Quando adotei o Mercvrivs, convencida pelo Eduardo, eu dormia em uma cama de solteiro, no casarão de São Bernardo abandonado precocemente por meus pais, tentando ser porto-seguro para os irmãos mais novos, pagar os boletos sem desistir do jornalismo e acertar o arroz (com receita).
Me faltava tempo, dinheiro e paciência para um animal de estimação. Mas era o Mercv. E, mesmo tendo ameaçado devolvê-lo, chorei no veterinário com a possibilidade de perder o filhote que saía carimbando cocô pela sala. Começava ali a mudança que daria a cor das próximas duas décadas e meia.
Eu, que só passeava no concreto, vim morar no meio do nada para os bigodes terem jardim de novo. E levei a sério a recomendação de casar com alguém que ajudasse a esconder um corpo. Leo escondeu nove — tarde da noite, com chuva, espetando no barro o tripé de luz da fotografia.
No nosso Cat Sematary, ainda falta o Simba, mas decidi esperar aos rabos-de-gato crescerem para libertar as cinzas — foi sua morte inesperada, em 2016, que me tornou especialista em doença renal (e a maior divulgadora das seringadas de água).
Acordar com a casa mais quieta do que o cemitério, onde os passarinhos disputam para desenterrar nossas sementes, me roubou uma madrugada extra, das tantas que dediquei à Jujuba — ansiedade pela solidão, pelos projetos se debatendo na gaveta há tanto tempo, por não poder mais atropelar o luto com a rotina (alarmes para voltar da rua, seriados de 20 minutos pausados na metade, a última a tomar café da manhã, a última a chegar na cama).
Edu me convenceu daquela primeira adoção dizendo que nem perceberia a existência do Mercv ─ um filhote que não brincava, não miava, mal saída da caixinha. E cá estou relendo o mesmo livro, Belas Maldições, só que para o Cluboca, um dos muitos desdobramentos da decisão mais irracional e afortunada que tomei na vida. O primeiro agradecimento dos créditos, portanto, não poderia ser para outra pessoa.
Sem o Leo, acolhedor nos piores momentos de angústia (mudanças, soros e despedidas), eu provavelmente teria me fundido à mobília do casarão. Maru e Edu (não o ex, o veterinário) garantiram a longevidade invejável dos bigodes. João cuidou da parte técnica do blog, Mari virou porto seguro. E a AGD, irmandade de 30 anos, me deu o descanso mais sensacional com que uma pessoa que nem bate e volta para a praia consegue mais fazer podia sonhar (soon!).
Depois de duas décadas de dedicação aos gatos, entreguei minha carta de aposentadoria. Mas Chicão tinha outros planos. Aguardem a segunda temporada de Gatoca!
Foi em 31 de março, mas eu não tinha como contar aqui, pois a Hostinger, empresa que hospeda o Gatoca, conseguiu nos deixar 27 dias fora do ar, por causa de um boleto que vencia no sábado e o banco jogou o pagamento para segunda-feira, respaldado tanto pela Lei 7089/83 quanto pelo Código Civil, no Art. 132 ― e comigo apelando por e-mail, Procon até parar no Juizado Especial Cível.
Ufa! Eu precisava muito botar isso para fora, desculpem. Quando chegou o aviso de que apagariam todo o conteúdo do servidor, no último sábado, vi 18 anos de projeto indo para o lixo ― o painel que me permitia acessar os arquivos já estava zerado, como se a gente nunca tivesse existido por lá. Quanto vale uma gastrite, seu juiz?
Agora, sim, a comemoração! No aniversário de 2024, eu disse que a gente havia instalado a lendária porta do banheiro, né? Mas a verdade é que, como faltava o batente do lado de dentro, Leo tirou para pintar tudo junto e, entre uma morte e outra de gato, mais um ano e meio se passou ― vocês também se perguntam para onde vai esse tempo, que parece tão lento quando se olha de dentro?
O desfecho da epopeia ocorreu em 23 de março e pedia registro, né? Spoiler alert: a gente ainda não sabia que a porta não cumpriria sua função a contento.
Por falar em grude, outra transformação produzida ao longo desses 12 meses foi a do Intrú, que não perde uma oportunidade de ganhar carinho, inclusive quando me vê desmontada da caminhada ― e ainda espera uma casa onde possa morar do lado de dentro da porta de vidro lavanderia.
