capa ou na biografia do autor. E, ao longo dos últimos 365 dias, tive o cuidado de equilibrar escritores homens e mulheres, sem repetir os países nem os gêneros literários.

Começamos por Vou te Receitar um Gato, da japonesa Syou Ishida, um misto de ficção de cura e realismo mágico. Aí, encaramos O Mestre e Margarida, do russo Mikhail Bulgakov, uma fantasia satírica. Relaxamos, então, com Um Homem Chamado Ove, do sueco Fredrik Backman, o mestre da comédia dramática. E, recentemente, estouramos pipoca com Um Gato entre os Pombos, da inglesa Agatha Christie, clássico mistério de detetive.


No dia 26, discutiremos Felinos e Macabros, coletânea de contos de terror assinados pelos estadunidenses Edgar Allan Poe, H. P. Lovecraft e Norman Hinsdale Pitman, pelo escocês Doyle, pelo irlandês Bram Stoker, pelo inglês E. F. Benson e por James Bowker, de quem não consegui descobrir a nacionalidade. Devo improvisar uma fantasia de bruxa ou vampira, com o guarda-roupa de ex-gótica. rs

Quer viver outras histórias, cair na risada junto, se emocionar e culpar o clima seco? Basta apoiar o Gatoca com qualquer valor a partir de R$ 15, escolher uma bebida para acompanhar os bate-papos (vale chimarrão, suco verde, chá de cogumelo, drink com guarda-chuvinha) e providenciar os livros ― usando nossos links, uma porcentagem vem para o projeto. :)


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29.8.25

Cluboca do Livro: felinos macabros de Halloween

Atualizado em 8 de outubro de 2025, porque a data do encontro mudou

Confesso que consultei o calendário duas vezes para ter certeza de que o Halloween será em dois meses, intervalo de leitura do nosso clube ― sim, ficou faltando uma obra entre Agatha Christie e este especial de Dia das Bruxas, culpa da editora Maralto, que publicou uma coletânea superlegal de escritores brasileiros sobre gatos, mas se recusa a vender (tentei pelos canais normais, a assessoria de imprensa, amigos escritores e até pela designer).

Em ritmo de ano acabando, então, discutiremos Felinos e Macabros, outra coletânea, só que de contos assinados por mestres do terror: Edgar Allan Poe com O Gato Preto, H. P. Lovecraft com Os Gatos de Ulthar, Arthur Conan Doyle (o autor de Sherlock Holmes) com O Gato Brasileiro e Bram Stoker com A Índia ― além dos menos conhecidos James Bowker com O Gato Espectral, Norman Hinsdale Pitman com O Tigre que Aquiesce e E. F. Benson com A Gatinha e E Assim Surgiu um Rei.


Felino macabro


Felino fofinho

Ler transforma o cérebro, segundo a ciência, porque ativa múltiplas áreas para associar letras e palavras a sons e significados variados, criando novas conexões ― quando nos deparamos com o trecho em que Anna Karenina, de Tolstoi, se joga na frente de um trem, por exemplo, a região motora do cérebro se ativa, sem que saiamos da poltrona.

Dedicar-se a textos não superficiais ajuda a entender argumentos complexos, fazer análises críticas e até a identificar notícias falsas nas redes. Ao estimular o hábito da leitura em casa, a criançada também desenvolve habilidades emocionais importantes, como a empatia, fugindo da distração e do hiperestímulo que as telas tendem a provocar. :)

Nosso encontro ocorrerá no último domingo de outubro, dia 26, das 16h às 19h, pelo WhatsApp. Para participar, basta apoiar o Gatoca com qualquer valor a partir de R$ 15, escolher uma bebida e comprar sua edição favorita ― usando os links abaixo, uma porcentagem vem para a gente. :)

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11.7.25

Um Gato entre os Pombos: encontro 'Cluboca do Livro'

Agatha Christie tem personagens planos, com enredos poucos críveis? Totalmente. Ainda assim, garante a pipoca amanteigada. Imaginem criar não apenas um, mas meia dúzia de detetives com trejeitos únicos, Hercule Poirot e Miss Jane Marple entre os mais famosos, para desvendar crimes em 80 romances e contos, sendo mulher, no século 20 (de 1920 a 1976)!

A própria vida da escritora guarda um mistério digno de livro: quando o marido, que já estava com outra mulher, pede o divórcio, seu Morris Cowley verde é encontrado no barranco de um lago no Reino Unido, com os faróis acesos, uma mala, um casaco de pele e a carteira de motorista vencida. Agatha passa, então, 11 dias desaparecida, mobilizando 15 mil voluntários, entre escoteiros, mergulhadores e pilotos de avião.


