Gatoca

Educação, sensibilização e mobilização pelos animais

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9.9.26

Macanudo: encontro do Cluboca do Livro

A ideia era escolher um dos 11 volumes de Macanudo publicados no Brasil, mas quem resiste a um quadrinho que junta coelho escritor, frajola com nome de cineasta italiano, pinguins ativistas, criança com questões existenciais, amigo imaginário sem gênero definido, duendes usando chapéus de pompom e uma figura misteriosa com nariz de cenoura?


Acabei comprando o primeiro e o especial de dez anos, para juntar com o quarto e o quinto, lembranças da exposição do Centro Cultural Correios, em julho de 2015, quando assisti ao Liniers compartilhar sua euforia numa folha em branco gigante ─ e comi algodão doce com a Amanda, que vocês acompanham por aqui há duas décadas.


Para ampliar, cliquem nas imagens



Ricardo Liniers Siri nasceu na Argentina, tem parentesco com um vice-rei fuzilado e, para a nossa sorte, não seguiu a carreira de publicitário. Aos 29 anos, encarou a crise política e econômica de seu país, a tensão mundial pós-ataque terrorista às Torres Gêmeas dos Estados Unidos e decidiu que os leitores de jornal mereciam "uma pequena carícia".

Por indicação da quadrinista Maitena, suas tirinhas "bacanudas" (em um misto de tradução livre e licença poética) começaram a sair no La Nacion, chegando ao Brasil em 2009 pela Folha de S.Paulo. De lá, tirei esta confissão: "Meus quadrinhos têm uma alma meio tangueira, uma coisa argentina de alimentar frustrações. Queremos ser pentacampeões, e isso nunca acontece. Queremos ter políticos honestos, e eles não aparecem".

Identificação explica o sucesso bananeiro da HQ, marcada pelo non sense e mais necessária do que nunca. Michel Gherman, professor de sociologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, diz que o fascismo odeia o abstrato porque vem acompanhado por alteridade e pensamento crítico ─ compreender o outro exige a capacidade de imaginar uma realidade diferente da nossa. "Um mundo somente literal é um mundo militarizado".


No encontro, cada participante mostrou suas tirinhas favoritas e compartilho as minhas aqui, para vocês também se divertiram com os personagens líricos, melancólicos, reflexivos e amalucados do Liniers ─ que se desenha como um coelho, estratégia para ajudar a rir de si mesmo. Ele desconhecia o alter ego leporídeo de Matt Groening, mas recebeu a benção oficial do criador dos Simpsons quando sua cunhada passou a namorá-lo.


(Referência à comédia de ficção científica O Dorminhoco, sobre um dono de loja de produtos naturais e aspirante a músico de jazz que acorda do congelamento sem consentimento em um futuro distópico, onde os dissidentes têm seus cérebros eletronicamente simplificados.)

Fellini homenageia o diretor italiano Federico Fellini e divide suas aventuras com Enriqueta, uma garota introvertida, meio filósofa e apaixonada por livros.





Olga, um monstro azul e peludo, aparece apenas para Martinzinho e, contrariando a expectativa do autor, virou um dos personagens mais queridos do público ─ Liniers pretendia desenhar um boneco que protegesse o garoto, como o Han Solo de sua infância, só que não conseguiria pagar os direitos autorais ao George Lucas.


O Misterioso Homem de Negro brinca com os clichês visuais do mistério, em contraste com situações banais. "Fiz num dia em que estava me sentindo esquisito, pus nele capa e chapéu para ficar elegante, mas não achava que iam gostar, porque suas histórias não se fecham."



Os pinguins (e outros animais) traduzem sentimentos puros e o estranhamento do cotidiano, com uma boa dose de crítica social.


Já os duendes exploram o absurdo e o encantamento, isentos de qualquer racionalidade.


Tem, ainda, as tirinhas com famosos, como Picasso.


De formatos experimentais.



E que funcionam como chacoalhões amorosos.







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:: Vou te Receitar um Gato, da japonesa Syou Ishida
:: O Mestre e Margarida, do russo Mikhail Bulgakov
:: Um Homem Chamado Ove, do sueco Fredrik Backman
:: Um Gato entre os Pombos, da inglesa Agatha Christie
:: Felinos e Macabros, coletânea de contos de autores como Edgar Allan Poe, H. P. Lovecraft e Bram Stoker
:: Diário dos Gatos Yon & Mu, do japonês Junji Ito
:: A Mão Esquerda da Escuridão, da estadunidense Ursula K. Le Guin

21.8.26

Cluboca do Livro: filosofia felina em HQ argentina

Não sei se descobri as tirinhas do Macanudo quando Liniers veio ao Brasil, em 2015, ou antes, nas páginas da Folha de S.Paulo. Mas fiquei perplexa por só ter lembrado delas agora, que o Cluboca do Livro está perto de completar dois anos. Fellini, o gato que acompanha Enriqueta em conversas filosóficas e reflexões cotidianas, é a cara do nosso grupo!

Sua personalidade brincalhona e observadora contrasta com o ensimesmamento da tutora, gerando diálogos divertidos e que, não raras vezes, pegam a gente de jeito. O argentino Ricardo Liniers Siri ainda recheou o quadrinho de personagens insólitos, como pinguins, duendes e Olga, a amiga imaginária de Martin.

Macanudo, que significa "bacana" em espanhol, surgiu em 2002 no jornal La Nación, a convite da quadrinista Maitena, para quebrar o clima de pessimismo vigente ─ a Argentina enfrentava (mais) uma crise política e econômica, e as Torres Gêmeas estadunidenses haviam sofrido o ataque terrorista que espalharia uma onda de tensão mundial.


Em um momento histórico igualmente delicado (respirei três vezes para não escrever "pior"), a gente também escolheu olhar a vida pelo lado leve ─ ao menos neste mês de agosto. A ideia é que cada participante leia um dos 11 volumes publicados no Brasil e compartilhe suas tirinhas favoritas no encontro, dia 29 (entre 16h e 19h, pelo WhatsApp).

Para participar, basta apoiar o Gatoca com qualquer valor a partir de R$ 15, providenciar o livro e preparar a bebida que seu humor pedir ― usando os links abaixo, uma porcentagem vem para nós:

- Macanudo 1
- Macanudo 2
- Macanudo 3
- Macanudo 4
- Macanudo 5
- Macanudo 6
- Macanudo 7
- Macanudo 8
- Macanudo 9
- Macanudo 10 (edição especial)
- Macanudo 11
- Qualquer item adquirido na Amazon partindo deste link ajuda o projeto


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:: Felinos e Macabros, coletânea de contos de autores como Edgar Allan Poe, H. P. Lovecraft e Bram Stoker
:: Diário dos Gatos Yon & Mu, do japonês Junji Ito
:: A Mão Esquerda da Escuridão, da estadunidense Ursula K. Le Guin (que ainda não tive tempo de contar aqui no blog)
:: Good Omens: Belas Maldições, dos ingleses Neil Gaiman e Terry Pratchett

8.8.26

Good Omens: encontro do Cluboca do Livro

Minha segunda experiência com Belas Maldições, agora mais conhecido como Good Omens, foi tumultuada ─ a primeira tem duas décadas, contei aqui. Jujuba estava morrendo, depois veio a viagem à França e, fora a exaustão que fazia Neil Gaiman e Terry Pratchett parecerem Dostoiévski, escolhi ler pela BiblioSP Digital, iniciativa bacana da prefeitura de São Paulo, mas que usa o aplicativo horroroso da Árvore.