Termino este retorno de brasileiro-que-não-desiste-nunca com dois pedidos:
🚨 Divulguem aos amigos os links do Gatoca que permitem comprar no Petz (com 10% de desconto!), na Amazon, na Shopee e agora também no Mercado Livre, revertendo uma parte do valor ao projeto. Como a Hostinger derrubou o blog 17 horas depois que publiquei o post, ninguém viu ― e perdemos as vendas justo do Dia do Consumidor. 😢
🚨 Esse período todo inacessível prejudicou também a indexação no Google dos textos que ajudavam gatos doentes, principalmente renais, e acolhiam seus tutores, como mostra o relato que Aline compartilhou recentemente no Cluboca. Bora fazer uma força-tarefa para que eles voltem a aparecer nos resultados de busca? Preciso que vocês interajam com os posts que redivulgarei nas redes sociais ao longo das próximas semanas. 😊
Jujuba já tinha assumido o papel de enfermeira de Gatoca ao aconchegar a mãe e as irmãs enquanto morriam.
(Pipoca e Pufosa com dois dias de diferença, exigindo malabarismos de todos os envolvidos.)
Mas eu não imaginava que não desgrudaria também da Chocolate, que deixava clara sua preferência por não trocar calorzinho com ninguém ― a gente tirava a bichinha de perto e ela voltava, feito iôiô.
E, quando chegou a vez da Pimenta, comecei a me preocupar: quem cuidaria da malhada?
Claro que ela tem a mim, mas não é a mesma coisa ― poder desligar do mundo colada a um corpo quentinho e peludo, que só sairá de perto depois de você.
Pela primeira vez sozinha em 17 anos e meio, Jujuba se aproximou mais de mim. Na hora de dormir, porém, se encaixa entre as almofadas do sofá, onde antes existiam outros nove gatos, e meu coração engasga.
Ainda não acredito que você e Jujuba, as irmãs mais ariscas da ninhada parida em casa, ficaram por último ― 17 anos e 5 meses e meio, no seu caso. E que a frajolinha assustada que criou asas para grudar no teto de tela, em Sorocaba, quando o entregador passou com as telhas pelo quintal, terminaria no colo. Ronronando.
Aqui também sofreu o ataque do Intrú no gatil e tudo desandou. Entre o abscesso de agosto de 2023 e os vômitos de sangue (as diarreias explosivas viriam depois), comecei o rascunho desta despedida. O arquivo marcava 28 de fevereiro!
Como no dia em que escapou da mordida do Marley andando pelas paredes de São Bernardo, hábito "Matrix" que levaria contigo em todas as nossas mudanças de cidade, você fugiu da morte desviando pelas paredes metafóricas de 2024 ― enterrou Chocolate e Pimenta, que nem ruins estavam, apesar de renais.
E demandou uma jornada quase integral de cuidados, que eu constatava sempre que recebia o relatório do celular ― Youtube para as tarefas mecânicas, WhatsApp para conversar com o veterinário, alarmes para encaixar a rotina em blocos de 40 minutos (os intervalos das seringadas de comida).
Se o ataque do Intrú acelerou sua partida, ele se redimiu emprestando a energia que faria falta à Jujuba, porque você passou a dividir a porta de vidro da lavanderia com o gorducho ― só que do lado certo. E Jujuba acolhia seu 1,7 kg nas madrugadas.
E assim você foi apagando no seu tempo ― a doença renal crônica não conseguiu te desidratar, deixar o hálito fétido ou roubar o apetite amarelando as mucosas. Mas causou um déficit metabólico que tornou os nutrientes da última semana inúteis.
Insegurança na caminhada, xixi fora do banheiro (que você já confundiu com restaurante!), meio pacote de fraldas de bebê ― e miadinhos (que agora me desmontam como alucinação auditiva) para virar de lado no sofá, ganhar mais comida ou uma forcinha com o cocô.
