Gatoca

Educação, sensibilização e mobilização pelos animais

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10.7.26

2ª temporada de Gatoca: é, adotei o Intrú

Vocês já sabem que não fui para Cancún, tomar drinks de guarda-chuvinha na piscina de borda infinita, né? Chicão rejeitou meu pedido de aposentadoria por tempo de serviço prestado aos gatos e nem um guarda-chuvinha da Pan eu ganhei. Essa história, porém, traz outro personagem e foi a jornada dele que fez o público se emocionar.

Cabeçudo, faminto e machucado, Intrú podia ter escolhido qualquer casa ─ na verdade, ele escolheu, mas derrubou uns livros de autoajuda da estante e logo percebeu que merecia mais. Gatoca estar fechada para novos integrantes, principalmente FeLV+, era um detalhe. Nosso anti-herói, serial killer de passarinhos, não trabalha com pressa.

Meses se passaram, os bigodes idosos foram diminuindo no almofadão, até que sobrou apenas a Jujuba. E, como nos blockbusters as coisas sempre tensionam antes do desfecho favorável ao protagonista, ela viveu mais um ano e meio. Em 15 de junho, quase três de espera depois, o gordinho finalmente entrou em casa ─ importante dizer que convidado, porque das invasões perdemos a conta.


Leo e eu havíamos feito um bolão: ele correu para o pote de ração renal, que não estava mais no chão porque a renal também partira, recorrigiu a rota para dar com a porta do quarto fechada e terminou comendo areia da caixa do lavabo. O que ninguém imaginava era que o gato de patinhas de elefante seria uma coletânea da gangue.

Ele caça como o Simba, mas se assusta como as Gudinhas ─ e, quando a gente menos espera, vem no colo. Desfila com os brinquedinhos na boca como a Pimenta. Ama mamão como o Mercv e (cheiro de) pão francês como a Guda, além de petelecar bolinhas para baixo dos móveis. Quando abrimos o atum vegano, paixão da Pipoca, quase derrubou a pizza. Afia as unhas no tronquinho do gatil, como a Chocolate.


E é um vadio como a Clara. No segundo dia, se pôs a miar na porta de vidro da lavanderia, aquela em que passou dois anos aporrinhando para entrar, querendo sair. No terceiro, conseguiu fugir escalando o alambrado e voltou com diarreia.


Comecei a desenhar um projeto de blindagem, só que o bicho não curte ser contrariado (sete anos na rua) e achei melhor investir primeiro na sedução: brincadeira de varinha crepuscular, sachê da Pet Delícia sem restrições, burrito de cobertor no frio, carinho a qualquer momento.



Nem o ratinho é um simples ratinho. Foi comprado em Paris (próximo post!), com o logo da Disney brilhando na bunda.


Pois ele tem saído cada vez menos e parece que não mais do terreno ─ esses dias, voltou correndo para usar o banheiro, hábito que pensei que jamais emplacaria, após sucessivos fracassos e com 90 m2 de gramado. Quando sento na privada, aliás, vem fazer xixi sincronizado. Ainda fica preso no telhado, tentando se infiltrar no quarto pelas portas do contêiner que fecham o janelão. E toca Leo, que já acumulava a função de coveiro, atuar como bombeiro.



O comedouro automático merece um texto à parte, mas vale adiantar que ele confunde com o joão-bobo, que basta estapear para soltar mais ração ─ pelo menos tem me substituído nas refeições da madrugada porque, 20 meses sem dormir, estou a ponto de assassinar alguém. E o parquinho talvez precise de mais ousadia. Ou de peças maiores.

Há 20 anos e meio, Mercv chegou e mudou tudo. Eis que outro frajola não solicitado estreia a segunda temporada de Gatoca.


Obrigada Alice, Samanta, Renata, Vanessa, Paula, Elaigne, Bárbara, Reginas, Solimar, Lorena, Michele, Adrina, Fernanda, Roberta, Viviane, Liliane, Neide, Glaucia e Elisa Serikawa, que escolheram continuar amadrinhando o cara de pau! ♥️


