Parênteses para dizer que a BibliOn, do governo do Estado, acaba de migrar para lá, tornando o processo uma tortura também ─ o livro demora para carregar (isso quando não dá erro), perde o ponto de leitura offline, não oferece opção de retorno nas notas de rodapé, o botão de destaque precisa de múltiplos apertos até se conseguir o ângulo certo, o marcador de página nunca leva à página efetivamente marcada e a busca não funciona.
Sim, eu expliquei tudo isso a eles e recebi uma resposta automática, motivo pelo qual reitero aqui. E aproveito para agradecer ao Leo, que me indenizou com a edição especial que vocês veem ao lado do Intrú ─ a caneca foi presente da Eli, junto com o melhor croissant vegano que comi na vida. ❤️

De volta à fantasia satírica, o encontro de discussão deveria ter ocorrido no fim de junho, só que veio a Copa e, na sequência, as férias escolares. Aí, quando finalmente nos reunimos, o laptop travou, o frajola se enfiou embaixo do banco do gatil e a internet me deixou cubista ─ dois celulares e um computador, localizados em diferentes cidades, não foram capazes de salvar a foto do post.
Na terceira tentativa, Leo até bancou o titereiro. E, além de meia Paula e 1/3 de Neide, faltou a Bárbara. Vai brincar com Deus, vai!
Good Omens: Belas Maldições não traz felinos entre os personagens principais, mas já valeria por este parágrafo:
E havia os gatos, pensou Cão. Ele surpreendera o enorme gato ruivo da casa ao lado e tentado reduzi-lo a uma geleia encolhida através do costumeiro olhar incandescente e do rosnado grave, que sempre funcionaram com os danados no passado. Dessa vez, eles lhe renderam uma patada no focinho, que fez seus olhos se encherem de água. Gatos, considerou Cão, eram obviamente muito mais durões do que almas perdidas. Ele não via a hora de ter uma nova experiência com gatos, que, conforme planejara, consistiria em saltitar ao redor deles e latir animadamente. Era um tiro no escuro, mas poderia dar certo.
Se alguém, mesmo assim, questionar a escolha da obra, apelo à biografia dos autores. Gaiman escreveu Coraline, em que um pretolino serve de guia à protagonista, transitando entre mundos, e Um Sonho de Mil Gatos, fábula do universo de Sandman que narra a jornada de uma siamesa em busca de respostas para a submissão dos animais. Em seu blog, o britânico conta ainda que improvisou um cemitério de bichanos perto do gazebo.
(Sobre o cancelamento, me limitarei a replicar que os processos contra ele nos Estados Unidos foram encerrados porque os supostos episódios de assédio sexual aconteceram na Nova Zelândia e a jornalista que liderou a investigação tem ligação com o Partido Conservador do Reino Unido, enquanto Gaiman defende abertamente pautas progressistas ─ infos detalhadas aqui.)
Já Pratchett publicou The Unadulterated Cat, sem tradução para o português, celebrando o "gato de verdade", aquele que caça, se suja e ignora regras (oi, Intrú!), e a série Discworld, com felinos marcantes, como o ardiloso Maurício, o galã Greebo e Senhor Tiddles, que não lida bem com mudanças. O jornal O Globo destaca que ele morreu em casa, dividindo a cama com o bichano e cercado pela família.

Bora falar da história, então? Céu e Inferno concordam que a Terra estava precisada de um Armagedom e bolam um plano de Chapolim envolvendo a troca de bebês em um convento de freiras satanistas para dar ao anticristo um lar que potencializasse sua malignidade ─ no caso, a família de um diplomata estadunidense (parece atual, mas é de 1990!).
Acontece que tanto Aziraphale, anjo e dono de uma livraria de obras raras em Londres, quanto Crowley, demônio estiloso que dirige um Bentley e adora Queen, se acostumaram com os prazeres humanos, vagando por aqui desde a época do Jardim do Éden, e decidem formar uma aliança secreta para sabotar o fim do mundo.
Aprendi com a demonóloga Tupá Guerra, aliás, que Apocalipse significa "revelação", sendo apenas o Apocalipse escatológico enquadrado nessa narrativa catastrófica. Já Armagedom o Google diz que vem do hebraico Har Megiddo, ou "Monte de Megido", um local real em Israel onde rolaram muitas guerras.
Enfim, a dupla pretendia influenciar o anticristinho de forma equilibrada, neutralizando seu poder destrutivo, só que passa 11 anos acompanhando a criança errada, embora ela se chame Warlock. E quem revela é o cachorro, enviado das trevas para a casa de Adam ─ sim, aquele Cão citado acima e que rende vários outros momentos divertidos. Existe, ainda, o núcleo das bruxas e caçadores de bruxas, composto por Anathema Device, descendente de Agnes Nutter, que escreveu o único livro de profecias 100% preciso (e por isso não vendeu um único exemplar), o sargento Shadwell, obcecado por mamilos, e seu aprendiz Newton Pulsifer, que quebra todos os dispositivos tecnológicos que toca.