Ontem de manhã, quando o sol rasgou uma trégua nos dias chuvosos, senti que estava esperando para se despedir do jardim. E testemunhei uma última ressurreição:
Você travou a boca para o sachê favorito, conquistou o direito de dormir na cama com minha alergia a gatos (Jujuba de vigília na porta) e, às 2h, amolecida no meu peito exausto, esticou determinada os bracinhos para o alto, como se abraçasse alguém, depois apertou-os contra minha mão.
Eu costumo brincar que se uma criatura do além resolver me assombrar, vai precisar se esforçar mais do que os bigodes, que passaram quase duas décadas fazendo barulhos estranhos e parando em posições bizarras ― Jujuba agora deu para conversar com a parede, mas ela tem 17 anos e meio. rs
A justificativa que todo gateiro conhece para esses comportamentos aparentemente inexplicáveis dos bichanos é inseto, primeiro tópico da nossa listinha. Mas o veterinário espanhol Carlos Gutierrez, do canal Mascotas y Familias Felices, pontua também outras causas, que achei interessante trazer neste Dia das Bruxas.
Vibrações misteriosas
Os felinos conseguem detectar movimentos sutis, como correntes de ar, porque seus bigodes e sobrancelhas possuem vasos sanguíneos e terminações nervosas. Isso permite que notem a presença de um passarinho ou uma borboleta que ainda não entraram no nosso radar.
Audição supersônica
Sua capacidade auditiva muito mais desenvolvida do que a nossa, aliada à habilidade de girar as orelhas na direção do som, possibilita escutar frequências que o ouvido humano nem sonha em captar.
Surdez seletiva
Sim, seu gato te ignora de propósito. Esse poder de isolar ruídos de fundo, a que estão acostumados, para focar nos novos faz com que prestem atenção apenas no que interessa ― provavelmente algo para o qual a gente não daria a menor bola.
Câmera lenta
Por quanto tempo você olharia uma preguiça atravessando a rua? Pois é assim, em slow motion, que os peludos enxergam movimentos super-rápidos para nós, como o bater das asas de um beija-flor ― uma vantagem na natureza, já que permite se antecipar a possíveis ataques. Uma janela, para eles, dificilmente é apenas uma janela.
E por que as esquisitices acontecem sempre à noite, hora favorita dos fantasmas? Porque os bichanos são crepusculares, ou seja, ficam mais ativos ao cair da noite, nossas luzes atraem mais insetos e as sombras que eles produzem ainda criam efeitos mágicos.
Os estudos que embasaram o vídeo estão em inglês e espanhol, por isso não linkei no texto. Mas seguem abaixo:
Seu coração acelera quando o gato bota as garras para fora perto do sofá? Esse hábito de arranhar objetos pode ser um estorvo para nós, humanos, mas é essencial aos peludos, porque permite que alonguem os músculos das costas e do peito, desestressem e se livrem das camadas soltas de unha.
Arranhões ainda marcam posse e ajudam a misturar o cheiro deles ao nosso e de outros animais, indicando que compartilhamos o mesmo território ― assim como a gente deixa a casa com a nossa cara usando móveis, quadros e lembranças, os bichanos decoram o ambiente com sinais visuais e olfativos, que gostam de manter frescos. Isso dá a sensação de segurança.
O que você precisa é descobrir a melhor forma de substituir o sofá, perfeito para a função pelo material, estrutura firme e localização em espaço socialmente significativo ― além de ter o cheirinho da família. Sim, essas características podem se unir em um arranhador pensado exclusivamente para felinos!
Na hora de escolher, Jackson Galaxy, autor de O Encantador de Gatos, livro que inspira esta série, aconselha a considerar os seguintes critérios:
Formato
Seu amigo prefere superfícies horizontais, como tapetes, ou verticais como a lateral do pobre do sofá? ― há aqueles que não fazem distinção.
Tamanho
O peludo precisa conseguir se esticar e sentir que o arranhador não vai cair na cabeça dele ― se balançar, o sofá ganha.
Textura
Sisal, juta, madeira, cortiça, carpete, papelão ou qualquer material em que ele enfie a unha tende a funcionar. Ofereça opções ou copie o que já está destruído.
Localização
Não adianta esconder o arranhador na lavanderia, onde não fica ninguém. Lembra que osgat bichanos marcam objetos socialmente significativos? Melhor ainda se tiver vários modelos espalhados pela casa.