Epopeia do Intruso

:: Como tudo começou
:: Serial killers sempre voltam à cena do crime!
:: Ronrom, ataques e caos
:: Amansando a fera
:: Intruso: 1 sucesso e 2 bombas
:: Um morto muito louco e perdão felino
:: Cartinha de um gato excêntrico ao Papai Noel
:: Nossos presentes de Natal, com penetra
:: O que acontece com gato que vai para a rua
:: Férias do Intrú
:: Procuram-se madrinhas
:: Intrú ganhou madrinhas e um chalé!
:: 59 dias sem acidentes!
:: O primeiro brinquedinho... que ele nem viu
:: Teste: o desaparecimento do frajola
:: Intrú ganhou um cobertor e me emocionou
:: O primeiro colo (sim!)
:: A primeira ioga
:: A primeira brincadeira de caçar (sem mortes!)
:: O desafio de aquecer um bicho que não entra em casa
:: 17º quase-aniversário do Gatoca e bastidores
:: A escova perfeita para aventureiros
:: Vigilantes do Peso Felino
:: Um ano do gato que eu não sabia que precisava
:: Dia de levar o pet ao trabalho
:: Ele não quer uma casa, quer uma família
:: Quando as Cataratas do Niágara visitaram Intrú
:: Um post mal-humorado fofo de Natal
:: O gato que só falta tocar a campainha!
:: Intrú adoeceu antes de ganhar uma casa
:: Ressurreição e mordidas literárias
:: Quase grudinho
:: Lado errado?
:: História de filme: a vida dupla de Intrú!
:: Agressividade por frustração?
:: Garoto propaganda do boletim +Gatoca
:: Um bicho que quebra expectativas (e outras coisas)
:: Intrú conseguiu morar dentro de casa ― parcialmente
:: Por que gato não deve ir para a rua, nem no interior
:: Destruiu o estúdio e se jogou da janela
:: Dois anos do frajola que ninguém quis
:: Amores brutos
:: A gente veio aqui para beber ou se banhar?
:: Descobri por que Intrú atacou meu rosto!
:: Relacionamento tóxico com o gato
:: Gato come plástico para salvar a própria vida

4.6.26

O fim de uma Era

Quando adotei o Mercvrivs, convencida pelo Eduardo, eu dormia em uma cama de solteiro, no casarão de São Bernardo abandonado precocemente por meus pais, tentando ser porto-seguro para os irmãos mais novos, pagar os boletos sem desistir do jornalismo e acertar o arroz (com receita).

Me faltava tempo, dinheiro e paciência para um animal de estimação. Mas era o Mercv. E, mesmo tendo ameaçado devolvê-lo, chorei no veterinário com a possibilidade de perder o filhote que saía carimbando cocô pela sala. Começava ali a mudança que daria a cor das próximas duas décadas e meia.

O gato virou gangue, que virou blog, que virou trabalho. Edu virou amigo e Leo virou amor — contrariando o desfecho esperado para a louca dos gatos. Os irmãos viraram adultos, o casarão virou apertamento, São Bernardo virou Sorocaba e Sorocaba virou Araçoiaba.


Eu, que só passeava no concreto, vim morar no meio do nada para os bigodes terem jardim de novo. E levei a sério a recomendação de casar com alguém que ajudasse a esconder um corpo. Leo escondeu nove — tarde da noite, com chuva, espetando no barro o tripé de luz da fotografia.


No nosso Cat Sematary, ainda falta o Simba, mas decidi esperar aos rabos-de-gato crescerem para libertar as cinzas — foi sua morte inesperada, em 2016, que me tornou especialista em doença renal (e a maior divulgadora das seringadas de água).


Acordar com a casa mais quieta do que o cemitério, onde os passarinhos disputam para desenterrar nossas sementes, me roubou uma madrugada extra, das tantas que dediquei à Jujuba — ansiedade pela solidão, pelos projetos se debatendo na gaveta há tanto tempo, por não poder mais atropelar o luto com a rotina (alarmes para voltar da rua, seriados de 20 minutos pausados na metade, a última a tomar café da manhã, a última a chegar na cama).

Edu me convenceu daquela primeira adoção dizendo que nem perceberia a existência do Mercv ─ um filhote que não brincava, não miava, mal saída da caixinha. E cá estou relendo o mesmo livro, Belas Maldições, só que para o Cluboca, um dos muitos desdobramentos da decisão mais irracional e afortunada que tomei na vida. O primeiro agradecimento dos créditos, portanto, não poderia ser para outra pessoa.


