O começo rolou meio atabalhoado, porque fui direto para a última página e perdi as instruções de que a ordem dos quadros também respeitava o sentido inverso, ou seja, da direita para a esquerda. Aí, veio um revival de revistinha Coquetel, interrompendo a narrativa gráfica com perguntas do público para o autor. E cheguei ao fim sem entender por que a Akko não tem pupilas.
A experiência, no entanto, me permitiu revisitar 20 anos de Gatoca ― Jota relutante com a adoção de Yon, peludo dos pais da noiva, e Mu, um norueguês da floresta, depois tentando conquistá-los sem muito jeito, até terminar blindando os pés da cadeira do escritório com rolos de fita crepe para não atropelar rabos inconsequentes.

Eu também chorei no veterinário por um frajola de quem achava não gostar. Mercv queimou os bigodes na vela, contrariando o instinto de sobrevivência. Lily adorava morder. Pufosa desfilava com cocô de Natal no pelo. Pimenta espirrava nas paredes. Intrú voltou semimorto da castração. Toda gangue ostenta um ladrão de ração. Jujuba anda me fazendo ver monstros por privação de sono.
A exposição de animais de raça, de onde saiu Mu, me agradaria mais como abrigo de ONG. Dava para abordar os perigos do acesso à rua em tom menos didático. E a arte não é espetacular, mas gostei bastante da versão polvo da Akko brincando com a dupla e do Goro, o arisquinho dos pais dela, representado por hachuras ― as Gudinhas me submetiam a esse constrangimento social.
Junji Ito, que trabalhava como técnico de prótese dentária, tirou a inspiração para seus contos dos artrópodes (insetos e aranhas) do banheiro da família, localizado ao fim de um túnel. E a encomenda para escrever sobre gatos veio do editor, duas décadas depois, ao notar a mudança no desenho de seus bichanos, antes assustadores, entregando a recente adoção.

A edição estadunidense traz o relato da morte de Yon por insuficiência cardíaca, em fevereiro de 2011, chamado Yon Went to Heaven (Yon Foi para o Céu), e uma carta da esposa de Ito comentando o luto ― conteúdo produzido para uma coletânea japonesa que visava a ajudar os abrigos felinos afetados pelo Grande Terremoto de Tohoku, em 2011.
No nosso encontro de discussão, realizado no último domingo, conversamos também sobre as raízes do mangá, lá no século 8, com os primeiros rolos de pintura japonesa, que associavam textos para contar uma história à medida que se desenrolavam. Os vários gêneros literários, de ação-aventura a negócios e comércio. E a polêmica da pedofilia.
Só em 1999 e 2004 o Japão aprovou leis que criminalizam a prostituição infantil e criação e venda de material pornográfico envolvendo menores. Mas a posse desses materiais segue permitida, dividindo opiniões ― há quem milite pela extensão da punição e quem argumente que personagens fictícios não podem ser vítimas de violência e isso feriria a liberdade de expressão.
Como mulher, exausta com a objetificação e alarmada pelo aumento de feminicídios no país, não posso concordar com conteúdos que normalizem a violência, mesmo que coloridos, com olhos grandões.
Por aqui, aliás, também tem gente produzindo mangá (ganhando prêmio e fazendo sucesso no exterior), graças à globalização. Segundo o PublishNews, entre os 100 quadrinhos mais vendidos no Brasil, de julho de 2023 a julho de 2024, 71% são mangás. E eles representam 46,7% do total de títulos comercializados no período.
Alguns participantes do grupo sentiram dificuldade de se conectar com o formato, porque perdiam informações dos desenhos, que não costumam contemplar. A comunicação truncada do casal, as camas separadas e os animais com nomes de números, que a gente já havia visto em Vou te Receitar um Gato, também chamaram a atenção.

Fernanda curtiu com a filha. Paula recomenda para quem está descobrindo o universo felino. Viviane amou as fotos reais dos peludos. Eliane achou tudo tão esquisito que acabou ficando ótimo. Lorena disse que gosta do clube justamente por desafiá-la a ler coisas que não leria normalmente. E mesmo Cris, que não gostou de nada, admitiu que concluiu em uma sentada.
Ainda pretendo comprar Os Gatos do Louvre, de Taiyo Matsumoto, sobre os peludos que moram no sótão do museu parisiense, dando vida às galerias que abrigam obras de arte mundialmente famosas. E Spy × Family, de Tatsuya Endo, que tem um espião disfarçado de pai de família, casado com uma assassina disfarçada de mãe de família e uma filha adotiva que sabe a verdadeira identidade de ambos porque lê mentes ― em algum momento, Yor vai salvar um gatinho!
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Quer viver outras histórias, cair na risada junto, se emocionar e culpar o clima seco, basta apoiar o Gatoca com qualquer valor a partir de R$ 15, escolher uma bebida e comprar sua edição favorita ― usando nossos links, uma porcentagem vem para o projeto. :)
Discussões anteriores
:: Vou te Receitar um Gato, da japonesa Syou Ishida
:: O Mestre e Margarida, do russo Mikhail Bulgakov
:: Um Homem Chamado Ove, do sueco Fredrik Backman
:: Um Gato entre os Pombos, da inglesa Agatha Christie
:: Felinos e Macabros, coletânea de contos de autores como Edgar Allan Poe, H. P. Lovecraft e Bram Stoker
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