Keka engordou 200 g. Essa informação, assim jogada, dificilmente terá o impacto desejado se vocês não souberem que a frajola passou dos 17 anos, avançada na doença renal crônica, e chegou a 1,7 kg com as diarreias explosivas ― que já conseguimos reverter.
Sim, ela está velhinha e cada vez mais fraca, mas ainda mia na porta do quarto para ganhar um carinho se me ouve ir ao banheiro de madrugada, arrisca umas lambidas no sachê que bato para dar na seringa, pede para passear no terreno ― e ressuscita para caçar um lagartinho. rs
Eu trabalho em casa, décadas antes de ser modinha, e posso oferecer esse cuidado enquanto ela quiser receber ― já escrevi sobre o difícil equilíbrio de tratar animais que ainda preservam uma essência selvagem e por que escolho sempre a abordagem menos invasiva. Também alertei sobre os riscos da alimentação forçada.
Mas acho que ficou faltando falar sobre como as seringadas de comida deram (e ainda dão) uma qualidade de vida melhor para a gangue na velhice, porque garantem a hidratação, sem precisar recorrer ao soro subcutâneo (gatos ariscos!), e amenizam outros estragos da doença renal, como a gastrite.
Para Jujuba, que está bem, faço um patê com as latinhas da Pet Delícia ― dicas para deixar lisinho aqui. Para a Keka, que não pode ficar de estômago vazio, senão vomita sangue, alterno no blender sachês de peru e peixe branco ― os únicos que têm parado na barriga. E até suco de maçã testei com a Chocolate, quando não aceitava mais o resto.
Esse é meu limite. Apesar de a comida na seringa chamar "alimentação forçada", não soco goela abaixo. Com o peludo sentado ou deitado de barriga para baixo, dou doses pequenas (às vezes, 1 ml) e bem devagar, enquanto ele vai lambendo e engolindo sozinho ― encaixo a seringa na lateral da boca, nunca no fundo. E, se o pequeno cospe ou trava os dentes, suspendo.
Na pancinha deles cabe, confortavelmente, 20 ml por vez e a digestão demora cerca de 40 minutos. Mas um bichano debilitado dificilmente conseguirá comer tudo isso, então, comece com menos. Para a Keka, tem funcionado fazer dez rodadas de 14 ml por dia, somando 140 ml. Jujuba, que ainda devora a ração seca, só recebe um reforço úmido com quatro rodadas de 20 ml ― de manhã, na hora do almoço, à tarde e à noite.
De novo: sei o privilégio que é trabalhar em casa. Qualquer alimentação úmida, porém, que vocês puderem incluir no cardápio ajuda. Em qualquer idade, inclusive. As seringadas servem para esse estágio de paladar seletivo. :)
Biscoito, xarope, molho, pó, calda, pasta oral, gel transdérmico: o universo dos remédios manipulados para animais parece saído dos livros do Harry Potter e eu não fazia a mais remota ideia até precisar dividir um comprimido imune à divisão para a Keka. Conversei, então, com duas farmácias aqui de São Paulo para entender as vantagens e no Cluboca, com as apoiadoras que enfrentam os felinos, levantei as desvantagens.
É inegável que manipular um medicamento na dose exata prescrita pelo veterinário, sem necessidade de fracionamento, ajuda bastante. Não ter sabor horrível, daqueles que disparam a babação, também. Mas flavorizantes como bacon, avelã, cereja e beijinho funcionam melhor com cachorro ― nesse caso, a farmácia que usa palatabilizantes por espécie me convenceu mais. E dá para pedir sem sabor, disfarçando no petisco com que o peludo já está acostumado.
Existem, ainda, opções sem açúcar, corantes e conservantes para animais com restrições ou necessidades especiais. Já os sites que dizem que a versão manipulada pode ficar até 30% mais barata do que as tradicionais, pois não tem patente nem gerará desperdício, estão comparando com os remédios pet, que custam bem mais caro do que os equivalentes humanos.
Os valores, aliás, mudam de acordo com o princípio ativo (precisa perguntar se a farmácia trabalha com ele), a miligramagem e a quantidade (no limite da validade de cada formato). Como teste, solicitei um orçamento de mirtazapina 1 mg, metade do comprimido de Mirtz 2 mg, que sempre me dava um baile para cortar ― na verdade, eu almejava um quarto, mas acabei desistindo e ministrando em dias alternados.