Companheira de trabalho

Até que a encontram em um hotel, a quatro horas e meia dali, com um nome falso, alegando sofrer amnésia. Há quem culpe o acidente de carro, aqueles que acreditam em vingança arquitetada contra o marido infiel e a hipótese de que tudo não passou de um golpe publicitário para aumentar as vendas de O Assassinato de Roger Ackroyd, lançado semanas antes.

A gente se encontrou no fim de junho, porém, para discutir Um Gato Entre os Pombos (sinopse aqui), com motivação revelada e mortes, no plural. A história começa na revolução de Ramat, uma cidade fictícia no Oriente Médio, e acaba em Meadowbank, escola britânica para meninas ricas, onde malfeitores dignos do Monty Python se alternam na tentativa de roubar meia dúzia de pedras preciosas.


Lembrar de tirar foto antes de ficar roxa, a gata dormir e o povo se evadir

Sim, tem orientalismo, machismo e conservadorismo, afinal se trata de um livro de 1959. Mas justamente por ser um livro de 1959 é que a gente se surpreende quando a autora contrapõe esse ranço da época pela boca de personagens mais progressistas ― acho que só o preconceito contra as francesas sobra sem defesa. rs

Nossa conversa partiu da Guerra Fria, passando pelo feminismo, capitalismo tardio como projeto, desafios da educação, direitos da criança e do adolescente, e terminou com Viviane Silva promovendo Poirot a sommelier de joelho ― eu trouxe como referência os podcasts Pra que serve a escola?, do Atila Iamarino com Diana Gonçalves Vidal, e Paulo Freire: trajetória e legado na educação brasileira, do Icles Rodriges com Joana Salém Vasconcelos.

De joelho não entendo muita coisa. Espero ter compensado com a indicação de um clássico de detetive pouco conhecido por aqui, que satiriza justamente essas fórmulas prontas dos livros de investigação: O Mistério dos Chocolates Envenenados, escrito pelo inglês Anthony Berkeley. E volto para contar quando a obra de agosto (ou outubro, rs) for decidida.


Companheiro de leitura no jardim


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9.5.25

Cluboca do Livro: quando o assassino não é o gato

Atualizado em 14 de junho de 2025, porque a data do encontro mudou

Eu queria uma história de mistério/policial para estrear o gênero na próxima leitura do Cluboca do Livro e cheguei a pensar em A Última Casa da Rua Needless, da estadunidense Catriona Ward, porque tem uma gata narradora. Mas li antes de sugerir, pois, apesar do burburinho, não conhecia a autora e achei meio pesado ― já teremos clássicos do terror no Halloween.

Descobri, então, Um Gato Entre Pombos, da Agatha Christie, que é uma expressão idiomática, sem bichanos efetivamente, e o grupo topou para não restringir tanto as opções ― vale também ilustração do peludo na capa ou presença na vida real do escritor. A rainha do crime ainda vem da Inglaterra, país inédito no nosso clube, além de quebrar a hegemonia dos autores homens.

Oitenta romances e contos publicados, com quatro bilhões de exemplares traduzidos para mais de 100 idiomas, ficando atrás apenas da Bíblia e de Shakespeare, está bom para vocês? Pode não ser a melhor atuação do detetive Hercule Poirot, mas certamente renderá uma boa diversão. Tenho aproveitado para ler na rede, em companhia do Intrú, por causa da fonte pequena demais para quem está acostumada a configurar letra-cartaz no Kindle. rs


E do que se trata o livro? De Meadowbank, uma escola para filhas de ricos e poderosos da alta sociedade britânica, onde, graças a uma de suas fundadoras, Miss Bulstrode, escândalos nunca acontecem. Até que a professora de educação física aparece morta ― por culpa dos próprios segredos ou protegendo alguém. E, conforme a investigação avança, fica claro que assassino ainda não terminou.

O encontro para conversar sobre a leitura ocorrerá no último sábado de abril, dia 28, das 16h às 19h, pelo WhatsApp. Para participar, basta apoiar o Gatoca com qualquer valor a partir de R$ 15, escolher uma bebida e comprar sua edição favorita ― usando os links abaixo, uma porcentagem vem para a gente. :)

- Um Gato Entre Pombos, impresso da HarperCollins
- Um Gato Entre Pombos, e-book da L&PM
- Qualquer item adquirido na Amazon partindo deste link ajuda o projeto

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:: Vou te Receitar um Gato, da japonesa Syou Ishida
:: O Mestre e Margarida, do russo Mikhail Bulgakov
:: Um Homem Chamado Ove, do sueco Fredrik Backman

17.4.25

Um Homem Chamado Ove: encontro 'Cluboca do Livro'

Eu amo os livros do Fredrik Backman porque ele consegue escrever sobre temas complexos de um jeito leve, tirando sarcasmo da manga sempre que a gente está embargado, prontinho para desaguar. Em Um Homem Chamado Ove (sinopse aqui), o autor-jornalista fala de velhice e morte com irônica propriedade, uma vez que é mais jovem do que eu.

