E na segunda roubou o último carinho no lavabo, enquanto eu fazia xixi grogue de sono, na quarta não quis mais lamber o sachê da madrugada na colher, na sexta arriscou os últimos passos. A experiência de ter apenas um gato é muito louca! Todos os cocôs e vômitos só podiam ser seus e davam inveja, para uma renal de 19 anos. Você morreu com as mucosas coradas.
Acho que posso dizer de velhice porque, afinal de contas, de velhice mesmo ninguém morre ─ algum órgão precisa parar de funcionar. Gosto da ideia da vela se apagando, privilégio com que Keka também contou, mas, no seu caso, parece que alguém esqueceu uma fresta de janela aberta e sobrou um finalzinho de pavio sem queimar.

De manhã, você até arrumou forças para pular no sofá, ignorando a escadinha improvisada. E ficou pendurada pelas garras no cobertor, porque as patas traseiras já estavam escorregando para os lados, como nas dancinhas do Axl Rose. Passava, então, uma eternidade imóvel e do nada se punha a desequilibrar pela casa, como a criatura do Frankenstein ─ só faltavam os raios.
Escrevo chorando, mas sei que ainda vou rir desses momentos. Como rio de ter te batizado de Vaquinho e mudado para Jujuba ao descobrir que era menina. Ou quando lembro do seu jeito maluco de usar o primeiro bebedouro elétrico ─ revisitado nesse finalzinho, com empoleiramento, cabelo molhado e competição de remo. Dizem que idosos voltam a ser crianças, né?

A gata que rasgou meu braço para fugir da caixa de transporte, inventou o carinho Playcenter, demorou 13 anos para ronronar e só aceitou colo aos 18, partiu deitada no meu peito, após 18 meses de tentativas de substituir o calor da gangue com caminha de tubarão e tapete térmico ─ os encardidos vivem mais para compensar os cafunés que deixaram de ganhar, Guebis estava certa.
Chicão, em descrédito com Leo, até providenciou sol. Acontece que você não morreu sozinha ─ levou contigo duas décadas e deixou dez lutos. Eu continuo acordando no nosso horário, passo pelo lavabo vazio, não dou sachê para ninguém no sofá. Pela primeira vez, nos últimos seis anos, não posso pausar a tristeza com os cuidados da próxima despedida.
E não sei o que fazer com o tubarãozinho.

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