Parênteses para dizer que a BibliOn, do governo do Estado, acaba de migrar para lá, tornando o processo uma tortura também ─ o livro demora para carregar (isso quando não dá erro), perde o ponto de leitura offline, não oferece opção de retorno nas notas de rodapé, o botão de destaque precisa de múltiplos apertos até se conseguir o ângulo certo, o marcador de página nunca leva à página efetivamente marcada e a busca não funciona.

Sim, eu expliquei tudo isso a eles e recebi uma resposta automática, motivo pelo qual reitero aqui. E aproveito para agradecer ao Leo, que me indenizou com a edição especial que vocês veem ao lado do Intrú ─ a caneca foi presente da Eli, junto com o melhor croissant vegano que comi na vida. ❤️


De volta à fantasia satírica, o encontro de discussão deveria ter ocorrido no fim de junho, só que veio a Copa e, na sequência, as férias escolares. Aí, quando finalmente nos reunimos, o laptop travou, o frajola se enfiou embaixo do banco do gatil e a internet me deixou cubista ─ dois celulares e um computador, em cidades diferentes, não foram capazes de salvar a foto do post.


Na terceira tentativa, Leo até bancou o titereiro. E, além de meia Paula e 1/3 de Neide, faltou a Bárbara. Vai brincar com Deus, vai!


Good Omens: Belas Maldições não traz felinos entre os personagens principais, mas já valeria por este parágrafo:

E havia os gatos, pensou Cão. Ele surpreendera o enorme gato ruivo da casa ao lado e tentado reduzi-lo a uma geleia encolhida através do costumeiro olhar incandescente e do rosnado grave, que sempre funcionaram com os danados no passado. Dessa vez, eles lhe renderam uma patada no focinho, que fez seus olhos se encherem de água. Gatos, considerou Cão, eram obviamente muito mais durões do que almas perdidas. Ele não via a hora de ter uma nova experiência com gatos, que, conforme planejara, consistiria em saltitar ao redor deles e latir animadamente. Era um tiro no escuro, mas poderia dar certo.

Se alguém, mesmo assim, questionar a escolha da obra, apelo à biografia dos autores. Gaiman escreveu Coraline, em que um pretolino serve de guia à protagonista, transitando entre mundos, e Um Sonho de Mil Gatos, fábula do universo de Sandman que narra a jornada de uma siamesa em busca de respostas para a submissão dos animais. Em seu blog, o britânico conta ainda que improvisou um cemitério de bichanos perto do gazebo.

(Sobre o cancelamento, me limitarei a replicar que os processos contra ele nos Estados Unidos foram encerrados porque os supostos episódios de assédio sexual aconteceram na Nova Zelândia e a jornalista que liderou a investigação tem ligação com o Partido Conservador do Reino Unido, enquanto Gaiman defende abertamente pautas progressistas ─ infos detalhadas aqui.)

Já Pratchett publicou The Unadulterated Cat, sem tradução para o português, celebrando o "gato de verdade", aquele que caça, se suja e ignora regras (oi, Intrú!), e a série Discworld, com felinos marcantes, como o ardiloso Maurício, o galã Greebo e Senhor Tiddles, que não lida bem com mudanças. O jornal O Globo destaca que ele morreu em casa, dividindo a cama com o bichano e cercado pela família.


Bora falar da história, então? Céu e Inferno concordam que a Terra estava precisada de um Armagedom e bolam um plano de Chapolim envolvendo a troca de bebês em um convento de freiras satanistas para dar ao anticristo um lar que potencializasse sua malignidade ─ no caso, a família de um diplomata estadunidense (parece atual, mas é de 1990!).

Acontece que tanto Aziraphale, anjo e dono de uma livraria de obras raras em Londres, quanto Crowley, demônio estiloso que dirige um Bentley e adora Queen, se acostumaram com os prazeres humanos, vagando por aqui desde a época do Jardim do Éden, e decidem formar uma aliança secreta para sabotar o fim do mundo.

Aprendi com a demonóloga Tupá Guerra, aliás, que Apocalipse significa "revelação", sendo apenas o Apocalipse escatológico enquadrado nessa narrativa catastrófica. Já Armagedom o Google diz que vem do hebraico Har Megiddo, ou "Monte de Megido", um local real em Israel onde rolaram muitas guerras.

Enfim, a dupla pretendia influenciar o anticristinho de forma equilibrada, neutralizando seu poder destrutivo, só que passa 11 anos acompanhando a criança errada, embora ela se chame Warlock. E quem revela é o cachorro, enviado das trevas para a casa de Adam ─ sim, aquele Cão citado acima e que rende vários outros momentos divertidos.

Existe, ainda, o núcleo das bruxas e caçadores de bruxas, composto por Anathema Device, descendente de Agnes Nutter, que escreveu o único livro de profecias 100% preciso (e por isso não vendeu um único exemplar), o sargento Shadwell, obcecado por mamilos, e seu aprendiz Newton Pulsifer, que quebra todos os dispositivos tecnológicos em que toca.

E o núcleo dos Motoqueiros do Apocalipse, formado por Guerra, uma contrabandista de armas que vira jornalista e ninguém entende como sempre sabe onde os conflitos começarão; Fome, autor de best-sellers de dieta e redes de fast food; Poluição, substituto de Peste, aposentada quando inventaram a penicilina, e presente em todo o lugar, e Morte, que dispensa apresentação.

O livro junta o humor inteligente e non sense de Pratchett com a mitologia sombria e poética de Gaiman, repleto de críticas à religião, à visão maniqueísta de bem e mal, ao sexismo, à nossa relação com a natureza e à indústria de ultraprocessados. Seguem alguns dos meus trechos favoritos ─ grifei 125!