A gente já começa sorrindo com os títulos dos capítulos ― ao menos a maior parte deles. Embarca, então, em uma montanha-russa de definições impagáveis: crianças, pequenos erros linguísticos balançantes, que crescem sem o menor respeito; gentileza, uma caixa contendo nitroglicerina; aposentar-se, tornar-se desnecessário; gente, desperdício de oxigênio; vencedor de uma discussão, aquele que conhece as palavras mais difíceis; medo da morte, ela passar batido e nos deixar sozinhos.

E tem o gato, que "vai perambulando com o porte de um bicho convencido, talvez um pastor-alemão de 60 kg do esquadrão antidrogas da polícia. Ove desconfia que é justamente a ausência total de autopercepção que fez com que ficasse sem cauda e metade da pelagem". Por outro lado, quando o bichano constata a prisão no carro, deita e dorme, "uma forma muito direta de resolver problemas". E, ao ser questionado se sete vidas não bastam, "lambe a pata, parecendo não ser do tipo que considera importante ficar fazendo a contagem".

Chorei de rir com os capítulos em que o velho rabugento tenta comprar um iPad, agride um palhaço e ensina Parvaneh a dirigir. E chorei de chorar no final. Ove também perdeu os pais precocemente, antes de poder formar sua família, "um tipo muito peculiar de solidão", acreditava que não gostava do gato, via-se cercado por idiotas e adoraria que quem estivesse certo estivesse certo e quem estivesse errado estivesse errado.

No último domingo, o livro nos deu a oportunidade de trocar experiências sobre nossos idosos e nossos próprios planos para a velhice, em um raro espaço de acolhimento, já que os tabus sobre o assunto se sobrepõem: pagar um cuidador para manter o familiar em casa (o que não custa barato) ou trazer para morar conosco e mudar toda a rotina? ― mesmo trabalhando fora, essa função ainda sobra para as mulheres. E na clínica de repouso, pode colocar contra a vontade? Até quando se tem condições de decidir? Como envelhecer com qualidade?


Fernanda Barreto citou a médica Ana Claudia Quintana, sobre quem envelhece bem ter as melhores relações, não necessariamente a melhor saúde ― na contramão da Era das telas e dos algoritmos das redes sociais, programados para engajar no ódio, gerando atomização. Embora não possamos descartar a importância da alimentação na longevidade, como lembrou Neide Rodrigues. Sua avó, que plantava a comida no interior sem agrotóxicos, viveu até os 94 anos, independente e ativa.

Se manter em movimento, aliás, talvez seja o terceiro pé do andador. A mãe da Cristina Rebouças, também com 94 anos, morava sozinha e viajava todo ano de navio, até a pandemia. Sua tia, de 92, ainda vai ao shopping com as amigas e não perdem um filme ou show. Ela faz Universidade da Memória e, em 2024, lançou um livro com as receitas da família.

Um andador precisa de quatro pés, certo? Exercitar o cérebro, como qualquer outro músculo do nosso corpo, atende os requisitos. A própria Cris, de 71, está estudando inglês para bater papo com a sogra irlandesa. Já a mãe da Paula, aos 86, divide a assinatura do Kindle com as filhas para ler digitalmente. Para a maioria das famílias, porém, a velhice vem cheia de desafios.

A negação das doenças sem cura, a sobrecarga em um dos familiares, a culpa de quem está longe, cobranças de todos os lados. Vanessa Araújo ressalta que é preciso acolher o comportamento do outro, por mais que a gente não entenda: "Idosos viram crianças, mas são crianças que já tiveram autonomia. Despedir-se de si mesmo não deixa de ser um processo de luto".

Por isso Aline Silpe, que tem como ritual ir ao teatro com o pai, "a criatura de 76 anos mais marrenta do universo", reforça que todo mundo deveria fazer terapia: "Nós precisamos de alguém de fora para ajudar a entender a nós mesmos e as pessoas ao redor".

Na lógica do capitalismo, inclusive, a aposentadoria nos torna inúteis, mas sempre se pode encontrar outros motivos para sair da cama e ser importante para alguém, como mostra o livro do Fredrik ― provocando o sistema, Cris confessa se sentir bastante útil cuidando de si, dos seus gatos e assessorando uma ONG baiana. Quatro amigas juntaram suas famílias em um pequeno condomínio, dividindo o cuidador, e ela pensa em repetir o combinado com outro grupo.