Sem o Leo, acolhedor nos piores momentos de angústia (mudanças, soros e despedidas), eu provavelmente teria me fundido à mobília do casarão. Maru e Edu (não o ex, o veterinário) garantiram a longevidade invejável dos bigodes. João cuidou da parte técnica do blog, Mari virou porto seguro. E a AGD, irmandade de 30 anos, me deu o descanso mais sensacional com que uma pessoa que nem bate e volta para a praia consegue mais fazer podia sonhar (soon!).

Depois de duas décadas de dedicação aos gatos, entreguei minha carta de aposentadoria. Mas Chicão tinha outros planos. Aguardem a segunda temporada de Gatoca!

31.5.26

Saudade (o fim de uma Era?)

Esta é a primeira despedida que começa em um post de aniversário ─ e vai terminar no próximo post. Só percebi com ele escrito, mas na vida real não perdi uma pista: quando começou a sobrar cada vez mais ração no pote e menos peso na balança, o último dia em que você desceu para xeretar o estúdio do Leo e voltou correndinho pelo gramado (27 de abril), a última vez em que subiu nas prateleiras para tomar sol (12 deste mês).

E na segunda roubou o último carinho no lavabo, enquanto eu fazia xixi grogue de sono, na quarta não quis mais lamber o sachê da madrugada na colher, na sexta arriscou os últimos passos. A experiência de ter apenas um gato é muito louca! Todos os cocôs e vômitos só podiam ser seus e davam inveja, para uma renal de 19 anos. Você morreu com as mucosas coradas.

Acho que posso dizer de velhice porque, afinal de contas, de velhice mesmo ninguém morre ─ algum órgão precisa parar de funcionar. Gosto da ideia da vela se apagando, privilégio com que Keka também contou, mas, no seu caso, parece que alguém esqueceu uma fresta de janela aberta e sobrou um finalzinho de pavio sem queimar.


De manhã, você até arrumou forças para pular no sofá, ignorando a escadinha improvisada. E ficou pendurada pelas garras no cobertor, porque as patas traseiras já estavam escorregando para os lados, como nas dancinhas do Axl Rose. Passava, então, uma eternidade imóvel e do nada se punha a desequilibrar pela casa, como a criatura do Frankenstein ─ só faltavam os raios.

Escrevo chorando, mas sei que ainda vou rir desses momentos. Como rio de ter te batizado de Vaquinho e mudado para Jujuba ao descobrir que era menina. Ou quando lembro do seu jeito maluco de usar o primeiro bebedouro elétrico ─ revisitado nesse finalzinho, com empoleiramento, cabelo molhado e competição de remo. Dizem que idosos voltam a ser crianças, né?


A gata que rasgou meu braço para fugir da caixa de transporte, inventou o carinho Playcenter, demorou 13 anos para ronronar e só aceitou colo aos 18, partiu deitada no meu peito, após 18 meses de tentativas de substituir o calor da gangue com caminha de tubarão e tapete térmico ─ os encardidos vivem mais para compensar os cafunés que deixaram de ganhar, Guebis estava certa.

Chicão, em descrédito com Leo, até providenciou sol. Acontece que você não morreu sozinha ─ levou contigo duas décadas e deixou dez lutos. Eu continuo acordando no nosso horário, passo pelo lavabo vazio, não dou sachê para ninguém no sofá. Pela primeira vez, nos últimos seis anos, não posso pausar a tristeza com os cuidados da próxima despedida.

E não sei o que fazer com o tubarãozinho.

22.5.26

19 anos de Jujuba

Eu não imaginava que ela iria tão longe, assustadinha, antissocial, desfalcada de família. Depois, comecei a acreditar que iria ainda mais longe. Agora, represo para adequar expectativas, porque a magrela passou a viver em câmera lenta ─ a alimentação, a caminhada, o silêncio substituindo os miados, como naquelas cenas que antecedem o momento de chorar nos filmes.


Faço carinhos cada vez mais leves, acordo cada vez mais vezes, registro tudo, mesmo sabendo que não será igual. Nunca mais. A última a menos.



*Novelinha: conheça a história das Gudinhas

Outros aniversários: 2025 | 2024 | 2023 | 2022 | 2021 | 2020 | 2019 (especial Dia do Abraço) | 2018 | 2017 | 2016 | 2015 | 2014 | 2013 | 2012 | 2011 | 2010 | 2009

9.1.26

2025

Eu podia estar na piscina, lendo na rede ou sendo devorada por formigas em um piquenique, mas estou aqui, lutando contra a epopeia de asfaltamento da prefeitura para escrever esta retrospectiva ― em vez de oferecer o sossego das cidades rurais, Araçoiaba da Serra surpreende com dengue + dez meses de obra, sem conseguir concluir sete quarteirões.

