Gatoca

Educação, sensibilização e mobilização pelos animais

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4.6.26

O fim de uma Era

Quando adotei o Mercvrivs, convencida pelo Eduardo, eu dormia em uma cama de solteiro, no casarão de São Bernardo abandonado precocemente por meus pais, tentando ser porto-seguro para os irmãos mais novos, pagar os boletos sem desistir do jornalismo e acertar o arroz (com receita).

Me faltava tempo, dinheiro e paciência para um animal de estimação. Mas era o Mercv. E, mesmo tendo ameaçado devolvê-lo, chorei no veterinário com a possibilidade de perder o filhote que saía carimbando cocô pela sala. Começava ali a mudança que daria a cor das próximas duas décadas e meia.

O gato virou gangue, que virou blog, que virou trabalho. Edu virou amigo e Leo virou amor — contrariando o desfecho esperado para a louca dos gatos. Os irmãos viraram adultos, o casarão virou apertamento, São Bernardo virou a Sorocaba e Sorocaba virou Araçoiaba.


Eu, que só passeava no concreto, vim morar no meio do nada para os bigodes terem jardim de novo. E levei à sério a recomendação de casar com alguém que ajudasse a esconder um corpo. Leo escondeu nove — tarde da noite, com chuva, espetando no barro o tripé de luz da fotografia.


No nosso Cat Sematary, ainda falta o Simba, mas decidi esperar aos rabos-de-gato crescerem para libertar as cinzas — foi sua morte inesperada, em 2016, que me tornou especialista em doença renal (e a maior divulgadora das seringadas de água).


Acordar com a casa mais quieta do que o cemitério, onde os passarinhos disputam para desenterrar nossas sementes, me roubou uma madrugada extra, das tantas que dediquei à Jujuba — ansiedade pela solidão, pelos projetos se debatendo na gaveta há tanto tempo, por não poder mais atropelar o luto com a rotina (alarmes para voltar da rua, seriados de 20 minutos pausados na metade, a última a tomar café da manhã, a última a chegar na cama).

Edu me convenceu daquela primeira adoção dizendo que nem perceberia a existência do Mercv ─ um filhote que não brincava, não miava, mal saída da caixinha. E cá estou relendo o mesmo livro, Belas Maldições, só que para o Cluboca, um dos muitos desdobramentos da decisão mais irracional e afortunada que tomei na vida. O primeiro agradecimento dos créditos, portanto, não poderia ser para outra pessoa.


Sem o Leo, acolhedor nos piores momentos de angústia (mudanças, soros e despedidas), eu provavelmente teria me fundido à mobília do casarão. Maru e Edu (não o ex, o veterinário) garantiram a longevidade invejável dos bigodes. João cuidou da parte técnica do blog, Mari virou porto seguro. E a AGD, irmandade de 30 anos, me deu o descanso mais sensacional com que uma pessoa que nem bate e volta para a praia consegue mais fazer podia sonhar (soon!).

Depois de duas décadas de dedicação aos gatos, entreguei minha carta de aposentadoria. Mas Chicão tinha outros planos. Aguardem a segunda temporada de Gatoca!

8 comentários:

Vanessa Araújo disse...

Passou um filme na minha cabeça agora. Comecei a acompanhar o blog na época dos ex-queletinhos da dona Lourdes e ca estamos quase 20 anos depois.... que privilégio acompanhar a vida da gangue, aprender tanto com vocês todos e dividir as alegrias e dores de gateira,Bia. Obrigada por tudo, a você e aos dez anjos que a vida te mandou.

Anônimo disse...

Ah Bia, acompanhei vocês por uns bons anos, acho que uns 16 talvez, ri e chorei com mts textos. Espero que o fim dessa etapa seja o início de uma nova maravilhosa, beijos e abraço!

Anônimo disse...

Vem segunda temporada! Com muito amor, alegria e cor!

Anônimo disse...

Kkk, corrigindo, são 18 anos acompanhando vocês, me sinto quase sa família

Neide Rodrigues disse...

Bia, comecei a acompanhar a poucos anos, já na reta final da turma. Que linda história que vcs viveram!

Renata disse...

Não parece que tanto tempo se passou! Já a sequência de despedidas de cada membro felino dessa comunidade linda parece que foi rápida demais!
Que Intrusinho possa ser um membro de carteirinha, com acesso a todas as dependências desse amoroso Gatoca!

Aline Silpe disse...

Cluboca entrou de férias, pelo menos até a Biatoca curtir as próprias (e merecidas) férias! 🥰

Anônimo disse...

Estive por perto somente no fim desta era, mas vocês mudaram parte da minha vida para sempre. Obrigada!