Deus age de formas extremamente misteriosas, para não dizer tortuosas. Ele não joga dados com o universo; joga um jogo inefável de Sua própria autoria, que poderia ser comparado, da perspectiva de qualquer um dos outros jogadores, a se estar engajado numa versão obscura e complexa de pôquer, numa sala totalmente escura, com cartas em branco, apostas infinitas e um crupiê que não lhe diz quais são as regras e que sorri o tempo todo.
Igrejas? Que bem elas já fizeram? São tão ruins quanto. O mesmo ramo de negócios, quase. Num dá pra confiar nelas pra afastar o Maligno, porque, se fizessem isso, estariam fora desse ramo.
Pode ser que ajude na compreensão das questões humanas ter uma noção clara de que a maioria dos grandes triunfos e tragédias da história é provocada não por pessoas sendo fundamentalmente boas ou más, mas por pessoas sendo fundamentalmente pessoas.
─ Você está dizendo que a criança não é má por natureza? ─ perguntou Aziraphale, devagar.
─ Potencialmente má. Potencialmente boa também, acho. Apenas essa grande e poderosa potencialidade, esperando para ser moldada ─ respondeu Crowley.
Se vocês parassem de falar para as pessoas que tudo vai se ajeitar depois que elas morrerem, elas poderiam tentar dar um jeito em tudo enquanto estivessem vivas.
─ Você ficaria surpreso com o tipo de coisas que eles podem fazer com você lá embaixo ─ falou Crowley.
─ Imagino que sejam muito semelhantes ao tipo de coisas que podem fazer com você lá em cima ─ disse Aziraphale.
A maioria dos demônios não era tão má assim. No grande jogo cósmico eles sentiam que ocupavam a mesma posição de fiscais de renda: faziam um trabalho talvez impopular, mas essencial para o esquema geral das coisas. Da mesma forma, alguns anjos também não eram modelos de virtude; Crowley havia conhecido um ou dois que, na hora de punir os infiéis, castigavam com mais vigor do que o estritamente necessário.
Aziraphale citou o nome de cinco líderes políticos. Crowley deu o nome de seis. Três apareciam em ambas as listas.
Minha mãe disse que bruxas eram apenas mulheres inteligentes protestando da única maneira disponível para elas contra as injustiças asfixiantes de uma hierarquia social dominada pelos homens ─ disse Pepper
Que mundo engraçado, pensou o entregador. Eis aqui o Uck, que costumava ser o rio mais bonito desta parte do mundo e agora é só um esgoto industrial glorificado. Os cisnes vão até o fundo, e os peixes boiam na superfície. Bem, isso é que é o progresso. Não se pode impedir o progresso.
Você sabe que pode ser processado por ser uma espécie dominante sob influência de um consumismo impulsivo, não sabe?
A Newtrition Corporation havia começado onze anos antes. Uma pequena equipe de cientistas alimentares, uma equipe enorme de funcionários de marketing e relações públicas. (...) RANGO® continha moléculas proteicas cuidadosamente projetadas para serem ignoradas até pelas enzimas mais famintas do trato digestivo. (...) O preço era um pouco mais alto e o conteúdo nutricional, equivalente ao de um walkman da Sony. (...) LANCHES® era junk food feita de lixo de verdade. (...) REFEIÇÕES® era RANGO® com açúcar e gordura. (...) Ele nem se preocupou em examinar seu milkshake. Não tinha nenhum conteúdo alimentar real, mas, também, nada do que era vendido por seus rivais tinha.
Pensem em todos os brinquedos que posso oferecer a vocês... pensem em todos os jogos. Posso fazer vocês se apaixonarem por mim, menininhos. Menininhos com suas pistolinhas.
O cérebro humano não está equipado para ver Guerra, Fome, Poluição e Morte quando elas não querem ser vistas, e ele ficou tão bom em não ver que muitas vezes consegue não vê-las mesmo quando abundam por toda parte.

No encontro do último domingo, debatemos se Rousseau, Hegel e Nietzsche estavam certos. O ser humano nasce bom e a sociedade o corrompe? Todo homem é fruto de seu tempo? Bem e mal absolutos não passam de uma ilusão que nega a complexidade da vida? Existem céu e inferno? Quem nos julgará no final? Vale lutar por um planeta melhor?

Neide pontuou que a narrativa de fim do mundo sempre povoou o imaginário da humanidade. E espera atuar como sua própria juíza no acerto de contas, confrontando em retrospecto expectativa e realidade. Cristina também credita ao nosso cérebro todas as coisas incríveis e terríveis que criamos. "O crescimento vai nos moldando", completou Danielle.

Eliane lembrou de A Igreja do Diabo, conto do Machado de Assis publicado em 1884 e que filmamos com "defeitos" especiais impagáveis no colegial técnico ─ para abolir as virtudes tradicionais e oficializar vícios como orgulho e egoísmo, o Diabo decide fundar sua própria religião, mas os seguidores continuam praticando o bem em segredo, revelando nossa natureza contraditória.

Aline retomou a Tupá, que explica que inferno e demônio atuais não vêm da Bíblia, mas dos bestiários, da Divina Comédia, escrita por Dante Alighieri, e de Paraíso Perdido, do inglês John Milton ─ a Bíblia coleciona outros tipos de monstros. No Livro de Jó, por exemplo, Satã é um adversário, uma espécie de promotor que integra a corte divina. Enquanto em Isaías a palavra hebraica para Lúcifer significa "estrela d'alva" ou "estrela da manhã".

Tupá tem outro vídeo muito bom que bota Hollywood na parada, mostrando como os filmes de terror dos anos 80, tipo O Exorcista e Poltergeist, encontraram terreno fértil em um contexto de insegurança social, alimentando o pânico satânico ao exibir famílias atacadas em casa por demônios e fantasmas ─ nenhuma serpente faria melhor.

Marina trouxe a visão dos cínicos: "Adam equivale ao Adão jovem, ainda não corrompido, e guarda bem e mal em sua essência". Céu e inferno seriam, portanto, indissociáveis ─ e subjetivos (alguém de fora pode julgar uma ação bem-intencionada nossa como negativa). Já Crowley e Lúcifer querem permanecer na Terra, apesar da alternância irrefreável entre momentos bons e ruins.

O segredo estaria em adotar um olhar mais egoísta, focando no próprio prazer, em vez de abraçar ideais coletivos de transformação. Os cínicos se frustram menos, pois não se desgastam com situações que não podem mudar ─ Um Cântico para Leibowitz, clássico da ficção científica pós-apocalíptica, assinado pelo estadunidense Walter M. Miller Jr., ilustra bem como a civilização colapsa, ressurge e torna a repetir os mesmos erros.

Chocada por ter usado a palavra errado a existência inteira, voltei ao Google. Esse sentido moderno de cinismo, marcado pela descrença nas motivações alheias, diverge bastante do clássico, que pregava a rejeição a regras sociais artificiais e dogmas impostos pelo poder ─ kynikos, em grego, quer dizer "como um cão", apelido dado aos filósofos que viviam sem luxo, em harmonia com a natureza.

Nenhuma de nós acredita, porém, que não se deve fazer sua parte, mesmo que impacto das escolhas individuais seja mínimo, como lamentou Vanessa. "Gandhi desconhecia os desdobramentos da Marcha do Sal", exemplificou Marina, assim como devem ter existido vários Gandhis de que nunca ficaremos sabendo. "As microatitudes também ensinam respeito com outras espécies", acrescentou Viviane. "E a extrema direita está aí para mostrar como mobilizar indivíduos em massas", provocou Bárbara.