2025, porém, foi o primeiro ano em que nenhum integrante de Gatoca morreu e, para quem teve as expectativas dos últimos quatro réveillons destroçadas, considero que saí no lucro ― se chegar a 22 de maio, Jujuba fará 19 anos! Os 18 ela completou inteiraça. Até pediu o primeiro colo!

Só não sei quais crimes a privação de sono me levará a cometer ― a caminha de tubarão contornou bem a miação de madrugada, mas ainda acordo entre 3h e 5h para dar o sachê, na esperança de evitar os vômitos ornamentais da doença renal.


Este blog também comemorou a maioridade, com esquenta ― quantos projetos vocês conhecem que resistem desde 2007? E gente que não gostava de gatos e passou duas décadas cuidando de uma centena deles? ― em junho visitei o Snow, doado em 2010!

Agora, a versão para celular permite encontrar as informações de um jeito muito mais fácil, graças ao menu sanduíche programado pelo Beto e à busca parida na força do ódio por quem só cursou técnico em processamento de dados porque as outras opções eram mecânica e eletrônica.

As amigas dessa época seguem amigas, aliás, e vieram festejar meu aniversário, pós-faxina descarrego para encerrar a repetição de um 2020 da marmota ― só não funcionou com o celular da Samsung, que estufou com um quarto do tempo que durou o iPhone anterior (nunca mais!).

Leo e eu também quebramos o ciclo de mudar de casa a cada quatro anos ― e finalmente instalamos a rede e a porta do banheiro! O que não podia ter quebrado era a validação da autoridade do Gatoca pelo Google, que mostrava nossos posts nas primeiras páginas, rendendo texto com mais de meio milhão de visualizações.


Para ampliar, cliquem na imagem

Só que a Hostinger tirou o blog do ar por injustificáveis 27 dias, desindexando-o do buscador, deixando milhares de tutores e seus animais sem ajuda e nos fazendo perder apoiadores essenciais para a gincana dos boletos ― a sentença do Juizado Especial Cível saiu nove meses depois, com uma indenização irrisória.

Mas vou continuar gastando canetinha neste planeta árido e botando vocês no Gramado da Fama ― com os programas de afiliados, dá para apoiar o trabalho sem tocar na carteira! O Focus, que compete em idade com a Jujuba, agradece. Assim como Chicão, que me salvou de ficar sem embreagem na estrada. rs

Nossa comunidade é maravilhosa, com direito a amigo secreto de talentos ― nesta edição, transformei a gangue da Paula em livro para colorir. ❤️ E passamos mais um Natal com quem importa. Os laços ainda se estreitaram com o Cluboca do Livro, projeto de que morro de orgulho.

A gente leu e discutiu O Mestre e Margarida, fantasia satírica do russo Mikhail Bulgakov, Um Homem Chamado Ove, comédia dramática do sueco Fredrik Backman, Um Gato Entre Pombos, mistério de detetive da inglesa Agatha Christie, Felinos e Macabros, coletânea de contos de suspense de autores como Edgar Allan Poe, H. P. Lovecraft e Bram Stoker.

Já está agendado, inclusive, o encontro de Diário dos Gatos Yon & Mu, mangá fofo do mestre do terror Junji Ito. Nosso diferencial são, claro, os gatos ― como personagens, no título da obra, ilustrando a capa ou na biografia do autor. E procuro sempre equilibrar escritores homens e mulheres, sem repetir os países nem os gêneros literários.

Nesta retrospectiva, não poderiam faltar os clássicos posts de serviço, sobre os perigos do tapinha na bunda, agressividade por frustração, miados de madrugada, brinquedinhos automáticos, colher com balança para ração, potinhos e hipertireoidismo, enriquecimento alimentar e comedouros interativos, como cortar unha de antissociais, quantas palavras um bichano entende, como usar a IA para cuidar melhor do seu amigo.

E a continuação da série inspirada em O Encantador de Gatos, bíblia do Jackson Galaxy, com os capítulos sobre gatificação: mundo vertical e autoestradas, relógio solar e TV felina, necessidades especiais e mapa da gatice, ferramenta queridinha dos especialistas em comportamento para acabar com a destruição de móveis e disputas de território.