Ao longo das quatro horas de conversa, não faltaram indicações...


Para lidar melhor:

A Máquina de Fazer Espanhóis, livro do português Valter Hugo Mãe
"Eu me coloquei no lugar do personagem principal. Quando chegar a minha vez, já tenho uma ideia de como será", Cristina Rebouças.

O Incrível Dom de Oscar, livro do estadunidense David Dosa
"Mostra como as pessoas reagem a seus idosos internados", Paula Melo.

E se eu Morrer Amanhã?, livro da portuguesa Filipa Fonseca Silva
"Fala sobre descobrir o sexo na terceira idade", Fernanda Barreto.

Finitude Familiar, livro da brasileira Luiza Gonçalves de Paula
"Aborda a jornada que antecede a morte, os aprendizados, a importância dos cuidados paliativos", Vanessa Araújo.

A Luz Difícil, livro do colombiano Tomás González
"Conta a história de quem fica", Cristina Rebouças.

E se Vivêssemos Todos Juntos?, comédia dramática francesa (Prime Vídeo)
"Fala sobre cuidar de quem está perdendo a acuidade mental", Aline Silpe.


Para saber mais:

Como se prevenir contra as demências?
Vídeo do Drauzio Varella que também discute o papel do Estado no desenvolvimento de políticas públicas que garantam uma estrutura de cuidados aos idosos, como as que existem atualmente para bebês e crianças.

Cidades não gostam de pessoas mais velhas?
Vídeo da jornalista Mariana Mello, indicado pela Fernanda Barreto, sobre como as cidades precisam se preparar para acolher os idosos, estimulando que saiam de casa e tenham vida social.

O Bom do Alzheimer
Perfil da gerontóloga Claudia Alves Silva, indicado pela Lorena Fonseca.


Para se divertir (lista toda minha, porque ninguém é de ferro, né?):

Minha Avó Pede Desculpas
Livro fofo do mesmo autor de Ove.

O Clube do Crime das Quintas-Feiras
Coleção de detetive de Richard Osman.

Grace and Frankie (Netflix)
Série de comédia com a Jane Fonda e Lily Tomlin.

O Método Kominsky (Netflix)
Série de comédia-drama com Michael Douglas.

Only Murders in the Building (Disney+)
Série de comédia-policial com Steve Martin, Martin Short e Selena Gomez.

A Gangue da Luva Verde (Netflix)
Série de comédia com atrizes polonesas maravilhosas.

Um Espião Infiltrado (Netflix)
Série de comédia com Ted Danson.

*

Volto para contar quando o livro de junho for decidido. Para viver outras histórias, cair na risada junto, se emocionar e culpar o clima seco, basta apoiar o Gatoca com qualquer valor a partir de R$ 15, escolher uma bebida e comprar sua edição favorita ― usando nosso link da Amazon (para qualquer produto, aliás), uma porcentagem vem para o projeto. :)


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:: Vou te Receitar um Gato, da japonesa Syou Ishida
:: O Mestre e Margarida, do russo Mikhail Bulgakov

7.3.25

Cluboca do Livro: gato sueco dribla velho rabugento

Em Gatoca seria "gato rabugento dribla velha nada sueca" ― a foto não me deixa mentir. A boa notícia que acompanha as mordidas empolgadas, aliás, é que Intrú se recuperou da gastrite, inflamação intestinal ou qualquer revertério que tenha me feito pensar que ele morreria antes de ganhar uma casa.


Voltando ao livro, Um Homem Chamado Ove, do sueco Fredrik Backman, me abraçou durante os cuidados intensivos da despedida da Keka e é tão deliciosamente escrito que, ao concluir a leitura em e-book, acabei comprando também a versão impressa, só para poder grifar inteirinha e mandar para minha sogra, igualmente precisada de um intervalo de vida.


A gente ri da rabugice de Ove, que acredita estar cercado por idiotas, se emociona com as brechas que os vizinhos novos conseguem abrir entre as tentativas frustradas de abreviar uma existência sem sentido após a morte da esposa e torce o tempo inteiro pelo gato ― mais do que isso não posso contar! Se deem de presente esse afago na alma, mesmo fora do Cluboca do Livro.