Lembrei do trabalho da Lala Deheinzelin com o Crie Futuros, um movimento baseado na ideia do escritor austríaco Peter Drucker para inspirar futuros desejáveis. Se eles nascem do que sonhamos e desejamos, precisamos urgentemente nutrir visões mais positivas ─ na literatura, nos filmes, nas artes plásticas.

Aproveito para encerrar com a recomendação da série do Prime Video, que extrapola o livro em duas temporadas, roteirizadas também por Gaiman (e seu humor ácido), nos presenteando com as atuações maravilhosas de Michael Sheen como Aziraphale e David Tennant como Crowley, além de um final de sorrir chorando.

*

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:: A Mão Esquerda da Escuridão, da estadunidense Ursula K. Le Guin

26.6.26

A Mão Esquerda da Escuridão, pelo Cluboca do Livro

Eu sabia que seria desafiador ler uma obra de ficção especulativa, gênero literário pelo qual não morro de amores, em ritmo mais lento do que nosso cérebro ultraprocessado está acostumado e com o sono atrasado por causa do processo de partida da Jujuba. Mas a estadunidense Ursula K. Le Guin vale o esforço e A Mão Esquerda da Escuridão propõe discussões sobre gênero, feminismo e alteridade que, 57 anos depois, a gente ainda precisa fazer.

O livro, em si, não tem a ver com os bichanos. Só entrou para o clube porque a autora, vencedora dos prêmios mais relevantes da ficção científica e da fantasia (Nebula, Hugo, Locus), os amava: "A presença de um gato me mantém em contato com o mistério, a irracionalidade, a beleza, a teimosia selvagem do mundo não humano" ─ ela chegou a escrever Book of Cats, um compilado de poemas e meditações sobre a "felinidade", sem tradução no Brasil, e Gatos Alados, série infantil focada no desejo de liberdade, respeito à natureza e à diversidade.


Última participação da Jujuba no Cluboca do Livro

Esses temas também aparecem em A Mão Esquerda da Escuridão. Ambientado no planeta Gethen, chamado de Inverno pelos terráqueos por sua temperatura hostil, o romance traz personagens andrógenos e sem sexo definido, que apenas durante o kemmer (e aleatoriamente) se tornam masculinos ou femininos ─ a mãe de uma criança é, sem qualquer estranhamento, o pai de outra. Não se tratam, porém, de habitantes neutros, enfatiza a obra, mas de potencialidades ou integralidades.

E essa característica biológica molda a cultura local, eliminando os papéis de gênero tradicionais e as estruturas sociais baseadas na desigualdade entre homens e mulheres. Visualizem o sonho: qualquer um pode exercer qualquer profissão, o fardo e o privilégio da gravidez são compartilhados, não há divisão da humanidade em metades forte e fraca, protetora e protegida, dominante e submissa, dona e escrava, ativa e passiva ─ nem estupro, uma vez que os gethenianos passam a maior parte do tempo assexuados.

Durante o kemmer, ninguém trabalha ─ chupa, Fiesp! E nunca fazem guerra. Moradores do reino de Karhide, monarquia baseada em honra e tradição, são condenados ao exílio, morrendo sozinhos de frio e fome. Já Orgoreyn, estado burocrático e autoritário, possui uma colônia penal sem muros ou grande aparato de segurança, pois o frio e o isolamento tratam de desestimular eventuais fugas. Em época de Guerra Fria, Le Guin critica as contradições de ambos os sistemas políticos em disputa.

O livro alterna capítulos narrados por Genly AI, emissário humano enviado por uma coalizão interplanetária para convencer Gethen a se unir ao Ekumen, permitindo intercâmbio político e tecnológico, e Estraven, primeiro-ministro de Karhide que o ajudará nessa missão. Mitos e lendas do planeta gelado incrementam a história, junto com relatos de pesquisadores de campo ― um deles acredita que os gethenianos tenham sido um experimento antigo da Terra.



A maior parte do romance, porém, descreve os quase três meses de travessia da geleira Gobrin, uma das regiões mais inóspitas de Gethen, quando Genly e Estraven passam a entender melhor a cultura um do outro (contornando uma angustiante tensão "sexual"), e precisei lutar para manter os olhos abertos ─ respeito máximo, porém, à habilidade da autora de usar a forma para reforçar o conteúdo.

Aproveito a deixa para falar de Le Guin. Filha do diretor do Museu de Antropologia da Universidade da Califórnia, não havia fonte melhor para formar sua bagagem como escritora, complexificada pelo taoísmo, o feminismo e as ideias de Jung, principalmente sobre os arquétipos. Isso lhe rendeu cinco obras rejeitadas por editoras, entre 1951 e 1961, todas consideradas inacessíveis. rs

Em 1968, na publicação de Nine Lives, a revista Playboy disfarçou seu nome feminino como "U. K. Le Guin", episódio sobre o qual lamentou: "Parecia tão bobo, tão grotesco, que falhei em perceber que também era importante". Nunca mais sofreu preconceito de um editor por seu gênero. Ainda teve peito para recusar o Prêmio Nebula de 1977, em apoio a Stanislaw Lem, que criticara a ficção científica estadunidense e demonstrara simpatia ao bloco soviético.

Em 2009, saiu da Authors Guild, organização de escritores, por colaborarem para o projeto de digitalização do Google, classificando a atitude como "acordo com o demônio". E condenou o controle que a Amazon exerce sobre a indústria editorial, durante a premiação de 2014 do National Book Award. Quando uma figura dessas morre (aos 88 anos!), não se espera menos do que Margaret Atwood discursando em seu funeral.

Com esse abre, espero que me desculpem pela demora para contar sobre nosso encontro, realizado no dia 12 de abril. 😊

A discussão começou com a interdependência dos opostos, proposta pelo livro, não só masculino e feminino, mas também calor e frio, vida e morte, e até a luz e a escuridão, expressas no título, uma alusão ao conceito taoísta de Yin e Yang, representando o equilíbrio entre as forças opostas e complementares que regem o universo. A autora explica com poesia:

A luz é a mão esquerda da escuridão
E a escuridão, a mão direita da luz.
Dois são um, vida e morte, deitados
juntos como amantes em kemmer,
como mãos unidas,
como o fim e o caminho.



Não passou batido, porém, a representação da androgenia de Gethen pelo pronome masculino ─ usado para se referir a um deus transcendente, por considerarem menos específico do que o pronome feminino. A escolha foi questionada à época por movimentos feministas e respondida por Le Guin em artigo: "Muitas mulheres queriam ir além, arriscar mais, explorar a androginia de um ponto de vista feminino também. [...] Acho que estavam certas em pedir mais coragem da minha parte".

E, para o texto não ficar gigante, encerramos falando sobre a colaboração, em vez da dominação, pouco comum na ficção científica estadunidense, que tende a retratar alienígenas como colonizadores, reflexo de sua sociedade ─ o Ekumen de Gently propõe troca, embora tivesse poder para conquistar Gethen.