Como os algoritmos das redes sociais entregam conteúdo orgânico para cada vez menos gente, vocês garantem não perder nada assinando nosso boletim (gratuito), de casa nova no Substack. Por falar em casa nova, Intrú ainda não ganhou a ele.

Até descobrimos que tinha uma família bastarda, mas era inadequada como a nossa. Aí, ele ficou doente, seguiu brigando com os intrusos que o sucederam, fez mais inimizades pelo bairro, cavou um cantinho no estúdio do Leo, surtou preso com o temporal e veio para a lavanderia, completou dois anos me roubando sorrisos, sem sensibilizar ninguém.


Que 2026 seja onírico ― porque isso significará que consegui voltar a dormir e que a gata de dentro e o gato de fora estão bem.


Retrospectivas dos anos anteriores: 2024 | 2023 | 2022 | 2021 | 2020 | 2019 | 2018 | 2017 | 2016 | 2015 | 2014 | 2013 | 2012 | 2011 | 2010 | 2009 | 2008 | 2007

2.12.25

20 anos de gatos (para quem não gostava de gatos)

Há duas décadas, eu equilibrava nas mãos o filhote que ia desequilibrar minha vida ― aquela garota de 25 anos que não curtia animais se dobrou a um gato comum, de pelo caspento, com o olho esquerdo eternamente melecado. E colecionou uma gangue, desempoeirou um blog, tropeçou protetora, terminou vegana.

Mercvrivs virou saudade em 2022 e cá estou chorando outra prestação de um luto impossível de pagar à vista. Por trás de um bigode ordinariamente frajola, teve uma existência inteira ressignificada. E projetos. E amigos. E histórias de amor.

Obrigada, Edu, por insistir para a gente abrir a janela e deixar o sol entrar. Leo, por entender minhas ausências ― e por todos os soros, o gatil dos sonhos, oito covas. E a vocês, por continuarem aqui. ❤️


Mercv com 52 dias, Jujuba chegando aos 19 anos

7.2.25

2024

Pessoas de humanas podem sonhar com licença poética. Mas também se estabacam de mais alto. Sim, eu sabia que os gatos tinham envelhecido, só que, na minha cabeça avessa à matemática, era perfeitamente possível perder um por ano, intervalo confortável para tirar o atraso do sono, recuperar o peso, voltar a enxergar beleza na vida.

E se, em 2023, já havia me despedido de três bigodes (Guda, Pipoca e Pufosa), neste 2024 não só enterrei mais três como os cuidados se sobrepuseram. Chocolate melhorava e piorava da ataxia, enquanto Keka oscilava com os desdobramentos da doença renal e Pimenta tratou de sofrer uma reação alérgica a picada, furando a fila (além de me deixar em negação) ― Choco partiu três meses antes, Keka quatro depois.

Foram tempos tão devastadores que custei a juntar coragem para enfiar o dedo nesta retrospectiva ― notei, inclusive, que só um post entrou para a categoria dos divertidos: a brincadeira com a oficina de hot para gateiras (Quadrilha escatológica e Gato velho pode tudo até tentaram, mas acertaram no pierrô).

Eu sentia era vontade de escrever sobre as mudanças que se atropelavam ― comigo, com a rotinha da casa, com as meninas. Gatoca primeiro se tornou PB, depois deixou de ser gangue, até que sobrou apenas Jujuba, selvagem como a natureza abandonada do gatil. Assim que consegui respirar, aliás, me pus a refazer os jardins, organizar coisas acumuladas, encher sacolas de doação.

A batalha para ressignificar o ano, com faxina descarrego de quem finalmente viraria de 2020 para 2025, amigo-secreto do Cluboca e amores de três décadas, só não alcançou 100% de sucesso porque a Samsung quase explodiu meu celular e Jujuba, sozinha pela primeira vez, decidiu que eu não precisava mais dormir.

Foi inevitável, inclusive, transformar o blog em um repositório geriátrico: pele flácida (velhice ou desidratação?), vômitos e dicas que ninguém dá, truque para quem não come comida velha, como medicar gato tranquilo e bichanos difíceis, quanto demora para o soro fazer efeito, suco para animal debilitado, inalação amigável, como cortar comprimido (sem esmigalhar), quando vale a pena manipular, reforço alimentar na seringa.