As cápsulas manipuladas saem realmente mais barato. Em pasta o preço aumenta entre 10% e 20% ― até dez doses costumam vir em sachês individuais e acima disso, em uma espécie de seringa. Já para o gel transdérmico, que merece um parágrafo exclusivo, vocês desembolsarão uns 30% a mais. Xarope só não ganha da cápsula e biscoito é o mais salgado. Vale ressaltar que todos os formatos exigem receita veterinária e tratamentos longos compensam mais financeiramente.
Escrevi lá em cima que o gel transdérmico merecia um parágrafo exclusivo, né? Pois um monte de remédios (contei 59) e vitaminas (E, D, A e K) tomados via oral podem ser manipulados para passar na pele! ― com absorção mais rápida, menor irritação e toxicidade sistêmica. Keka não precisa mais da mirtazapina, mas este post pode salvar a vida dos tutores de gatos ariscos.
:: Onde encontrar
Não vou citar as farmácias porque não se trata de um post patrocinado. Mas elas têm unidades em todo o Brasil e na internet vocês conseguem pesquisar a mais próxima. Para identificar se são confiáveis, verifiquem a autorização de funcionamento na Anvisa (precisa do CNPJ) e confirmem pelo site ou embalagens dos produtos o registro do farmacêutico responsável no Conselho Regional de Farmácia (CRF).
:: Gateiras avaliam
Já usei cápsula, xarope e pasta oral. Cápsula acho bom porque dá pra manipular pequena. Xarope é para dar na boca com seringa ― tipo o de framboesa humano, só que com cheiro de ração (imagino que gosto também). Funcionava ok para minha gata, ela odiava menos. E manipulo gabapentina em pasta oral, sabor "para gatos". Nico ama e acha que é um petisco, até me lembra quando está na hora. Teve um tempo em que eu misturava no Churu e foi sucesso também. Carolina Rocha
Fiz remédios em biscoito para Luna, a cachorra, com sabor de picanha, acho. Devia ser muito bom, pois ela comia com gosto e o Fly, que come cápsula como se fosse petisco, tentava roubar. Liliane Molina
Pedi pra manipular a gabapentina para os três em pasta sabor de bacon. Não adiantou nada, eles nem ligaram. E tive de passar nas patinhas para lamberem. Ficaram com cheiro de bacon com sachê. Fernanda Barreto
Nunca manipulei nos outros formatos, só o tradicional, com sabor de carne. Parece um biscoitinho e usei com cachorro mesmo. Aqui, em Santos, tem muitos lugares que vendem, isso pesa na diferença de preço. Bárbara Santos
Trabalhei anos com manipulação e só faço para os meus gatos quando a dosagem não permite usar o industrializado ou quando o veterinário prescreve uma fórmula. Claro que cada bicho é um universo, mas eu, pessoalmente, acho que essas opções são pensadas mesmo para cachorros. Paula Melo
Prefiro cápsula e comprimido. Xarope pode até funcionar, mas meus gatos sofriam menos com as cápsulas. Viviane Silva
Às vezes, a fórmula transdérmica é o único jeito de dar medicação para um gato arisco. E só na manipulação mesmo ― pela forma, não pelo sabor. Lembrando que uma vet de São Paulo prescreveu uma vez uma pastinha manipulada que superfuncionava para os gatos dela, mas para a minha não rolou. Elisângela Batista
Encomendo a mirtazapina em gel, que a pele absorve. É caro mesmo. Antes, dava gabapentina quando a Tapioca precisava ir ao veterinário, mas bem pontual. Mandava fazer o remédio líquido, com sabor de carne ou frango. Ela não gostava do mesmo jeito, mas eu dava na seringa, uma quantidade bem pequena, então era tranquilo. Lorena Fonseca
Vocês estão prestes a ler um spin-off das dicas salvadoras para dar remédio, porque eu continuei pesquisando um jeito de não desperdiçar os microcomprimidos da Keka, que chegam a custar três dígitos por caixa. A boa notícia é que 99% dos leitores se beneficiarão com este conteúdo, já que não tem muita informação sobre o assunto na internet.