Le Guin escreveu um ensaio maravilhoso que contesta a narrativa dominante centrada no "herói" e na "espada", chamado A Teoria da Bolsa de Ficção (1986), que li indicado pela Silvana Perez. Nele, a autora argumenta que a primeira ferramenta cultural essencial da humanidade foi uma bolsa (rede ou cesta) para carregar alimentos, não uma arma de caça ─ os veganos piram!

A maior parte da dieta humana na pré-história (entre 65% e 80%) vinha da coleta de vegetais, mas, como perseguir mamutes parece mais excitante, acabou virando a base da ficção tradicional: uma narrativa em forma de "flecha", que busca o conflito e o triunfo. Com a teoria da bolsa, Le Guin sugere manter elementos diversos em uma relação complexa, realista e inclusiva, voltada ao processo contínuo da vida, em vez de focar em um herói central ou clímax violento.

Já botei na lista outro livro de ensaios, o Sem Tempo a Perder: reflexões sobre o que realmente importa, em que ela detona o capitalismo. ❤️

*

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8.5.26

Cluboca do Livro: autor gateiro envolvido em polêmica

Confesso que perguntei aos participantes do clube se achavam que valia a pena bancar essa escolha e a resposta não deixou dúvidas. Quem me apresentou Neil Gaiman foi o mesmo namorado que me apresentou para o Mercv, duas décadas atrás, e Belas Maldições, agora mais conhecido como Good Omens, inaugurou meu encantamento literário pelo britânico de vozeirão.

Não tinha livro melhor, portanto, para puxar discussões acaloradas sobre obra x autor, destruição de reputação orquestrada, descredibilização da vítima, o maniqueísmo das religiões, a existência (ou não) de livre-arbítrio ─ ainda que outras publicações reflitam melhor a paixão de Gaiman pelos bichanos, como Coraline e Sandman: Um Sonho de Mil Gatos.

Vale dizer, ainda, que Good Omens é coescrito por Terry Pratchett, o autor de ficção mais vendido na Inglaterra dos anos 90. Ele conta a história de uma freira satanista distraída, que estraga um esquema de troca de bebês ao entregar o Anticristinho para o casal errado, dando início a uma série de erros cômicos que ameaçarão o Armagedom.


Na versão audiovisual, Michael Sheen e David Tennant estão maravilhosos como o anjo Aziraphale e o demônio Crowley ─ a terceira e última temporada da série estreia no dia 13 de maio, em episódio único de 90 minutos, justamente por causa das acusações de abuso sexual envolvendo Gaiman.

Já nosso encontro ocorrerá no domingo de 28 de junho, entre 16h e 19h, pelo WhatsApp. Para participar, basta apoiar o Gatoca com qualquer valor a partir de R$ 15, escolher uma bebida e comprar ou emprestar sua edição favorita ― usando os links abaixo, uma porcentagem vem para nós. Eu lerei pela BiblioSP Digital, para testar a iniciativa gratuita da Prefeitura de São Paulo. :)

- Good Omens: Belas Maldições em papel
- Good Omens: Belas Maldições em e-book
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20.3.26

Cluboca do Livro: gateira premiada na ficção científica

Se tem um gênero literário que não me conquista é o de robôs, alienígenas e futuros distópicos. Mas o Cluboca do Livro serve para nos tirar da zona de conforto e Ursula K. Le Guin não só ganhou os mais importantes prêmios da ficção científica e da fantasia (Nebula, Hugo, Locus) como também amava os bichanos ― escreveu Book of Cats, sem tradução no Brasil, e Gatos Alados, uma série para crianças.

A gente escolheu discutir, então, A Mão Esquerda da Escuridão, publicado há 50 anos e ainda atual por abordar temas como gênero, feminismo e alteridade. Enviado em uma missão intergaláctica, o humano Genly Ai precisa convencer os governantes do planeta Gethen a integrarem a comunidade universal. Só que se depara com uma cultura complexa, quase medieval e sem sexo fixo.


Nosso encontro ocorrerá no domingo de 12 de abril, entre 16h e 19h, pelo WhatsApp. Para participar, basta apoiar o Gatoca com qualquer valor a partir de R$ 15, escolher uma bebida e comprar sua edição favorita ― usando os links abaixo, uma porcentagem vem para nós. Eu decidi ler no Skeelo, como as fotos entregam, porque está incluso na assinatura da operadora de celular. :)

- A Mão Esquerda da Escuridão em papel
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:: Vou te Receitar um Gato, da japonesa Syou Ishida
:: O Mestre e Margarida, do russo Mikhail Bulgakov
:: Um Homem Chamado Ove, do sueco Fredrik Backman
:: Um Gato entre os Pombos, da inglesa Agatha Christie
:: Felinos e Macabros, coletânea de contos de autores como Edgar Allan Poe, H. P. Lovecraft e Bram Stoker
:: Diário dos Gatos Yon & Mu, do japonês Junji Ito

23.1.26

Diário dos Gatos Yon & Mu: encontro 'Cluboca do Livro'

A moda do anime no Brasil já me pegou velha (de alma). Mas há tempos queria dar uma chance a um mangá e a combinação inusitada de Junji Ito, o mestre do terror japonês, com história fofa felina parecia perfeita, empolgando a galera do Cluboca a ler comigo Diário dos Gatos Yon & Mu (sinopse aqui).

O começo rolou meio atabalhoado, porque fui direto para a última página e perdi as instruções de que a ordem dos quadros também respeitava o sentido inverso, ou seja, da direita para a esquerda. Aí, veio um revival de revistinha Coquetel, interrompendo a narrativa gráfica com perguntas do público para o autor. E cheguei ao fim sem entender por que a Akko não tem pupilas.

A experiência, no entanto, me permitiu revisitar saudosa 20 anos de Gatoca ― Jota relutante com a adoção de Yon, peludo dos pais da noiva, e Mu, um norueguês da floresta, depois tentando conquistá-los sem muito jeito, até terminar blindando os pés da cadeira do escritório com rolos de fita crepe para não atropelar rabos inconsequentes.


Eu também chorei no veterinário por um frajola de quem achava não gostar. Mercv queimou os bigodes na vela, contrariando o instinto de sobrevivência. Lily adorava morder. Pufosa desfilava com cocô de Natal no pelo. Pimenta espirrava nas paredes. Intrú voltou semimorto da castração. Toda gangue ostenta um ladrão de ração. Jujuba anda me fazendo ver monstros por privação de sono.

A exposição de animais de raça, de onde saiu Mu, me agradaria mais como abrigo de ONG. Dava para abordar os perigos do acesso à rua em tom menos didático. E a arte não é espetacular, mas gostei bastante da versão polvo da Akko brincando com a dupla e do Goro, o arisquinho dos pais dela, representado por hachuras ― as Gudinhas me submetiam a esse constrangimento social.