E o núcleo dos Motoqueiros do Apocalipse, formado por Guerra, uma contrabandista de armas que vira jornalista e ninguém entende como sempre sabe onde os conflitos começarão; Fome, autor de best-sellers de dieta e redes de fast food; Poluição, substituto de Peste, aposentada quando inventaram a penicilina, e presente em todo o lugar, e Morte, que dispensa apresentação.
O livro junta o humor inteligente e non sense de Pratchett com a mitologia sombria e poética de Gaiman, repleto de críticas à religião, à visão maniqueísta de bem e mal, ao sexismo, à nossa relação com a natureza e à indústria de ultraprocessados. Seguem alguns dos meus trechos favoritos ─ grifei 125!
Deus age de formas extremamente misteriosas, para não dizer tortuosas. Ele não joga dados com o universo; joga um jogo inefável de Sua própria autoria, que poderia ser comparado, da perspectiva de qualquer um dos outros jogadores, a se estar engajado numa versão obscura e complexa de pôquer, numa sala totalmente escura, com cartas em branco, apostas infinitas e um crupiê que não lhe diz quais são as regras e que sorri o tempo todo.
Igrejas? Que bem elas já fizeram? São tão ruins quanto. O mesmo ramo de negócios, quase. Num dá pra confiar nelas pra afastar o Maligno, porque, se fizessem isso, estariam fora desse ramo.
Pode ser que ajude na compreensão das questões humanas ter uma noção clara de que a maioria dos grandes triunfos e tragédias da história é provocada não por pessoas sendo fundamentalmente boas ou más, mas por pessoas sendo fundamentalmente pessoas.
─ Você está dizendo que a criança não é má por natureza? ─ perguntou Aziraphale, devagar.
─ Potencialmente má. Potencialmente boa também, acho. Apenas essa grande e poderosa potencialidade, esperando para ser moldada.
De qualquer forma, se vocês parassem de falar para as pessoas que tudo vai se ajeitar depois que elas morrerem, elas poderiam tentar dar um jeito em tudo enquanto estivessem vivas.
─ Você ficaria surpreso com o tipo de coisas que eles podem fazer com você lá embaixo ─ falou Crowley.
─ Imagino que sejam muito semelhantes ao tipo de coisas que podem fazer com você lá em cima ─ disse Aziraphale.
A maioria dos demônios não era tão má assim. No grande jogo cósmico eles sentiam que ocupavam a mesma posição de fiscais de renda: faziam um trabalho talvez impopular, mas essencial para o esquema geral das coisas. Da mesma forma, alguns anjos também não eram modelos de virtude; Crowley havia conhecido um ou dois que, na hora de punir os infiéis, castigavam com mais vigor do que o estritamente necessário.
Aziraphale disse nome de cinco líderes políticos. Crowley deu o nome de seis. Três apareciam em ambas as listas.
Minha mãe disse que bruxas eram apenas mulheres inteligentes protestando da única maneira disponível para elas contra as injustiças asfixiantes de uma hierarquia social dominada pelos homens ─ disse Pepper
Que mundo engraçado, pensou o entregador. Eis aqui o Uck, que costumava ser o rio mais bonito desta parte do mundo e agora é só um esgoto industrial glorificado. Os cisnes vão até o fundo, e os peixes boiam na superfície. Bem, isso é que é o progresso. Não se pode impedir o progresso.
Você sabe que pode ser processado por ser uma espécie dominante sob influência de um consumismo impulsivo, não sabe?
A Newtrition Corporation havia começado onze anos antes. Uma pequena equipe de cientistas alimentares, uma equipe enorme de funcionários de marketing e relações públicas. (...) RANGO® continha moléculas proteicas cuidadosamente projetadas para serem ignoradas até pelas enzimas mais famintas do trato digestivo. (...) O preço era um pouco mais alto e o conteúdo nutricional, equivalente ao de um walkman da Sony. (...) LANCHES® era junk food feita de lixo de verdade. (...) REFEIÇÕES® era RANGO® com açúcar e gordura. (...) Ele nem se preocupou em examinar seu milkshake. Não tinha nenhum conteúdo alimentar real, mas, também, nada do que era vendido por seus rivais tinha.
Pensem em todos os brinquedos que posso oferecer a vocês... pensem em todos os jogos. Posso fazer vocês se apaixonarem por mim, menininhos. Menininhos com suas pistolinhas.
O cérebro humano não está equipado para ver Guerra, Fome, Poluição e Morte quando elas não querem ser vistas, e ele ficou tão bom em não ver que muitas vezes consegue não vê-las mesmo quando abundam por toda parte.