A má notícia é que o Mirtz insiste em quebrar no formato "dois quartos e uma suíte", como brincou Adrina Barth no nosso grupo de apoiadores, em vez dos quatro desejados ― pedi até ajuda para a Regina Haagen, correspondente do Gatoca no Rio de Janeiro, que ganhou uma lâmina de bisturi da veterinária. Tutores de bichanos com apetite rebaixado, saibam, portanto, que não é culpa sua ― e pulem para o final do post.
Usem cortador
O da Needs (que não pagou um centavo pela propaganda, reforço) vem com compartimento para guardar os pedaços restantes do medicamento e vocês encontram nas farmácias Droga Raia e Drogasil de todo o Brasil. Mas qualquer cortador bem-amolado dá conta do recado.
Afiem com papel alumínio
Dobrem várias vezes, do lado fosco ou brilhante, e esfreguem em cada face da lâmina ― tomando o cuidado, obviamente, de não se cortar.
Sejam rápidos
Depois de posicionar o comprimido com cuidado no cortador, desçam a guilhotina sem piedade ― hesitar só aumentará a chance de zigue-zague.
Não subestimem as facas
Vanessa Araújo deixa no ponto do assassinato e bota um paninho macio dobrado embaixo do comprimido para não sair do lugar.
Se nada disso funcionar ou vocês também estiverem na luta contra o Mirtz, confirmei que é possível manipular a mirtazapina na dosagem prescrita pelo vet, eliminando a necessidade de fracionamento, e no formato e sabor que seu amigo preferir ― Viviane Silva e Bárbara Santos, apoiadoras queridas, recomendam sem sabor, para disfarçar melhor no petisco favorito deles.
É importante esclarecer que não se deve ligar o vapor na cara do gato, mesmo que ele esteja acostumado a brincar com a mangueira do jardim e não se intimide nem com o cortador de grama ― pouco importa que você tenha mirado na cabeça. Na dúvida, direcione o jato para áreas menos sensíveis (e mais amplas) do corpo.
Feito esse disclaimer, que nada tem a ver com o Intrú, motivo pelo qual Jujuba não herdou a escova do trauma, achei legal compartilhar os prós e os contras de um dos poucos produtos que as redes sociais acertaram em me mostrar como propaganda. Apesar de importada, a Electric Spray Handle Massage Brush não custou caro: R$ 25,22, já com o frete.
De escovinha, porém, ela não tem muita coisa. E o tamanho é a primeira desvantagem, porque dificulta o uso com bichanos magrinhos (e ossudos) como a Keka. A sujeira de terra da Jujuba, que gostou até do vaporzinho na fuça, também limpou mais fácil com o lenço umedecido. E precisa tomar cuidado no frio, pois o pelo acaba molhado pela insistência.
Na estação certa, por outro lado, a massagem refrescante ajuda a baixar a temperatura do corpo, enquanto os termômetros insistem em quebrar recordes de aquecimento global. E esta é a principal vantagem para mim (ou para eles). A névoa sai fininha, quase silenciosa e fria ― a menos que se coloque água quente no reservatório, só que não sei se pode, porque não achei o site da fabricante chinesa.
A carga demora cerca de meia hora ― na caixa vem um cabo minúsculo (USB-C), compatível com o carregador dos celulares Android. E a cabeleira sai relativamente fácil do meio das cerdas, basta deixar juntar um bolinho.
Se seu amigo é desconfiado, aconselho um período de adaptação, começando só com a escovação. Quando ele estiver acostumado, ligue o vapor durante o processo, de preferência com a escova colada ao pelo e uma musiquinha para disfarçar o barulho do botão e do jato. Uma vez que ele perceber o bem-estar, você não precisará mais se preocupar. :)
Para comemorar oito dias sem vômitos, Keka inaugurou as diarreias explosivas ― aquelas que conseguem sujar duas paredes do banheiro ao mesmo tempo. Na segunda-feira! Isso quer dizer que o organismo está absorvendo menos nutrientes, de uma dieta já sem troco pelo avanço da doença renal. E, ontem de manhã, parecia que não havia sobrado nada para a magrela aproveitar no fim dos 17 anos.