Tem filme fofo também com o Tom Hanks, em que o personagem foi rebatizado de Otto, mais norte-americano, e no Brasil se chama O Pior Vizinho do Mundo, para manter a linha editorial da Sessão da Tarde. Mas não chega aos pés do texto do Backman ― quem descreve a passagem dos anos em modelos de carro? Depois desse, devorei Minha Avó Pede Desculpas e já botei na lista Gente Ansiosa.

O encontro para conversar sobre a leitura ocorrerá no segundo domingo de abril, dia 13, das 16h às 19h, pelo WhatsApp. Para participar, basta apoiar o Gatoca com qualquer valor a partir de R$ 15, escolher uma bebida e comprar sua edição favorita ― usando os links abaixo, uma porcentagem vem para a gente. :)

- Um Homem Chamado Ove, em papel
- Um Homem Chamado Ove, em e-book
- Qualquer item adquirido na Amazon partindo deste link ajuda o projeto

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:: Vou te Receitar um Gato, da japonesa Syou Ishida
:: O Mestre e Margarida, do russo Mikhail Bulgakov

26.2.25

O Mestre e Margarida: encontro do Cluboca do Livro

Parecem limões afogados, mas a bebida que me acompanhou durante a segunda edição do Cluboca do Livro foi uma caipirinha, cujo gelo derreteu completamente, pois o papo estava bom demais. A leitura custou a engatar, confesso, porque o russo Mikhail Bulgakov escreveu em outros tempos (e ritmo), sobre um país diferente do nosso, em que nos escapam as sutilezas ― senti falta de referências aprofundadas sobre a obra em português.


Foto ilustrativa, porque não saiu todo mundo

Sem contar que falamos de um calhamaço, completamente non sense ― quando você acha que não tem como ficar mais absurdo, aparece uma mulher voando pelada em cima de um porco. A sinopse compartilhei no post de janeiro, neste texto quero abordar os temas que discutimos no domingo, começando pelo prefácio da Zoia Prestes, filha do Carlos Prestes, que morou na União Soviética enquanto rolava a ditadura no Brasil.

Ela destaca a indignação do Bulgakov com a censura às empreitadas literárias que criticassem as distorções da primeira experiência socialista, expressa pelo alter ego do autor, o mestre, que também tenta publicar uma história incompreendida, num recurso clássico de metalinguagem ― Zoia não deixa de admitir, por outro lado, que o governo garantia o básico a toda a população, incluindo exilados como sua família.

Já a perseguição religiosa, que o escritor, ligado à Igreja Ortodoxa Russa, considerava um ataque à liberdade de expressão, provavelmente explica a escolha por contar, alternando com o caos da visita do diabo e seu séquito a Moscou, o martírio de Pilatos ― figura que ilustra a ideia antimaniqueísta presente nas 456 páginas de que não existe bem que seja só bom ou mal que seja só mal. Nem Woland, o capiroto, binga a cartelinha da perversidade absoluta. Behemoth, o gato, ganha fácil. rs

Por fim, o problema habitacional se reflete nos room mates do misterioso apartamento de número 50: Berlioz, que perde a cabeça embaixo de um bonde, e Stiopa, diretor do Teatro de Variedades onde acontece o espetáculo de magia negra que lota a clínica do doutor Stravinski ― e vale contextualizar que essa situação começou a mudar no início dos anos 80, com a expansão do programa habitacional, mas Bulgakov não viveu para ver.

Do mestre, criatura molenga e irritante, não há mais muito o que dizer. Margarida, porém, salva o livro: mulher empoderada (para a época), dobra o diabo no pacto fáustico, aquele de Goethe, e é a única que consegue ter seus desejos atendidos ― primeiro por Frida (sororidade), depois pelo seu grande amor (infelizmente, a criatura molenga e irritante).

Para fazer justiça, imaginei uma terceira camada na obra, em que ela narra a história do autor atormentado que escreve sobre Pilatos arrependido. O filme (sim, tem filme e assisti quase três horas em russo, com legendas em inglês), no entanto, opta pelo caminho inverso e esvazia completamente a personagem. Só vale pela fotografia.

Já em papel (ou e-book), O Mestre e Margarida provoca risos com a conversa entre ela e Azazello, um dos ajudantes de Woland, sobre sua especialidade em matar pessoas, não convencer corações apaixonados. A declaração que Nikolai Ivanovitch (não confundir com Ivan Nikolaievitch) pede para comprovar à esposa o sequestro por uma bruxa e a transformação em porco ― sem data, o gato enfatiza, senão o papel perde a validade. E a máxima de que a ofensa é o prêmio comum por um bom trabalho ― essa vou levar para a vida!

