Gatoca

Educação, sensibilização e mobilização pelos animais

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18.9.26

O gato (sumido) de Monet e o jardim de Giverny (#3)

Pensem em um lugar encantado, saído das páginas de um livro (ou de um quadro), com flores coloridas, uma ponte bucólica sobre o lago e passarinhos como única trilha sonora. Pois Claude Monet fez o caminho inverso: primeiro construiu o jardim de Giverny, em 1883, para depois pintá-lo ─ eternizando-o, inclusive, nas badaladas paredes do Musée de l'Orangerie, capítulo anterior desta série.


O espaço era promissor: 10 mil m² de pomar, com uma horta e o caminho que levava até a casa margeado por ciprestes e abetos. Monet trabalhou incansavelmente, então, para torná-lo perfeito. Batizado de Clos Normand ("Terreno Normando"), por ficar na região francesa da Normandia, o jardim ganhou arcos de metal com rosas perfumadas e capuchinhas, e as macieiras foram substituídas por cerejeiras e árvores de damasco do Japão.


O chão passou a ostentar milhares de narcisos, tulipas, íris, papoulas orientais, peônias. No lado esquerdo, o artista plantou canteiros de cores únicas, como nas paletas de pintura, aplicando seu conhecimento pictórico para criar efeitos de perspectiva, mostrar a residência e intensificar as áreas sombreadas. Em 1893, comprou um terreno do outro lado da rua para a parte aquática, desviando o curso do córrego Ru, um braço do rio Epte.


Sobre lago particular, atravessou uma ponte verde de estilo japonês, cercou o local de espécies orientais, como bambus, bordos e salgueiros-chorões, e completou com as famosas ninfeias (nenúfares ou lírios-da-água), parentes da vitória-régia amazônica: "Eu gosto de água, mas também gosto de flores. É por isso que, a bacia cheia, pensei em adorná-la com plantas. Peguei um catálogo e fiz uma escolha para a pequena felicidade, só isso".


Pequena felicidade para um homem, saltitos para a humanidade, que pode contemplar em museus pelo mundo o jogo de luz com reflexo celeste que tanto fascinava Monet. Parêntese para contar que quando ele morreu, 43 anos depois, Clos Normand ficou abandonado, até ser restaurado pelo curador do Palácio de Versalhes e aberto ao público em 1980 ─ quando nasceu esta jornalista, que também amava passear com o pai em um jardim japonês, embora bem menos exuberante.


"E o gato?", vocês devem estar se perguntando. Ficava na casa, igualmente pintada com as cores da paleta do artista ─ verde para as portas e persianas, amarelo para sala de jantar, azul para a cozinha. Não se tratava, contudo, de um ser ronronante, mas de uma escultura de biscuit (ou porcelana fria), produzida no Japão (notaram a obsessão, né? rs), em meados do século 19.


Para ampliar, cliquem nas imagens

Michel Monet herdou-a do pai, faleceu num acidente de carro, em 1966, e o bichano passou 45 anos desaparecido! O mistério só foi solucionado em 2011, quando Adrien Meyer, especialista em arte impressionista, avaliava os bens de Rolande Verneiges, filha ilegítima (e secreta) de Michel ─ seu apartamento escondia um verdadeiro tesouro de obras originais e o gatinho deitado despretensiosamente no piano.

Hideyuki Wada o arrematou em um leilão por $ 67 mil e doou à Fundação Claude Monet, para que o pequeno voltasse a descansar em sua almofada favorita ─ com plaquinha de agradecimento.


Há uma réplica da peça também no quarto de Blanche Hoschedé-Monet, enteada e única aluna do pintor.


Guardei por seis meses a calça bafônica que ganhei das meninas, só para estrear nessa ocasião.


Tati comprou as passagens erradas de trem, chegamos superatrasadas à Giverny e não deu para esticar até Rouen, onde queimaram Joana D’Arc. Usando as passagens "certas", porém, não veríamos o jardim com sol. Tenho pensado muito sobre isso ─ e, para provar que não sou iluminada, contrabandeei sementes do Monet para Gatoca.



Veja também:

:: Gatos históricos de Paris ─ e a viagem à França (#1)
:: Gatos dos museus d'Orsay e l'Orangerie (#2)
:: Os gatos famosos do museu do Louvre (estreia em outubro)

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