Junji Ito, que trabalhava como técnico de prótese dentária, tirou a inspiração para seus contos dos artrópodes (insetos e aranhas) do banheiro da família, localizado ao fim de um túnel. E a encomenda para escrever sobre gatos veio do editor, duas décadas depois, ao notar a mudança no desenho de seus bichanos, antes assustadores, entregando a recente adoção.


A edição estadunidense ainda traz o relato da morte de Yon por insuficiência cardíaca, em fevereiro de 2011, chamado Yon Went to Heaven (Yon Foi para o Céu), e uma carta da esposa de Ito comentando o luto ― conteúdo produzido para uma coletânea japonesa que visava a ajudar os abrigos felinos afetados pelo Grande Terremoto de Tohoku, em 2011.

No nosso encontro de discussão, realizado no último domingo, conversamos sobre as raízes do mangá, lá no século 8, com os primeiros rolos de pintura japonesa, que associavam textos para contar uma história à medida que se desenrolavam. Os vários gêneros literários, de ação-aventura a negócios e comércio. E a polêmica da pedofilia.

Só em 1999 e 2004 o Japão aprovou leis que criminalizam a prostituição infantil e criação e venda de material pornográfico envolvendo menores. Mas a posse desses materiais segue permitida, dividindo opiniões ― há quem milite pela extensão da punição e quem argumente que personagens fictícios não podem ser vítimas de violência e isso feriria a liberdade de expressão.


Como mulher, exausta com a objetificação e alarmada pelo aumento de feminicídios no país, não posso concordar com conteúdos que normalizem a violência, mesmo que coloridos, com olhos grandões.

Por aqui, aliás, também tem gente produzindo mangá (ganhando prêmio e fazendo sucesso no exterior), graças à globalização. Segundo o PublishNews, entre os 100 quadrinhos mais vendidos no Brasil, de julho de 2023 a julho de 2024, 71% são mangás. E eles representam 46,7% do total de títulos comercializados no período.

Algumas participantes do grupo sentiram dificuldade de se conectar com o formato, porque perdiam informações nos desenhos, que não costumam contemplar. A comunicação truncada do casal, as camas separadas e os animais com nomes de números, que a gente já havia visto em Vou te Receitar um Gato, também chamaram a atenção.


Fernanda curtiu com a filha. Paula recomenda para quem está descobrindo o universo felino. Viviane amou as fotos reais dos peludos. Eliane achou tudo tão esquisito que acabou ficando ótimo. Lorena disse que gosta do clube justamente por desafiá-la a ler coisas que não leria normalmente. E mesmo Cris, que não se divertiu com nada, admitiu que concluiu em uma sentada.

Ainda pretendo comprar Os Gatos do Louvre, de Taiyo Matsumoto, sobre os peludos que moram no sótão do museu parisiense, dando vida às galerias que abrigam obras de arte mundialmente famosas. E Spy × Family, de Tatsuya Endo, que tem um espião disfarçado de pai de família, casado com uma assassina disfarçada de mãe de família e uma filha adotiva que sabe a verdadeira identidade de ambos, pois lê mentes ― em algum momento, Yor vai salvar um gatinho!

*

Quer viver outras histórias, cair na risada junto, se emocionar e culpar o clima seco, basta apoiar o Gatoca com qualquer valor a partir de R$ 15, escolher uma bebida e comprar sua edição favorita da obra ― usando nossos links, uma porcentagem vem para o projeto. :)


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:: Vou te Receitar um Gato, da japonesa Syou Ishida
:: O Mestre e Margarida, do russo Mikhail Bulgakov
:: Um Homem Chamado Ove, do sueco Fredrik Backman
:: Um Gato entre os Pombos, da inglesa Agatha Christie
:: Felinos e Macabros, coletânea de contos de autores como Edgar Allan Poe, H. P. Lovecraft e Bram Stoker

9.1.26

2025

Eu podia estar na piscina, lendo na rede ou sendo devorada por formigas em um piquenique, mas estou aqui, lutando contra a epopeia de asfaltamento da prefeitura para escrever esta retrospectiva ― em vez de oferecer o sossego das cidades rurais, Araçoiaba da Serra surpreende com dengue + dez meses de obra, sem conseguir concluir sete quarteirões.

2025, porém, foi o primeiro ano em que nenhum integrante de Gatoca morreu e, para quem teve as expectativas dos últimos quatro réveillons destroçadas, considero que saí no lucro ― se chegar a 22 de maio, Jujuba fará 19 anos! Os 18 ela completou inteiraça. Até pediu o primeiro colo!

Só não sei quais crimes a privação de sono me levará a cometer ― a caminha de tubarão contornou bem a miação de madrugada, mas ainda acordo entre 3h e 5h para dar o sachê, na esperança de evitar os vômitos ornamentais da doença renal.


Este blog também comemorou a maioridade, com esquenta ― quantos projetos vocês conhecem que resistem desde 2007? E gente que não gostava de gatos e passou duas décadas cuidando de uma centena deles? ― em junho visitei o Snow, doado em 2010!

Agora, a versão para celular permite encontrar as informações de um jeito muito mais fácil, graças ao menu sanduíche programado pelo Beto e à busca parida na força do ódio por quem só cursou técnico em processamento de dados porque as outras opções eram mecânica e eletrônica.

As amigas dessa época seguem amigas, aliás, e vieram festejar meu aniversário, pós-faxina descarrego para encerrar a repetição de um 2020 da marmota ― só não funcionou com o celular da Samsung, que estufou com um quarto do tempo que durou o iPhone anterior (nunca mais!).

Leo e eu também quebramos o ciclo de mudar de casa a cada quatro anos ― e finalmente instalamos a rede e a porta do banheiro! O que não podia ter quebrado era a validação da autoridade do Gatoca pelo Google, que mostrava nossos posts nas primeiras páginas, rendendo texto com mais de meio milhão de visualizações.


Para ampliar, cliquem na imagem

Só que a Hostinger tirou o blog do ar por injustificáveis 27 dias, desindexando-o do buscador, deixando milhares de tutores e seus animais sem ajuda e nos fazendo perder apoiadores essenciais para a gincana dos boletos ― a sentença do Juizado Especial Cível saiu nove meses depois, com uma indenização irrisória.

Mas vou continuar gastando canetinha neste planeta árido e botando vocês no Gramado da Fama ― com os programas de afiliados, dá para apoiar o trabalho sem tocar na carteira! O Focus, que compete em idade com a Jujuba, agradece. Assim como Chicão, que me salvou de ficar sem embreagem na estrada. rs

Nossa comunidade é maravilhosa, com direito a amigo secreto de talentos ― nesta edição, transformei a gangue da Paula em livro para colorir. ❤️ E passamos mais um Natal com quem importa. Os laços ainda se estreitaram com o Cluboca do Livro, projeto de que morro de orgulho.