Convida a refletir quando o demônio apresenta Abadon, a morte, como imparcial, tendendo à compaixão pelos dois lados. Quando Koroviev, outro integrante do séquito infernal, esbraveja com a recepcionista da casa Griboiedov que não se pede a identidade para se certificar que alguém é escritor ― ao menos não fariam isso com Dostoievski. Ou quando Woland mostra a Mateus Levi que não existe luz sem sombra e até a sombra, no caso das árvores, pode ser boa.

E o que foi aquele baile do diabo, com criaturas em caixões e forcas chegando pela lareira, uma mistura de Labirinto e Beetlejuice? Claro que nem todo mundo curtiu o livro. Muita gente sequer conseguiu terminar. Mas o encontro bateu o recorde de participação ― convenci até o Leo, porque política ele se anima a debater (essa parte, no entanto, deixei de fora para manter o foco).

Marina Kater, que cursou dois semestres de literatura russa na faculdade de letras, comentou que, mais do que atacar ou defender um sistema de governo, a arte russa critica a falibilidade em nós, mostrando que todo mundo é humano, sem pretensão de apontar o certo: "Ninguém fica na categoria de bem e mal, nem os heróis. A gente é essa mistura".

E ilustrou com o exemplo de Pilatos, trabalhador correto, mas covarde, que se arrepende, não ouve a própria intuição: "Bulgakov tem uma visão crua, de olhos nítidos, sabe?". Karine Eslabão completou que o sistema tende a forçar as pessoas a serem complacentes, mesmo que esse arrependimento dure 2 mil anos: "Já as ações do diabo trazem justiça para quem merece".

Paula Melo, que viajou para a Rússia em 2005, se incomodou com a nudez, considerando objetificação das mulheres. Marina, porém, a enxergou associada ao poder, não ao deleite masculino: "Elas são endeusadas, não objetificadas. Não há estranhamento com a própria nudez". E eu, que participei até de casamento druida, lembrei dos rituais pagãos, em que a nudez representa liberdade e integração com a natureza.

Nós três concordamos, no entanto, que Margarida viver em função do mestre, segundo Paula, "um homem inexpressivo, que precisa de uma mulher para resolver seus problemas", não é superfeminista. Mas Marina bem pontuou que se tratava do contexto da época: "Senti falta, inclusive, de explicarem o que esse mestre tem de tão importante".

E Cris Barreto linkou com o machismo de botar as damas se estapeando para trocar suas roupas por modelos da alta costura de Paris, no espetáculo demoníaco do Teatro de Variedades, visão que Marina contrapôs com a cena, no mesmo espetáculo, dos homens se matando pelo dinheiro que caía do teto: "Bulgakov categoriza os personagens em dois grupos. Os fúteis, que brigam por roupa e dinheiro, e os elevados, como Natasha, que podia ter todas as roupas de Margarida e escolhe a liberdade".

A gente discutiu, ainda, que liberdade e democracia dependem de posição que se ocupa em determinada estrutura, qualquer uma. Que um mundo governado por mulheres, na pior das hipóteses, seria menos violento, dadas as experiências das sociedades matriarcais. Que a lua cheia, marcante na jornada de vários personagens, simboliza a metáfora do enlouquecimento ― de onde, inclusive, nasce a palavra "lunático".

E que o gato é um tremendo canalha, sem moral nem ética, de acordo com Marina, que se coloca sempre como antagonista, por pura filha-da-putagem. Ainda assim, Lorena Fonseca considerou um equívoco enorme existir um bichano no livro que não seja o mestre: "Isso está obviamente muito errado".

*

Volto para contar quando o livro de abril for decidido. Para viver outras histórias, cair na risada junto, se emocionar e culpar o clima seco, basta apoiar o Gatoca com qualquer valor a partir de R$ 15, escolher uma bebida e comprar sua edição favorita ― usando nosso link da Amazon (para qualquer produto, aliás), uma porcentagem vem para o projeto. :)

- O Mestre e Margarida da Editora 34, traduzido pelo Irineu Franco Perpetuo
- O Mestre e Margarida da Companhia das Letras, traduzido pela Zoia Prestes
- Versão em e-book da edição da Companhia das Letras

7.2.25

2024

Pessoas de humanas podem sonhar com licença poética. Mas também se estabacam de mais alto. Sim, eu sabia que os gatos tinham envelhecido, só que, na minha cabeça avessa à matemática, era perfeitamente possível perder um por ano, intervalo confortável para tirar o atraso do sono, recuperar o peso, voltar a enxergar beleza na vida.

E se, em 2023, já havia me despedido de três bigodes (Guda, Pipoca e Pufosa), neste 2024 não só enterrei mais três como os cuidados se sobrepuseram. Chocolate melhorava e piorava da ataxia, enquanto Keka oscilava com os desdobramentos da doença renal e Pimenta tratou de sofrer uma reação alérgica a picada, furando a fila (além de me deixar em negação) ― Choco partiu três meses antes, Keka quatro depois.

