Uma semana pesquisando modelos de comedouro automático para gatos na internet e a conclusão era desanimadora: nenhum deles parecia prestar. Vários tinham o pratinho de plástico, enquanto os de inox deixavam a desejar no tamanho. Um vinha sem fonte, outro com cabo específico e curto. Muitos usavam o aplicativo da Tuya, que já nos tortura com as luzes do jardim.
E as avaliações também não ajudavam: porções imprecisas, programação zerada mesmo com pilha de backup, bichano que aprendeu a apertar o botão de emergência para soltar a ração ─ essa, ao menos, me fez rir. Lorena sugeriu no nosso grupo de apoiadores uma versão mais analógica, sem design burro, mas ela não funcionava com app e não dava para acionar a distância.
Acabei escolhendo o da Positivo, mais caro, com o reservatório mais transparente do que gostaria e um cliente revoltado por ter perdido dois comedouros após um ano de uso ─ espero contar com melhor sorte.
A reação do Intrú lembrou as cinco fases do luto: negação, se recusando a acreditar que aquele monte de comida permaneceria inacessível; raiva, alternando entre tentar puxar a ração pela saída com a pata e forçar a tampa do reservatório com o nariz; barganha, me encarando com as pupilas dilatadas do Gato de Botas; depressão, agachadinho ao lado do prato vazio; aceitação, quando finalmente entendeu que aquele não era o brinquedo interativo de chacoalhar.
E voltei a dormir de madrugada, depois de um ano e oito meses ─ mais por causa da Jujuba, que partiu no fim de maio, do que do frajola. Agora, programo a traquitana para liberar duas porções (12 g) à 1h30 e mais duas às 5h30, podendo soltar a ração pontualmente pelo app deles também, sem que a criatura se ponha a miar na porta do quarto quando levanto para fazer xixi.
Importante esclarecer que tenho alergia a gatos, por isso o gordinho fica do lado de fora, e que o apelido dá spoiler do motivo da compra do comedouro. A gente tentou puzzle toys de formatos diferentes (tabuleiro e joão-bobo), mas ele termina ambos muito rápido. Já, durante o dia, investimos na alimentação úmida para manter os rins felizes.
Ah! Os veterinários alertam para não usar o recurso de gravação de voz, porque ouvir o tutor chamar no vácuo deixa os coitados confusos ─ muitos se põem a procurar pela casa.
Essa pergunta sempre surge quando termino de palestrar sobre a importância de garantir a hidratação dos bigodes, que geralmente não querem beber água nenhuma ─ porque na natureza árida do norte da África e do Oriente Médio eles tinham de se contentar com o sangue e as vísceras de suas presas, compostas por 70% de líquido, e blábláblá.
O cálculo é até simples: basta multiplicar 50 ml pelo peso do animal ─ um gato de 5 kg, portanto, deveria secar um potinho de 250 ml. Já a execução dá mais de trabalho. Comecem mantendo a água fresca, em bebedouros limpos, com pedrinhas de gelo no calor. Se sobrar uma grana, invistam em fontes, como esta que Jujuba decidiu usar de um jeito disruptivo antes de morrer.
Ração úmida é obrigatório, já que a quantidade de água da tradicional não passa de 10% ─ Jackson Galaxy diz que o sachê mais porcaria funciona melhor do que a ração seca mais super premium. Sei que comida que azeda fora da geladeira complica a rotina de quem passa o dia na rua, mas ofereçam como complemento à dieta. Não faltam opções no mercado e a gente ainda pode dar uma batizada. :)
Se seu amigo não curtiu a experiência, tente outra textura, sabor, marca ─ o blog está cheio de dicas, vejam os links no final do post. Sobrevivente de uma década de cuidados com gatos renais, doença causada justamente por déficit na hidratação, vocês sabem que eu também advogo pelas seringadas de água, gratuitas, né? E o vet só recomendou fluidoterapia nos raros casos em que nada parava no estômago.
Vocês já sabem que não fui para Cancún, tomar drinks de guarda-chuvinha na piscina de borda infinita, né? Chicão rejeitou meu pedido de aposentadoria por tempo de serviço prestado aos gatos e nem um guarda-chuvinha da Pan eu ganhei. Essa história, porém, traz outro personagem e foi a jornada dele que fez o público se emocionar.
Meses se passaram, os bigodes idosos foram diminuindo no almofadão, até que sobrou apenas a Jujuba. E, como nos blockbusters as coisas sempre tensionam antes do desfecho favorável ao protagonista, ela viveu mais um ano e meio. Em 15 de junho, quase três de espera depois, o gordinho finalmente entrou em casa ─ importante dizer que convidado, porque das invasões perdemos a conta.
Leo e eu havíamos feito um bolão: ele correu para o pote de ração renal, que não estava mais no chão porque a renal também partira, recorrigiu a rota para dar com a porta do quarto fechada e terminou comendo areia da caixa do lavabo. O que ninguém imaginava era que o gato de patinhas de elefante seria uma coletânea da gangue.
E é um vadio como a Clara. No segundo dia, se pôs a miar na porta de vidro da lavanderia, aquela em que passou dois anos aporrinhando para entrar, querendo sair. No terceiro, conseguiu fugir escalando o alambrado e voltou com diarreia.
Comecei a desenhar um projeto de blindagem, só que o bicho não curte ser contrariado (sete anos na rua) e achei melhor investir primeiro na sedução: brincadeira de varinha crepuscular, sachê da Pet Delícia sem restrições, burrito de cobertor no frio, carinho a qualquer momento.
Nem o ratinho é um simples ratinho. Foi comprado em Paris (próximo post!), com o logo da Disney brilhando na bunda.
Pois ele tem saído cada vez menos e parece que não mais do terreno ─ esses dias, voltou correndo para usar o banheiro, hábito que pensei que jamais emplacaria, após sucessivos fracassos e com 90 m2 de gramado. Quando sento na privada, aliás, vem fazer xixi sincronizado. Ainda fica preso no telhado, tentando se infiltrar no quarto pelas portas do contêiner que fecham o janelão. E toca Leo, que já acumulava a função de coveiro, atuar como bombeiro.
O comedouro automático merece um texto à parte, mas vale adiantar que ele confunde com o joão-bobo, que basta estapear para soltar mais ração ─ pelo menos tem me substituído nas refeições da madrugada porque, 20 meses sem dormir, estou a ponto de assassinar alguém. E o parquinho talvez precise de mais ousadia. Ou de peças maiores.
Há 20 anos e meio, Mercv chegou e mudou tudo. Eis que outro frajola não solicitado estreia a segunda temporada de Gatoca.
Obrigada Alice, Samanta, Renata, Vanessa, Paula, Elaigne, Bárbara, Reginas, Solimar, Lorena, Michele, Adrina, Fernanda, Roberta, Viviane, Liliane, Neide, Glaucia e Elisa Serikawa, que escolheram continuar amadrinhando o cara de pau! ♥️