Gatoca

Educação, sensibilização e mobilização pelos animais

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29.6.26

19º quase-aniversário do Gatoca e bastidores

Se não tivesse anotado na agenda, este 29 de junho passaria batido. É a data em que criei o blog, mas acabamos adotando duas comemorações anuais porque, para publicar o primeiro post, se foram mais seis semanas. Nos últimos tempos, porém, os festejos deram lugar à melancolia ─ demorei a perceber e não sei até quando posso culpar a morte em sequência da gangue.

Em vez da aposentadoria com drink de guarda-chuvinha, aliás, Chicão mandou um gato genioso com FeLV, que continua me roubando noites de sono ─ vou contar na sexta, porque a segunda temporada de Gatoca já está rendendo episódios impagáveis.


Por hora, compartilho os marcos importantes da nossa jornada: 1.939 textos, e-book, mutirão de castração, oficina com crianças, roda de conversa com adolescentes, canal no YouTube, websérie felina, loja colaborativa, boletim, Gatonó, edital do Condeca com a prefeitura de Sorocaba, clube do livro — links todos aqui.

E acrescento duas novidades: agora temos vitrine na Amazon com as obras discutidas no Cluboca e os produtos aprovados pelos bigodes, e Intrú recebe no Gramado da Fama a Danielle Miranda, tutora do trio de desenho animado Banguela, Maui e Moana.


Ela se junta ao grupo de apoiadores mais maravilhosos da internet ♥️ ─ obrigada, Adrina Barth, Alice Gap, Itacira Ociama, Regina Haagen, Renata Godoy, Leonardo Eichinger, Irene Icimoto, Tati Pagamisse, Roberta Herrera, Vanessa Araújo, Dani Cavalcanti, Samanta Ebling, Bárbara Santos, Marina Kater, Sonia Oliveira, Marcelo Verdegay, Fernanda Leite Barreto, Bárbara Toledo...

...Solimar Grande, Aline Silpe, Lucia Mesquita, Michele Strohschein, Marilene Eichinger, Sérgio Amorim, Gatinhos da Família F., Luca Rischbieter, Rosana Rios, Regina Hein, Paula Melo, Paulo André Munhoz, Marianna Ulbrik, Cristina Rebouças, Lorena da Fonseca, Karine Eslabão, Michely Nishimura, Danilo, Klay Kopavnick, Glaucia Almeida, Ana Hilda Costa, Elisângela Dias...

...Ivoneide Rodrigues, Vanessa Almeida, Vivian Vano, Maria Beatriz Ribeiro, Elaigne Rodrigues, Simone Castro, Viviane Silva, Arina Alba, July Grafe, Erika Urakawa, Vera e Gabriela Fromme, Lucia Trindade, Aline Silva, Sara Gonçalves, Soraia Mancilha, Celina Matsuda, Paula Martinez, Eliane Clal, Beto "Pena" Spinelli e Ines Rudzit!

Espero voltar em 10 de agosto com fogos de artifício biribinhas. 😊


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26.6.26

A Mão Esquerda da Escuridão, pelo Cluboca do Livro

Eu sabia que seria desafiador ler uma obra de ficção especulativa, gênero literário pelo qual não morro de amores, em ritmo mais lento do que nosso cérebro ultraprocessado está acostumado e com o sono atrasado por causa do processo de partida da Jujuba. Mas a estadunidense Ursula K. Le Guin vale o esforço e A Mão Esquerda da Escuridão propõe discussões sobre gênero, feminismo e alteridade que, 57 anos depois, a gente ainda precisa fazer.

O livro, em si, não tem a ver com os bichanos. Só entrou para o clube porque a autora, vencedora dos prêmios mais relevantes da ficção científica e da fantasia (Nebula, Hugo, Locus), os amava: "A presença de um gato me mantém em contato com o mistério, a irracionalidade, a beleza, a teimosia selvagem do mundo não humano" ─ ela chegou a escrever Book of Cats, um compilado de poemas e meditações sobre a "felinidade", sem tradução no Brasil, e Gatos Alados, série infantil focada no desejo de liberdade, respeito à natureza e à diversidade.


Última participação da Jujuba no Cluboca do Livro

Esses temas também aparecem em A Mão Esquerda da Escuridão. Ambientado no planeta Gethen, chamado de Inverno pelos terráqueos por sua temperatura hostil, o romance traz personagens andrógenos e sem sexo definido, que apenas durante o kemmer (e aleatoriamente) se tornam masculinos ou femininos ─ a mãe de uma criança é, sem qualquer estranhamento, o pai de outra. Não se tratam, porém, de habitantes neutros, enfatiza a obra, mas de potencialidades ou integralidades.