Foram tempos tão devastadores que custei a juntar coragem para enfiar o dedo nesta retrospectiva ― notei, inclusive, que só um post entrou para a categoria dos divertidos: a brincadeira com a oficina de hot para gateiras (Quadrilha escatológica e Gato velho pode tudo até tentaram, mas acertaram no pierrô).

Eu sentia era vontade de escrever sobre as mudanças que se atropelavam ― comigo, com a rotinha da casa, com as meninas. Gatoca primeiro se tornou PB, depois deixou de ser gangue, até que sobrou apenas Jujuba, selvagem como a natureza abandonada do gatil. Assim que consegui respirar, aliás, me pus a refazer os jardins, organizar coisas acumuladas, encher sacolas de doação.

A batalha para ressignificar o ano, com faxina descarrego de quem finalmente viraria de 2020 para 2025, amigo-secreto do Cluboca e amores de três décadas, só não alcançou 100% de sucesso porque a Samsung quase explodiu meu celular e Jujuba, sozinha pela primeira vez, decidiu que eu não precisava mais dormir.

Foi inevitável, inclusive, transformar o blog em um repositório geriátrico: pele flácida (velhice ou desidratação?), vômitos e dicas que ninguém dá, truque para quem não come comida velha, como medicar gato tranquilo e bichanos difíceis, quanto demora para o soro fazer efeito, suco para animal debilitado, inalação amigável, como cortar comprimido (sem esmigalhar), quando vale a pena manipular, reforço alimentar na seringa.

Mas não deixei de produzir conteúdo para as outras faixas etárias (e seus humanos) também: emergência com gatos (sensibilizada pela tragédia do Rio Grande do Sul), quando correr ao veterinário, como os peludos enxergam, explicações para "fantasmas", funções da língua áspera, personalidade ideal (teste), melhor piso, por que eles jogam coisas no chão, escova para aventureiros, versão que solta vapor, por que vídeo de gatinho faz bem à saúde.

E a série inspirada em O Encantador de Gatos, livro do Jackson Galaxy, ganhou outros nove capítulos: sobre curiosidades felinas, dominância, importância dos três Rs, jeito infalível de brincar, como alimentar a gatitude, limpeza e sono felinos e gatificação (lugar para onde voltar, arranhar sem destruir, planejamento urbano antitreta).

Não faltaram, ainda, as clássicas comemorações: o último aniversário da ranhetinha e da parte mais longeva das gudinhas, os três anos de Araçoiaba da Serra, o quase-aniversário e o 17º aniversário do Gatoca, o Dia Internacional da Maquininha de Ronrom. E o casamento, esse inédito, da minha primeira amiga gateira.

A criatura que mais roubou sorrisos no recinto, porém, foi o frajola que não pode entrar ― e de quem eu nem sabia que precisava. Os 20 posts renderam uma tag nova, só para ele: férias do Intrú, o que acontece com bicho que vai para a rua, procuram-se madrinhas, madrinhas conquistadas e um chalé, 59 dias sem acidentes, brinquedinho fracassado, desaparecimento (teste)...

...pãozinho no cobertor (vídeo), o primeiro colo, a primeira ioga, a primeira caçada sem mortes, desafio de aquecer do lado de fora, Vigilantes do Peso Felino, quase atropelamento, Airbnb de saruês, pet no trabalho, procura-se família desesperadamente, visita das Cataratas do Niágara, texto mal-humorado fofo de Natal.

Para fechar na alta, o projeto contou com a parceria da Ana Roxo, juntando felinos, arte e lubrificação ocular, além da menção carinhosa no canal de 65 mil seguidores. E teve o lançamento do nosso Cluboca do Livro diferentão, com o best-seller japonês Vou te Receitar um Gato, de Syou Ishida, e participantes de vários estados do Brasil (+ Canadá) no encontro de discussão.

Que 2025 seja de balanço na rede ― porque isso significará que conseguimos finalmente instalar a rede, que sobrou tempo para balançar, que o gorducho realizou o sonho da casa própria e que Jujuba continua se equilibrando em duas patas para ganhar sachê.


Retrospectivas dos anos anteriores: 2023 | 2022 | 2021 | 2020 | 2019 | 2018 | 2017 | 2016 | 2015 | 2014 | 2013 | 2012 | 2011 | 2010 | 2009 | 2008 | 2007

24.1.25

Cluboca do Livro: obra russa com gato falante!