A gente leu e discutiu O Mestre e Margarida, fantasia satírica do russo Mikhail Bulgakov, Um Homem Chamado Ove, comédia dramática do sueco Fredrik Backman, Um Gato Entre Pombos, mistério de detetive da inglesa Agatha Christie, Felinos e Macabros, coletânea de contos de suspense de autores como Edgar Allan Poe, H. P. Lovecraft e Bram Stoker.

Já está agendado, inclusive, o encontro de Diário dos Gatos Yon & Mu, mangá fofo do mestre do terror Junji Ito. Nosso diferencial são, claro, os gatos ― como personagens, no título da obra, ilustrando a capa ou na biografia do autor. E procuro sempre equilibrar escritores homens e mulheres, sem repetir os países nem os gêneros literários.

Nesta retrospectiva, não poderiam faltar os clássicos posts de serviço, sobre os perigos do tapinha na bunda, agressividade por frustração, miados de madrugada, brinquedinhos automáticos, colher com balança para ração, potinhos e hipertireoidismo, enriquecimento alimentar e comedouros interativos, como cortar unha de antissociais, quantas palavras um bichano entende, como usar a IA para cuidar melhor do seu amigo.

E a continuação da série inspirada em O Encantador de Gatos, bíblia do Jackson Galaxy, com os capítulos sobre gatificação: mundo vertical e autoestradas, relógio solar e TV felina, necessidades especiais e mapa da gatice, ferramenta queridinha dos especialistas em comportamento para acabar com a destruição de móveis e disputas de território.

Como os algoritmos das redes sociais entregam conteúdo orgânico para cada vez menos gente, vocês garantem não perder nada assinando nosso boletim (gratuito), de casa nova no Substack. Por falar em casa nova, Intrú ainda não ganhou a ele.

Até descobrimos que tinha uma família bastarda, mas era inadequada como a nossa. Aí, ele ficou doente, seguiu brigando com os intrusos que o sucederam, fez mais inimizades pelo bairro, cavou um cantinho no estúdio do Leo, surtou preso com o temporal e veio para a lavanderia, completou dois anos me roubando sorrisos, sem sensibilizar ninguém.


Que 2026 seja onírico ― porque isso significará que consegui voltar a dormir e que a gata de dentro e o gato de fora estão bem.


Retrospectivas dos anos anteriores: 2024 | 2023 | 2022 | 2021 | 2020 | 2019 | 2018 | 2017 | 2016 | 2015 | 2014 | 2013 | 2012 | 2011 | 2010 | 2009 | 2008 | 2007

4.12.25

Cluboca do Livro: mestre do terror em mangá de gato

Fim de ano já é caótico, com Black Friday, Natal e a utopia das férias se atropelando, o que pedia uma leitura mais leve. Lembram quando a gente perguntava na escola se o livro tinha figura? Pois história em quadrinhos não só tem figuras como elas são a maior parte o babado! E eu nunca arrisquei um mangá ― famosa HQ japonesa que se folheia da direita para a esquerda.

Escolhi, então, para a sexta edição do nosso clube, uma obra fofa do mestre do terror Junji Ito. Sim, o autor de histórias perturbadoras com arte chocante sucumbiu ao encanto dos felinos. E, em Diário dos Gatos Yon & Mu, retrata a relação entre os bigodes e seus tutores, usando um horror exagerado para provocar momentos cômicos.

Tudo começa com o convite de J-kun para que A-ko vá morar com ele, sem esperar que a noiva levaria uma companhia assustadora, Yon, além de adotar depois o peludo Mu. Quarto lugar na lista dos mangás mais vendidos pós-publicação, assinada pelo jornal estadunidense The New York Times, Diário dos Gatos Yon & Mu mostra o poder de transformação dos bichanos.


Para aumentar a imersão, Jujuba tem o estilo do "monstro" da capa, só que mais trabalhada na make. rs

O encontro de discussão ocorrerá no domingo de 18 de janeiro, assim dá tempo de todo mundo se recompor, entre 16h e 19h, pelo WhatsApp. Para participar, basta apoiar o Gatoca com qualquer valor a partir de R$ 15, escolher uma bebida e comprar sua edição favorita ― usando os links abaixo, uma porcentagem vem para a gente. :)

- Diário dos Gatos Yon & Mu em papel
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:: Felinos e Macabros, de autores clássicos de suspense e terror

6.11.25

Felinos e Macabros: encontro do Cluboca do Livro

Terror não é meu gênero literário favorito ― só parei de me assustar com barulhos estranhos quando adotei o Mercvrivs. Mas Edgar Allan Poe, Bram Stoker e H. P. Lovecraft ainda influenciam o cinema e a literatura contemporâneos e não tinha momento mais propício para encarar esse medo do que no Halloween, né?


A editora Pandorga ainda lançou uma coletânea de contos deles, junto com Arthur Conan Doyle, James Bowker, Norman Hinsdale Pitman e E. F. Benson, falando justamente sobre gatos ― e uma onça-preta. O encontro de discussão sobre Felinos e Macabros rolou no domingo que antecedeu o Dia das Bruxas, por isso as superproduções.

Cristina Barreto aproveitou para indicar o livro Mulheres e a Caça às Bruxas, da filósofa italiana Silvia Federici. E usamos como fio condutor a habilidade dos homens de fazerem homice, sugestão da Lorena da Fonseca.


Para ampliar, cliquem na imagem

Em O Gato Preto, Edgar Allan Poe (1809 - 1849) nos tortura com um narrador que passa de amante dos animais a assassino da própria esposa, culpando a "intemperança demoníaca" ― quando o sucessor do Plutão resolve se esfregar nele, todo ronronento, a gente quer sair gritando: "Corre, boy lixo!".

O escritor estadunidense é mestre em criar esses personagens que vão se perdendo na própria loucura, com um toque de sobrenatural, deixando o leitor angustiado até a última linha. Sua obra deu origem à ficção policial e contribuiu também para o desenvolvimento da ficção científica.

O próprio Poe teve uma morte misteriosa: encontrado delirando nas ruas de Baltimore, em 7 de outubro de 1849, faleceu quatro dias depois, aos 40 anos, sem a lucidez necessária para explicar como havia chegado àquele estado. As teorias incluem tentativa de suicídio, cólera, raiva, sífilis e até captura por agentes eleitorais.

Sua primeira biografia o retratava como um depravado, bêbado e louco, mas era assinada pelo rival, crítico e antologista Rufus Wilmot Griswold.

Gostou de Poe? O Coração Denunciador (ou delator, dependendo da tradução), tem essa mesma pegada e acaba de ser homenageado no seriado Dexter: Ressurreição, que eu também recomendo. Já as meninas indicaram A Queda da Casa de Usher, que deu uma roupagem contemporânea a outro clássico do autor.