Mas não deixei de produzir conteúdo para as outras faixas etárias (e seus humanos) também: emergência com gatos (sensibilizada pela tragédia do Rio Grande do Sul), quando correr ao veterinário, como os peludos enxergam, explicações para "fantasmas", funções da língua áspera, personalidade ideal (teste), melhor piso, por que eles jogam coisas no chão, escova para aventureiros, versão que solta vapor, por que vídeo de gatinho faz bem à saúde.

E a série inspirada em O Encantador de Gatos, livro do Jackson Galaxy, ganhou outros nove capítulos: sobre curiosidades felinas, dominância, importância dos três Rs, jeito infalível de brincar, como alimentar a gatitude, limpeza e sono felinos e gatificação (lugar para onde voltar, arranhar sem destruir, planejamento urbano antitreta).

Não faltaram, ainda, as clássicas comemorações: o último aniversário da ranhetinha e da parte mais longeva das gudinhas, os três anos de Araçoiaba da Serra, o quase-aniversário e o 17º aniversário do Gatoca, o Dia Internacional da Maquininha de Ronrom. E o casamento, esse inédito, da minha primeira amiga gateira.

A criatura que mais roubou sorrisos no recinto, porém, foi o frajola que não pode entrar ― e de quem eu nem sabia que precisava. Os 20 posts renderam uma tag nova, só para ele: férias do Intrú, o que acontece com bicho que vai para a rua, procuram-se madrinhas, madrinhas conquistadas e um chalé, 59 dias sem acidentes, brinquedinho fracassado, desaparecimento (teste)...

...pãozinho no cobertor (vídeo), o primeiro colo, a primeira ioga, a primeira caçada sem mortes, desafio de aquecer do lado de fora, Vigilantes do Peso Felino, quase atropelamento, Airbnb de saruês, pet no trabalho, procura-se família desesperadamente, visita das Cataratas do Niágara, texto mal-humorado fofo de Natal.

Para fechar na alta, o projeto contou com a parceria da Ana Roxo, juntando felinos, arte e lubrificação ocular, além da menção carinhosa no canal de 65 mil seguidores. E teve o lançamento do nosso Cluboca do Livro diferentão, com o best-seller japonês Vou te Receitar um Gato, de Syou Ishida, e participantes de vários estados do Brasil (+ Canadá) no encontro de discussão.

Que 2025 seja de balanço na rede ― porque isso significará que conseguimos finalmente instalar a rede, que sobrou tempo para balançar, que o gorducho realizou o sonho da casa própria e que Jujuba continua se equilibrando em duas patas para ganhar sachê.


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6.12.24

Quem cuida dos cuidadores?

Jujuba já tinha assumido o papel de enfermeira de Gatoca ao aconchegar a mãe e as irmãs enquanto morriam.


(Pipoca e Pufosa com dois dias de diferença, exigindo malabarismos de todos os envolvidos.)


Mas eu não imaginava que não desgrudaria também da Chocolate, que deixava clara sua preferência por não trocar calorzinho com ninguém ― a gente tirava a bichinha de perto e ela voltava, feito iôiô.


E, quando chegou a vez da Pimenta, comecei a me preocupar: quem cuidaria da malhada?


Claro que ela tem a mim, mas não é a mesma coisa ― poder desligar do mundo colada a um corpo quentinho e peludo, que só sairá de perto depois de você.

Exatamente como aconteceu com a Keka.


Pela primeira vez sozinha em 17 anos e meio, Jujuba se aproximou mais de mim. Na hora de dormir, porém, se encaixa entre as almofadas do sofá, onde antes existiam outros nove gatos, e meu coração engasga.

6.11.24

Saudade

Ainda não acredito que você e Jujuba, as irmãs mais ariscas da ninhada parida em casa, ficaram por último ― 17 anos e 5 meses e meio, no seu caso. E que a frajolinha assustada que criou asas para grudar no teto de tela, em Sorocaba, quando o entregador passou com as telhas pelo quintal, terminaria no colo. Ronronando.


Leo dizia que você tinha cara de brava, mas a culpa era do cavanhaque. Você sofria de timidez ― aparecia pouco no blog e, mesmo assim, virou folder, lembra? Gostava de ficar no modem quentinho durante o inverno e embaixo do edredom no calor de 32ºC.