Para contrapor a pegada descompromissada de Vou te Receitar um Gato, livro de estreia do nosso clube, escolhemos logo um calhamaço, polêmico e com nomes impronunciáveis. O Mestre e Margarida, do escritor russo Mikhail Bulgakov, satiriza a vida e a repressão sob o regime soviético de Stálin.


E o curioso é que o próprio Stálin viu 16 vezes Os dias dos Turbin, uma das peças do Bulgakov, fez voltar em cartaz quando soube que tinham censurado, ainda arrumou um emprego para ele como diretor assistente no Teatro de Arte de Moscou ― as informações são do jornal O Globo.

Na trama do nosso livro, satanás e seu séquito diabólico, composto por um gato fanfarrão, um intérprete trapaceiro, uma bela bruxa e um capanga assustador, decidem visitar a Moscou dos anos 1930, deixando um rastro de destruição e loucura ― e inspirando a música Simpathy for the Devil, dos Rolling Stones.

Em algum momento, eles se cruzarão com mestre, autor malcompreendido de um romance sobre Pôncio Pilatos, e Margarida, que fará de tudo para reencontrar seu amado desaparecido ― já li um terço da obra e até agora nada. Estou apanhando, inclusive, para decorar as múltiplas alcunhas dos personagens com a privação de sono proporcionada pela Jujuba.

O encontro para conversar sobre a leitura ocorrerá no terceiro domingo de fevereiro, dia 16, das 16h às 19h. Para participar, basta apoiar o Gatoca com qualquer valor a partir de R$ 15, escolher uma bebida e comprar sua edição favorita ― usando os links abaixo, uma porcentagem vem para a gente. :)

- O Mestre e Margarida da Editora 34, traduzido pelo Irineu Franco Perpetuo
- O Mestre e Margarida da Companhia das Letras, traduzido pela Zoia Prestes, filha do Carlos Prestes
- Versão em e-book da edição da Companhia das Letras
- Vou te Receitar um Gato, para quem ficou curioso
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11.12.24

Vou te Receitar um Gato: encontro do Cluboca do Livro

Domingão rolou a primeira edição da pata literária (e etílica) do Gatoca, com participantes de São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Bahia, Canadá e do plantão do hospital (nutricionista, calma!). Movida a chocolate quente com rum, na caneca do Simba ilustrada pela Marina Kater, nem vi as três horas passarem.

A gente conversou sobre Vou te Receitar um Gato, best-seller japonês de Syou Ishida, indicado pela Cora Rónai na coluna d'O Globo, que divertiu parte dos leitores pela leveza e abandonou outros no caminho pela superficialidade e ritmo mais lento.


Para ampliar, cliquem na imagem

Eu mesma achei uma boa ideia mal-executada, como se toda a experiência que a autora demonstra com bichanos faltasse à escrita ― diálogos artificiais, inconsistências no enredo, soluções convenientes. O tom de "manual para acompanhar a adoção" ainda se alternava com animais de raça, romantização de fuga e lições de moral blé, como a de que ninguém é insubstituível.

Mas gostei da proposta do realismo mágico e confesso que fui pega de surpresa pelo plot twist, pós-chá de matatabi. Das cinco histórias, a que mais me tocou foi a da mãe cansada e sem tempo, que faz a filha devolver um filhote, porque já estive no lugar da criança e dezenas de vezes no lugar da mãe, como protetora que sobra com o gosto amargo de não poder ajudar quem repassa o problema para dormir tranquilo.

Lúcia Trindade notou que todos os personagens começam autocentrados e acabam mudando por causa dos gatos. "Quando um gato entra na sua vida, tudo muda", emendou Cristina Barreto. E Vanessa Araújo enfatizou o reestabelecimento de conexões perdidas também nas famílias desfuncionais.

Não passou despercebido para Viviane Silva que as mulheres têm mais visão de contexto, enquanto os homens parecem mais alienados. Já Lorena Fonseca sacou que a personalidade do médico e da enfermeira que trabalham na clínica que receita felinos era condizente com a deles. Aline Silpe recomenda para quem gosta de dorama, o que não é seu caso.

E quem melhor resumiu a experiência, na minha opinião, foi a Paula Melo, que sentiu falta de aprofundamento nas 224 páginas: "Amei, duas estrelas!". rs

*

O Cluboca do Livro é uma das recompensas do nosso financiamento coletivo e a segunda edição está programada para o início de fevereiro ― divulgo o nome do livro e a data certinha assim que decidirmos. Se você também quiser viver outras histórias, cair na risada junto, se emocionar e culpar o clima seco, clique aqui e escolha sua bebida! :)