E essa característica biológica molda a cultura local, eliminando os papéis de gênero tradicionais e as estruturas sociais baseadas na desigualdade entre homens e mulheres. Visualizem o sonho: qualquer um pode exercer qualquer profissão, o fardo e o privilégio da gravidez são compartilhados, não há divisão da humanidade em metades forte e fraca, protetora e protegida, dominante e submissa, dona e escrava, ativa e passiva ─ nem estupro, uma vez que os gethenianos passam a maior parte do tempo assexuados.

Durante o kemmer, ninguém trabalha ─ chupa, Fiesp! E nunca fazem guerra. Moradores do reino de Karhide, monarquia baseada em honra e tradição, são condenados ao exílio, morrendo sozinhos de frio e fome. Já Orgoreyn, estado burocrático e autoritário, possui uma colônia penal sem muros ou grande aparato de segurança, pois o frio e o isolamento tratam de desestimular eventuais fugas. Em época de Guerra Fria, Le Guin critica as contradições de ambos os sistemas políticos em disputa.

O livro alterna capítulos narrados por Genly AI, emissário humano enviado por uma coalizão interplanetária para convencer Gethen a se unir ao Ekumen, permitindo intercâmbio político e tecnológico, e Estraven, primeiro-ministro de Karhide que o ajudará nessa missão. Mitos e lendas do planeta gelado incrementam a história, junto com relatos de pesquisadores de campo ― um deles acredita que os gethenianos tenham sido um experimento antigo da Terra.



A maior parte do romance, porém, descreve os quase três meses de travessia da geleira Gobrin, uma das regiões mais inóspitas de Gethen, quando Genly e Estraven passam a entender melhor a cultura um do outro (contornando uma angustiante tensão "sexual"), e precisei lutar para manter os olhos abertos ─ respeito máximo, porém, à habilidade da autora de usar a forma para reforçar o conteúdo.

Aproveito a deixa para falar de Le Guin. Filha do diretor do Museu de Antropologia da Universidade da Califórnia, não havia fonte melhor para formar sua bagagem como escritora, complexificada pelo taoísmo, o feminismo e as ideias de Jung, principalmente sobre os arquétipos. Isso lhe rendeu cinco obras rejeitadas por editoras, entre 1951 e 1961, todas consideradas inacessíveis. rs

Em 1968, na publicação de Nine Lives, a revista Playboy disfarçou seu nome feminino como "U. K. Le Guin", episódio sobre o qual lamentou: "Parecia tão bobo, tão grotesco, que falhei em perceber que também era importante". Nunca mais sofreu preconceito de um editor por seu gênero. Ainda teve peito para recusar o Prêmio Nebula de 1977, em apoio a Stanislaw Lem, que criticara a ficção científica estadunidense e demonstrara simpatia ao bloco soviético.

Em 2009, saiu da Authors Guild, organização de escritores, por colaborarem para o projeto de digitalização do Google, classificando a atitude como "acordo com o demônio". E condenou o controle que a Amazon exerce sobre a indústria editorial, durante a premiação de 2014 do National Book Award. Quando uma figura dessas morre (aos 88 anos!), não se espera menos do que Margaret Atwood discursando em seu funeral.

Com esse abre, espero que me desculpem pela demora para contar sobre nosso encontro, realizado no dia 12 de abril. 😊

A discussão começou com a interdependência dos opostos, proposta pelo livro, não só masculino e feminino, mas também calor e frio, vida e morte, e até a luz e a escuridão, expressas no título, uma alusão ao conceito taoísta de Yin e Yang, representando o equilíbrio entre as forças opostas e complementares que regem o universo. A autora explica com poesia:

A luz é a mão esquerda da escuridão
E a escuridão, a mão direita da luz.
Dois são um, vida e morte, deitados
juntos como amantes em kemmer,
como mãos unidas,
como o fim e o caminho.



Não passou batido, porém, a representação da androgenia de Gethen pelo pronome masculino ─ usado para se referir a um deus transcendente, por considerarem menos específico do que o pronome feminino. A escolha foi questionada à época por movimentos feministas e respondida por Le Guin em artigo: "Muitas mulheres queriam ir além, arriscar mais, explorar a androginia de um ponto de vista feminino também. [...] Acho que estavam certas em pedir mais coragem da minha parte".

E, para o texto não ficar gigante, encerramos falando sobre a colaboração, em vez da dominação, pouco comum na ficção científica estadunidense, que tende a retratar alienígenas como colonizadores, reflexo de sua sociedade ─ o Ekumen de Gently propõe troca, embora tivesse poder para conquistar Gethen.