Desafiando as leis da física, da biologia e da química, porém, o vídeo abaixo é sequência da foto anterior. Sim, a frajola desistiu de morrer para caçar um lagartinho ― coisa que não fazia nem quando tinha a saúde perfeita. Ou melhor, arriscou pela primeira e única vez no ano passado, com um grilo persistente.
Como brincou Mariana, a curiosidade ressuscitou o gato?
Quando eu era pequena, bem pequena, desisti do balé clássico porque a professora disse que demoraria para subir na ponta, já que meus ossos ainda estavam em formação. Maiorzinha, abandonei a ginástica olímpica quando um braço ficou para fora do tatame durante o rodante-flic e acabei estatelando a cabeça no chão. Também larguei a fanfarra, o piano e o flamenco, além do curso de alemão e do teatro, porque só sei fazer bem mesmo uma coisa: escrever.
E foi com ronroneos que ouvi Ana Roxo, dramaturga, e Tati Fadel, professora de redação (amante de ornitorrincos e escrita cuneiforme), elogiarem os textos do Gatoca em um canal de 65 mil seguidores ― na foto, as duas pronunciam Mercvrivs ("mercúrius"), o frajola simplão de nome pomposo (culpa do Eduardo) que mudou minha vida. Keka quis muito modelar, aliás, mesmo combalida, o que demandou tempo extra na tentativa de salvar os cliques com iluminação ruim (também não sou boa nisso).
Vocês podem assistir à live completa aqui, mas cortei o trecho que mostraria à minha mãe, se ela ainda estivesse por estas bandas ― já me chamaram de Lebiste, Lewinsky, mas Ceviche foi a primeira vez (tem vegano?). Ana e Tati anunciam nossa parceria de arte, gatos e lubrificação ocular, enquanto jogam conversa fora, porque nem todas as relações precisam ser produtivas e é nos afetos positivos que mora a revolução.
Que tal um desenho de desaniversário? Tem desconto até o dia 31!
Depois de caçar, apanhar, matar e comer, um gato saudável completará o ciclo (CAMCLD) se limpando e dormindo, para se preparar para o próximo. Se você não lembra da última vez que viu seu amigo se lambendo, tem alguma coisa errada ― pode ser um problema tanto físico quanto psicológico. Pelo oleoso ou embaraçado em pontos que não costumavam ficar assim também indicam sinal de alerta.
Cabeleira longa, aliás, precisa de ajuda para não formar nós, embora qualquer bichano se beneficie com a escovação. Dependendo da sensibilidade do animal ao toque, inclusive, Jackson Galaxy defende a "tosa de leão", apesar de a estética do corte depor contra ― é que não existem muitos felinos selvagens de pelo longo, pois se trata de uma característica selecionada por criadores.
O autor de O Encantador de Gatos, livro que inspira esta série, ressalta ainda que não se deve dar banho em criaturas autolimpantes, porque apaga o cheiro (e a identidade) que elas se dedicam tanto para cultivar com a língua, parte fundamental da gatitude. Velhinhos e gorduchos com dificuldade de alcançar regiões como as costas e o bumbum podem ser limpos com lenços umedecidos.
O descanso, por sua vez, demanda um lugar tranquilo, silencioso e seguro, especialmente em casas agitadas ou com muitos animais ― bichos estressados tendem a perder o sono. E, mesmo que o peludo goste da sua king size, vale oferecer diferentes texturas e estilos de caminha para ver onde ele fica mais relaxado ― lembrando que alguns gostam de dormir no alto e outros, no chão.
Cada etapa do CAMCLD alimenta a confiança para a seguinte. E, enquanto os três Rs (rotina, ritmo e ritual) ditam o gingado da gatitude, o domínio do território é o tambor que dá a batida da música, como vocês verão nos próximos capítulos.
(Tem um troco sobrando, gosta do nosso trabalho e quer se tornar apoiador também? Dá uma fuçada nas recompensas da campanha — aqui fiz um resumo das principais ações, on e offline, destes 17 anos de projeto. ❤)
Pode parecer uma dúvida boba, mas mudou completamente minha rotina com a Keka porque, quase duas décadas e dez gatos depois, eu não sabia que o segredo da fluidoterapia está no xixi! Só que me adianto. Preciso explicar primeiro como chegamos até aqui. A magrela tem 17 anos e gastrite, não qualquer gastrite, uma gastrite causada pela doença renal.