No encontro do último domingo, debatemos se Rousseau, Hegel e Nietzsche estavam certos. O ser humano nasce bom e a sociedade o corrompe? Todo homem é fruto de seu tempo? Bem e mal absolutos não passam de uma ilusão que nega a complexidade da vida? Existem céu e inferno? Quem nos julgará no final? Vale lutar por um planeta melhor?
Neide pontuou que a narrativa de fim do mundo sempre povoou o imaginário da humanidade. E espera atuar como sua própria juíza no acerto de contas, confrontando em retrospecto expectativa e realidade. Cristina também credita ao nosso cérebro todas as coisas incríveis e terríveis que criamos. O crescimento vai nos moldando, completou Danielle.
Eliane lembrou de A Igreja do Diabo, conto do Machado de Assis publicado em 1884 e que filmamos com "defeitos" especiais impagáveis no colegial técnico ─ para abolir as virtudes tradicionais e oficializar vícios como orgulho e egoísmo, o Diabo decide fundar sua própria religião, mas os seguidores continuam praticando o bem em segredo, revelando nossa natureza contraditória.
Aline retomou a Tupá, que explica que inferno e demônio atuais não vêm da Bíblia, mas dos bestiários, da Divina Comédia, escrita por Dante Alighieri, e de Paraíso Perdido, do inglês John Milton ─ a Bíblia coleciona outros tipos de monstros. No Livro de Jó, por exemplo, Satã é um adversário, uma espécie de promotor que integra a corte divina. Enquanto em Isaías a palavra hebraica para Lúcifer significa "estrela d'alva" ou "estrela da manhã".
Tupá tem outro vídeo muito bom que bota Hollywood na parada, mostrando como os filmes de terror dos anos 80, tipo O Exorcista e Poltergeist, encontraram terreno fértil em um contexto de insegurança social, alimentando o pânico satânico ao exibir famílias atacadas em casa por demônios e fantasmas ─ nenhuma serpente faria melhor.
Marina trouxe a visão dos cínicos: Adam equivale ao Adão jovem, ainda não corrompido, e guarda bem e mal em sua essência. Céu e inferno seriam, portanto, indissociáveis ─ e subjetivos (alguém de fora pode julgar uma ação bem-intencionada nossa como negativa). Já Crowley e Lúcifer querem permanecer na Terra, apesar da alternância irrefreável entre momentos bons e ruins.
O segredo estaria em adotar um olhar mais egoísta, focando no próprio prazer, em vez de abraçar ideais coletivos de transformação. Os cínicos se frustram menos, pois não se desgastam com situações que não podem mudar ─ Um Cântico para Leibowitz, clássico da ficção científica pós-apocalíptica, assinado pelo estadunidense Walter M. Miller Jr., ilustra bem como a civilização colapsa, ressurge e torna a repetir os mesmos erros.
Chocada por ter usado a palavra errado a existência inteira, voltei ao Google. Esse sentido moderno de cinismo, marcado pela descrença nas motivações alheias, diverge bastante do clássico, que pregava a rejeição a regras sociais artificiais e dogmas impostos pelo poder ─ kynikos, em grego, quer dizer "como um cão", apelido dado aos filósofos que viviam sem luxo, em harmonia com a natureza.
Nenhuma de nós acredita, porém, que não se deve fazer sua parte, mesmo que impacto das escolhas individuais seja mínimo, como lamentou Vanessa. Gandhi desconhecia os desdobramentos da Marcha do Sal, exemplificou Marina, assim como devem ter existido vários Gandhis de que nunca ficaremos sabendo. As microatitudes também ensinam respeito com outras espécies, acrescentou Viviane. E a extrema direita está aí para mostrar como mobilizar indivíduos em massas, provocou Bárbara.
Lembrei do trabalho da Lala Deheinzelin com o Crie Futuros, um movimento baseado na ideia do escritor austríaco Peter Drucker para inspirar futuros desejáveis. Se eles nascem do que sonhamos e desejamos, precisamos nutrir visões mais positivas ─ na literatura, nos filmes, nas artes plásticas.
Aproveito para encerrar com a recomendação da série do Prime Video, que extrapola o livro em duas temporadas, roteirizadas também por Gaiman (e seu humor ácido), nos presenteando com as atuações maravilhosas de Michael Sheen como Aziraphale e David Tennant como Crowley, além de um final de sorrir chorando.
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Discussões anteriores
:: Vou te Receitar um Gato, da japonesa Syou Ishida
:: O Mestre e Margarida, do russo Mikhail Bulgakov
:: Um Homem Chamado Ove, do sueco Fredrik Backman
:: Um Gato entre os Pombos, da inglesa Agatha Christie
:: Felinos e Macabros, coletânea de contos de autores como Edgar Allan Poe, H. P. Lovecraft e Bram Stoker
:: Diário dos Gatos Yon & Mu, do japonês Junji Ito
:: A Mão Esquerda da Escuridão, da estadunidense Ursula K. Le Guin