Em Araçoiaba, porém, brilhou ― para além do pelo impecável. Com 16 anos, enfrentava a ponte bamba do parquinho vertical (que nos rendeu uma obra) para procurar croquetes, ganhando o apelido geriátrico de Cocreta. Caçou seu primeiro insetinho (pobre grilo). E aprendeu a miar na porta do quarto quando perdeu metade da família biológica.


Aqui também sofreu o ataque do Intrú no gatil e tudo desandou. Entre o abscesso de agosto de 2023 e os vômitos de sangue (as diarreias explosivas viriam depois), comecei o rascunho desta despedida. O arquivo marcava 28 de fevereiro!

Como no dia em que escapou da mordida do Marley andando pelas paredes de São Bernardo, hábito "Matrix" que levaria contigo em todas as nossas mudanças de cidade, você fugiu da morte desviando pelas paredes metafóricas de 2024 ― enterrou Chocolate e Pimenta, que nem ruins estavam, apesar de renais.

E demandou uma jornada quase integral de cuidados, que eu constatava sempre que recebia o relatório do celular ― Youtube para as tarefas mecânicas, WhatsApp para conversar com o veterinário, alarmes para encaixar a rotina em blocos de 40 minutos (os intervalos das seringadas de comida).


Se o ataque do Intrú acelerou sua partida, ele se redimiu emprestando a energia que faria falta à Jujuba, porque você passou a dividir a porta de vidro da lavanderia com o gorducho ― só que do lado certo. E Jujuba acolhia seu 1,7 kg nas madrugadas.



Em um momento, a derrota parecia iminente, no outro você ressuscitava para perseguir um lagartinho no terreno. Desencanei da alopatia, do soro e enchi o armário do lavabo, aquele cujo barulho te fazia vir correndo, com sachês gordurentos, que segui batendo no blender ― dá para acreditar que não aceitava bem a ração úmida antes?

E assim você foi apagando no seu tempo ― a doença renal crônica não conseguiu te desidratar, deixar o hálito fétido ou roubar o apetite amarelando as mucosas. Mas causou um déficit metabólico que tornou os nutrientes da última semana inúteis.

Insegurança na caminhada, xixi fora do banheiro (que você já confundiu com restaurante!), meio pacote de fraldas de bebê ― e miadinhos (que agora me desmontam como alucinação auditiva) para virar de lado no sofá, ganhar mais comida ou uma forcinha com o cocô.


Ontem de manhã, quando o sol rasgou uma trégua nos dias chuvosos, senti que estava esperando para se despedir do jardim. E testemunhei uma última ressurreição:



Você travou a boca para o sachê favorito, conquistou o direito de dormir na cama com minha alergia a gatos (Jujuba de vigília na porta) e, às 2h, amolecida no meu peito exausto, esticou determinada os bracinhos para o alto, como se abraçasse alguém, depois apertou-os contra minha mão.

22.7.24

Saudade

Este post deveria ter sido escrito no dia 20, mas, pela primeira vez, de oito, não consegui (e atualizei nos dias 23 e 24, com fotos que haviam ficado de fora)

Lembro de encher o cabelo da Mari de marias-chiquinhas e passear orgulhosa de mãos dadas com ela, como se fosse minha filha ― não tem nem três anos de diferença entre nós. De 1995 a 2003, passei pomada em dezenas de hematomas de quimioterapia e exames da minha mãe. E só aceitei revezar as madrugadas de hospital com meu pai, na última internação, quando acordei de um desmaio com ela me segurando no banheiro junto com o cabide de dreno, soro e medicações.

Meu pai, a quem depois ofereci acompanhar nos alcoólicos anônimos, mentindo que também exagerava na bebida, só para encorajá-lo. Por causa deles, a morte e o vício, assumi a casa e os dois irmãos aos 23 anos, João com 16. Aprendi que amaciante não se enxágua, acumulei boletos, participei de reuniões de escola, dei conselhos sobre sexo.

Sou uma pessoa que cuida.


E ri quando Maru te identificou como minha gata de cura, dado o exagero dos bigodes, que quase se tocavam nas pontas. Fazia todo o sentido compartilharmos a alergia respiratória ― ainda que você também interpretasse o papel de alérgeno, rs. Seus superpoderes sempre reconheciam um coração precisando de aquecimento.




Foi um choque te ver tombar em dois meses e meio tudo que não havia envelhecido nos 17 anos anteriores, justo porque resolveu caçar uma aranha (ou qualquer bicho de fora da sua caixinha de brinquedos), responsável pela reação alérgica que colapsou de vez os rins ― em algum momento, precisarei lidar com essa caixinha, já que são raros os gatos autobrincantes. Mas não hoje. Por isso, inclusive, atrasei este post em dois dias.


