Me faltava tempo, dinheiro e paciência para um animal de estimação. Mas era o Mercv. E, mesmo tendo ameaçado devolvê-lo, chorei no veterinário com a possibilidade de perder o filhote que saía carimbando cocô pela sala. Começava ali a mudança que daria a cor das próximas duas décadas e meia.
O gato virou gangue, que virou blog, que virou trabalho. Edu virou amigo e Leo virou amor — contrariando o desfecho esperado para a louca dos gatos. Os irmãos viraram adultos, o casarão virou apertamento, São Bernardo virou a Sorocaba e Sorocaba virou Araçoiaba.

Eu, que só passeava no concreto, vim morar no meio do nada para os bigodes terem jardim de novo. E levei à sério a recomendação de casar com alguém que ajudasse a esconder um corpo. Leo escondeu nove — tarde da noite, com chuva, espetando no barro o tripé de luz da fotografia.

No nosso Cat Sematary, ainda falta o Simba, mas decidi esperar aos rabos-de-gato crescerem para libertar as cinzas — foi sua morte inesperada, em 2016, que me tornou especialista em doença renal (e a maior divulgadora das seringadas de água).

Acordar com a casa mais quieta do que o cemitério, onde os passarinhos disputam para desenterrar nossas sementes, me roubou uma madrugada extra, das tantas que dediquei à Jujuba — ansiedade pela solidão, pelos projetos se debatendo na gaveta há tanto tempo, por não poder mais atropelar o luto com a rotina (alarmes para voltar da rua, seriados de 20 minutos pausados na metade, a última a tomar café da manhã, a última a chegar na cama).
Edu me convenceu daquela primeira adoção dizendo que nem perceberia a existência do Mercv ─ um filhote que não brincava, não miava, mal saída da caixinha. E cá estou relendo o mesmo livro, Belas Maldições, só que para o Cluboca, um dos muitos desdobramentos da decisão mais irracional e afortunada que tomei na vida. O primeiro agradecimento dos créditos, portanto, não poderia ser para outra pessoa.

Sem o Leo, acolhedor nos piores momentos de angústia (mudanças, soros e despedidas), eu provavelmente teria me fundido à mobília do casarão. Maru e Edu (não o ex, o veterinário) garantiram a longevidade invejável dos bigodes. João cuidou da parte técnica do blog, Mari virou porto seguro. E a AGD, irmandade de 30 anos, me deu o descanso mais sensacional com que uma pessoa que nem bate e volta para a praia consegue mais fazer podia sonhar (soon!).
Depois de duas décadas de dedicação aos gatos, entreguei minha carta de aposentadoria. Mas Chicão tinha outros planos. Aguardem a segunda temporada de Gatoca!