Isso quer dizer que os rins dela não filtram direito as toxinas, deixando passar ureia para a corrente sanguínea, e essa uremia provoca enjoo e úlceras no estômago. Para ajudar a diluir as toxinas, animais renais demandam um reforço na hidratação, o que eu já fazia com as seringadas de sachê (batido no blender).
Acontece que, após oito dias comendo até pedra, feito de arrancar lágrimas quando a criatura em questão pesa metade dos tempos áureos, Keka entrou em um looping de vômitos, terminando em sangue vivo ― quanto menos a comida parava na barriga, menos ainda a gente oferecia para não sobrecarregar a digestão e, claro, ela acabou desidratando.
Eu, que havia prometido não aplicar soro na leva arisca da gangue, me vi reconsiderando tentar apenas uma bolsa para ver se a pequena embalava de novo ― que vida bandida essa de tutora de idosos! Festival de urros e algumas pesquisas frustradas na internet depois, escrevi para o Eduardo Carneiro, porque tenho o privilégio de poder encher de perguntas um veterinário paciente e acolhedor.
O primeiro efeito do soro é hidratar o bicho, o que ocorre gradativamente, conforme passa para o sangue e depois banha os tecidos ― você vai ver uma bolota se formar no local da aplicação e ir desaparecendo aos poucos. Nos casos mais severos, pode demorar alguns minutos e, nos demais, raramente passa de quatro horas.
Vale ressaltar que me refiro à aplicação subcutânea, aquela entre a pele e o músculo, que a gente consegue fazer sozinho em casa (dicas salvadoras aqui), porque a intravenosa (direto na veia) se absorve bem mais rápido. Como a desidratação está sempre ligada a outro problema, porém, retornará também em questão de horas se ele não for resolvido.
Em um quadro renal, por exemplo, equivale a dar um auxílio emergencial de R$ 300 para uma família com despesa de R$ 3 mil ― longe do ideal, melhor do que nada. Por isso a indicação de pelo menos quatro aplicações, permitindo que o organismo ganhe um respiro maior para se reorganizar.
Nossa aposta é que os vômitos da Keka cessem e a hidratação oral, sem agulhas, torne a bastar. Aqui entra o segundo efeito do soro: ao diluir a ureia, ele ameniza a náusea. Mas ela só passa mesmo com a eliminação pelo xixi. E voltamos ao começo do post. Funciona melhor concentrar a hidratação de manhã, assim o animal se livra logo das toxinas e tem o resto do dia para comer sem o enjoo atrapalhando.
Como a desidratação, porém, a uremia também torna a aumentar entre 12 e 24 horas. A insistência na fluidoterapia pode ajudar a voltar menos alta a cada aplicação, mas não é garantido, principalmente porque um corpo acostumado a trabalhar com menos água tende a mandar o excesso embora, buscando o equilíbrio padrão, e o gato acaba urinando mais.
Falta um dia para terminar a bolsa-teste de 500 ml, dividida em sessões de tortura de pouco mais de 100 ml, e a frajola já retomou o hábito de me perseguir miando por comida ― em especial a ração do Intrú, cheia de proteína e fósforo para rins saudáveis, que provavelmente a fez entrar no looping de vômitos.
Uma hora a gente não vai mais conseguir ― eu, ela, os rins. Mas hoje dormi feliz.
...é como estar de férias na sua própria casa. Não tem gato brincando e brigando e correndo e roncando e caçando e miando, tudo ao mesmo tempo. Se os sobreviventes passarem dos 17 anos, então, você pode sentar neles sem perceber.
Exceto durante as madrugadas, quando a velhice resolve botar os sintomas de fora.
Jujuba vomitou na Keka, que vomitou na Pimenta, que não tem mais força para vomitar em ninguém. Parece releitura do Drummond, mas foi mais um dia em Gatoca, iniciado antes do sol, das galinhas e até de o Intrú chegar da rua gritando pelo café da manhã.
Frio de endurecer os dedos e eu esfregando o almofadão, tentando desgrudar as gatas e superaquecendo o secador. Para repetir tudo de novo à tarde, no colchão que fica no escritório, só trocando as personagens.