Os Gatos de Ulthar, de H. P. Lovecraft (1890- 1937), conta a história de um velho camponês e sua esposa, que assassinavam os bichanos que ousassem se aproximar do casebre macabro. Quando uma caravana de "viajantes de pele escura" chega à cidade para ler a sorte no mercado e o peludo de Mene desaparece, ele se põe a horar em uma língua desconhecida, fazendo a gente vibrar com os besouros no final.

Apesar do orientalismo, bem-apontado pela Aline Silpe, foi uma grata surpresa para quem conhecia o mestre do horror cósmico por Nas Montanhas da Loucura, uma chatice que leva dez páginas para descrever o raio da montanha e usa termos tão tecnicamente incompreensíveis para criaturas que podem se tratar de polvos ou batatas.

O escritor estadunidense também não conta muito com minha simpatia. Sim, ele influenciou o thriller contemporâneo, inspirando Stephen King e Alan Moore, mas era racista, antissemita e xenofóbico, até mesmo para os EUA sob as leis Jim Crow, de segregação racial.

Em cartas pessoais, declarava sua simpatia por Hitler, pregava a supremacia da "raça ariana", fazia apologia ao linchamento de pessoas negras (lamentando o fim da escravidão) e manifestava repulsa à miscigenação. A bizarrice? Ele foi sustentado pela mulher, a designer de sucesso Sonia Greene, que era judia!


Arthur Conan Doyle (1859- 1930) escreve, em seu O Gato Brasileiro, sobre um solteirão falido, que passa os dias atirando em pombos e aceita o convite de um primo rico para visitar a mansão na Inglaterra onde coleciona animais estrangeiros, principalmente trazidos do Brasil.

Entre cervos, queixadas, papa-figos, tatus e bestas, está a onça-preta que dá título ao conto e, infelizmente, degustará apenas um deles. Concordo com a Vanessa Araújo que podia ter terminado cinco linhas antes, aliás.

O autor escocês foi influenciado por Poe e, com seu Sherlock Holmes, personagem inspirado em um professor da faculdade de medicina, revolucionou a literatura de mistério e detetive. O título de Sir, porém, não é tão honroso assim, devendo-se ao panfleto que Doyle redigiu para justificar a guerra do Reino Unido contra os colonos de origem francesa e holandesa na África do Sul.

Cego de espiritismo, depois de perder a primeira esposa, um dos filhos e o irmão, ele também bateu cabeça contra a ciência, perdendo a amizade com Houdini por se recusar a acreditar que seus feitos não passavam de ilusões e teve o livro As Aventuras de Sherlock Holmes proibido na União Soviética, em 1929, por suposto ocultismo.

Mas a gente perdoa porque, morrendo de ataque cardíaco aos 71 anos, o escritor disse como últimas palavras à esposa que ela era maravilhosa. Sem contar que minha adolescência sem Um Estudo em Vermelho não teria a menor graça.


O Gato Espectral, de James Bowker (1877-1943), se passa em Whittle-le-Woods, região densamente arborizada e selvagem, onde a comunidade decide construir uma igreja, que insiste em aparecer na cidade vizinha, sob os protestos do padre Ambrose. O troféu "homice" vai para os dois vigias, que, como vocês podem concluir, não valem por meio.

Sobre o autor britânico não consegui encontrar nada no Google, exceto a informação de que esse conto integra uma coletânea de histórias folclóricas escritas em 1878, sob o título de Goblin Tales of Lancashire (Contos de Goblins de Lancashire).


Em O Tigre que Aquiesce, Norman Hinsdale Pitman (1858-1917) faz um lenhador ser devorado na floresta, levando a mãe idosa a cobrar reparação na justiça. Do tigre. E sobra para o assistente bêbado e sonolento, que não estava prestando atenção na audiência, a tarefa de levar o felino ao tribunal.

Também não tem muita coisa sobre o poeta canadense na internet, além do fato de que ele trabalhou como professor na China e contribuiu para disseminar o folclore chinês aos falantes de inglês, escrevendo coletâneas de fábulas e lendas.


A Índia, de Bram Stoker (1847-1912), estraçalha nosso coração com um casal em lua de mel que convida um estranho para acompanhá-los ao Castelo de Nuremberg, na Alemanha, onde fica a Torre da Tortura, e o infeliz decide jogar uma pedra no filhotinho de gato que brincava com sua mãe, sob a justificativa de aumentar a diversão.

O irlandês que revolucionou o gênero de vampiros com um vilão imortal, o Conde Drácula, nunca visitou a Europa Oriental, onde se passa o romance, casou com a paquera do Oscar Wilde e morreu após vários derrames. Dizem que se inspirou em Carmilla, romance lésbico de Sheridan LeFanu, lançado em 1872, que também tem gato.


E. F. Benson (1867-1940) assina os dois últimos contos, respiros da coletânea, porque parecem mais crônicas de gateiro do que histórias de suspense e mistério. Em A Gatinha, ele diz que "nenhum tipo de persuasão fará um gato desviar um milímetro sequer do curso que planeja seguir. Eles nos utilizam e, se os satisfizermos, até podem chegar ao ponto de nos adotar".


Já em E Assim Surgiu um Rei, a convivência com os bichanos é descrita como formas de governo: primeiro republicano, com gatos trabalhadores, que se sentavam em frente a buracos de ratos por horas a fio, passando então por dois meses de anarquia sombria, sem presidente ou qualquer governante, e culminando na monarquia de Cyrus, após uma revolução pacífica, já que o filhote persa, descoordenado e catarrento, chegara em uma cestinha de vime.

A biografia do autor inglês também contraria a linha editorial dos colegas: Benson era homossexual, o que explica a sensibilidade para narrar o universo felino. Em suas obras, ele costuma destacar as peculiaridades e os rituais da classe média-alta vitoriana, usando a sátira afiada e o humor sutil para desmascarar as excentricidades e contradições.

Seu último livro, entregue à editora dez dias antes de morrer de câncer na garganta, foi uma autobiografia intitulada Edição Final ― como não querer ser amiga desse figura?


Eliane Clal definiu bem a experiência: "Péssima, maravilhosa, péssima". Um desafio para quem gosta de animais, com autores incontornáveis (apesar de suas homices), que brincam com as nossas emoções como gatinhos e seus novelos. Sorte nossa que tem cada vez mais mulheres se destacando nesse gênero.

No sábado anterior, inclusive, eu participei do bate-papo organizado pelo Sesc Sorocaba com a Nicole Annunciato e a Cláudia Lemes, finalista do Jabuti, que em algum momento estreará no nosso clube.


Terror e suspense: do clássico ao moderno

Ao final do encontro, para manter o clima, a câmera do laptop morreu, minha imagem congelou roxa e a foto de um frajola misterioso entrou na chamada, rendendo à Regina Haagen o troféu involuntário de assombração de videoconferência.

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Quer viver outras histórias, cair na risada junto, se emocionar e culpar o clima seco, basta apoiar o Gatoca com qualquer valor a partir de R$ 15, escolher uma bebida e comprar sua edição favorita ― usando nossos links, uma porcentagem vem para o projeto. :)


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