Le Guin escreveu um ensaio maravilhoso que contesta a narrativa dominante centrada no "herói" e na "espada", chamado A Teoria da Bolsa de Ficção (1986), que li indicado pela Silvana Perez. Nele, a autora argumenta que a primeira ferramenta cultural essencial da humanidade foi uma bolsa (rede ou cesta) para carregar alimentos, não uma arma de caça ─ os veganos piram!

A maior parte da dieta humana na pré-história (entre 65% e 80%) vinha da coleta de vegetais, mas, como perseguir mamutes parece mais excitante, acabou virando a base da ficção tradicional: uma narrativa em forma de "flecha", que busca o conflito e o triunfo. Com a teoria da bolsa, Le Guin sugere manter elementos diversos em uma relação complexa, realista e inclusiva, voltada ao processo contínuo da vida, em vez de focar em um herói central ou clímax violento.

Já botei na lista outro livro de ensaios, o Sem Tempo a Perder: reflexões sobre o que realmente importa, em que ela detona o capitalismo. ❤️

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Quer viver outras histórias, cair na risada junto, se emocionar e culpar o clima seco, basta apoiar o Gatoca com qualquer valor a partir de R$ 15, escolher uma bebida e comprar sua edição favorita da obra em discussão ― usando nossos links, uma porcentagem vem para o projeto. :)


Discussões anteriores

:: Vou te Receitar um Gato, da japonesa Syou Ishida
:: O Mestre e Margarida, do russo Mikhail Bulgakov
:: Um Homem Chamado Ove, do sueco Fredrik Backman
:: Um Gato entre os Pombos, da inglesa Agatha Christie
:: Felinos e Macabros, coletânea de contos de autores como Edgar Allan Poe, H. P. Lovecraft e Bram Stoker
:: Diário dos Gatos Yon & Mu, do japonês Junji Ito

4.6.26

O fim de uma Era

Quando adotei o Mercvrivs, convencida pelo Eduardo, eu dormia em uma cama de solteiro, no casarão de São Bernardo abandonado precocemente por meus pais, tentando ser porto-seguro para os irmãos mais novos, pagar os boletos sem desistir do jornalismo e acertar o arroz (com receita).

Me faltava tempo, dinheiro e paciência para um animal de estimação. Mas era o Mercv. E, mesmo tendo ameaçado devolvê-lo, chorei no veterinário com a possibilidade de perder o filhote que saía carimbando cocô pela sala. Começava ali a mudança que daria a cor das próximas duas décadas e meia.

O gato virou gangue, que virou blog, que virou trabalho. Edu virou amigo e Leo virou amor — contrariando o desfecho esperado para a louca dos gatos. Os irmãos viraram adultos, o casarão virou apertamento, São Bernardo virou Sorocaba e Sorocaba virou Araçoiaba.


Eu, que só passeava no concreto, vim morar no meio do nada para os bigodes terem jardim de novo. E levei a sério a recomendação de casar com alguém que ajudasse a esconder um corpo. Leo escondeu nove — tarde da noite, com chuva, espetando no barro o tripé de luz da fotografia.


No nosso Cat Sematary, ainda falta o Simba, mas decidi esperar aos rabos-de-gato crescerem para libertar as cinzas — foi sua morte inesperada, em 2016, que me tornou especialista em doença renal (e a maior divulgadora das seringadas de água).


Acordar com a casa mais quieta do que o cemitério, onde os passarinhos disputam para desenterrar nossas sementes, me roubou uma madrugada extra, das tantas que dediquei à Jujuba — ansiedade pela solidão, pelos projetos se debatendo na gaveta há tanto tempo, por não poder mais atropelar o luto com a rotina (alarmes para voltar da rua, seriados de 20 minutos pausados na metade, a última a tomar café da manhã, a última a chegar na cama).

Edu me convenceu daquela primeira adoção dizendo que nem perceberia a existência do Mercv ─ um filhote que não brincava, não miava, mal saída da caixinha. E cá estou relendo o mesmo livro, Belas Maldições, só que para o Cluboca, um dos muitos desdobramentos da decisão mais irracional e afortunada que tomei na vida. O primeiro agradecimento dos créditos, portanto, não poderia ser para outra pessoa.


Sem o Leo, acolhedor nos piores momentos de angústia (mudanças, soros e despedidas), eu provavelmente teria me fundido à mobília do casarão. Maru e Edu (não o ex, o veterinário) garantiram a longevidade invejável dos bigodes. João cuidou da parte técnica do blog, Mari virou porto seguro. E a AGD, irmandade de 30 anos, me deu o descanso mais sensacional com que uma pessoa que nem bate e volta para a praia consegue mais fazer podia sonhar (soon!).

Depois de duas décadas de dedicação aos gatos, entreguei minha carta de aposentadoria. Mas Chicão tinha outros planos. Aguardem a segunda temporada de Gatoca!