Sem você aqui para lamber meus cabelos, tomei como remédio a visita mediada pelo pessoal do Museu de Imagens do Inconsciente à exposição da Nise da Silveira, lembrança dos tempos de curso do Jung na PUC. Leo, que não tem minha facilidade com as palavras, fez hambúrguer para o almoço, pizza para o jantar e nem me julgou por comer lasanha no café da manhã. Li comédia romântica na cama até mais tarde, maratonamos um seriado da terceira idade ― mas eram ladras!

Agora, preciso arrancar o band-aid.

Você protagonizou a clássica jornada do herói, na versão Pixar. Antes mesmo de enxergar, recém-nascida, já estava liderando a aventura de desbravamento pela lavanderia do casarão herdado, que fez despencar degrau abaixo suas quatro irmãs. Não tinha nome melhor do que Pimenta! ― quer dizer, Mariana te apelidou de Devedora Temedora, o que também fazia jus. Era a única integrante da família Guda que eu sempre soube que não doaria.


E o miado fininho enganava. Lembra quando deu um baile na faxineira e fugiu pela amoreira do jardim de inverno, que deveria ficar fechado? Ou do contorcionismo para caber nas gavetas? E quando Intrú invadiu o gatil para bater na Keka e você o botou para correr? Depois, Leo ainda esqueceu uma porta aberta e precisei separar você e o frajola duas vezes maior, engalfinhados embaixo do contêiner, a gritos.

Claro que a gata de pelo longo tinha de ser a mais bagunceira. Cheguei a pegar uma lesma ressecada na sua barriga! E perdi a conta de todas as vezes em que você caiu da prateleira rolando empolgada ― o que também fazia no banheiro. Prateleira da parede customizada com catarro, aliás, que a gente não vencia de limpar. Até dormindo você parecia combater o crime ― sempre imaginava um narrador bradando: "Para o alto e avante!".

E bastava esticar o tapetinho de ioga no chão para sua cara se materializar na minha, dando sequência a uma sucessão de espirros.


Quando Leo descia para o estúdio, você ia correndo na frente ganhar carinho de bunda no tronquinho feito justamente para vocês ― ele não chorou como eu, mas sei que ficou abalado porque passou a matar todas as aranhas que encontrava pelo caminho (em casa de vegano, até barata a gente espanta).


Acho que você foi quem mais aproveitou o gatil de Araçoiaba, curtindo o catnip úmido nos dias secos, adubando o resedá organicamente, se escondendo na cinerária, que partiu junto contigo ― no apertamento de São Bernardo, onde a alergia respiratória começou, tinha de se contentar com um vaso de suculentas e, em Araçoiaba, o gramadinho era quase cenográfico.


Para compensar as inalações, passei a te levar para passear pelo terreno, proibido aos gatos que conseguiriam escalar 2 metros de muro. Mesmo desequilibrando, você adorava xeretar a bagunça da oficina. Depois, retomava o fôlego nos bambuzinhos ao lado e rumava para as bananeiras, onde se metia embaixo de uma folha de costela-de-adão, sob a taioba ― três camadas de disfarce!



Na tarde de quinta-feira, se pôs a miar na porta de vidro da sala, pedindo para sair, coisa que não acontecia há tempos. Andou com dificuldade, fazendo mais paradas do que o normal, como se se despedisse. Na sexta, te levei no colo para baixo da taioba, aquela sob a bananeira, para ser nossa despedida, foto que abre este post ― não consegui entrar embaixo da costela-de-adão, desculpa.

Você não seria uma velhinha de pijama, né?

Te ajeitei no quarto, para monitorar de perto, mas percebi a inquietação. Imaginei que preferia passar a madrugada no montinho felino, ainda que desfalcado, e te devolvi entre Jujuba e Keka. Acordei às 3h, com Jujuba vomitando no corredor, e você já tinha ido ― só esperou terminar o aniversário da dona Vera. Sozinha, do mesmo jeito que nasceu, porque eu não sabia que um parto animal podia dar errado.


Me doeu te recolher ainda molinha do chão gelado. E, pela primeira das oito mortes, chorei de culpa ― 36 minutos, até pegar no sono com seu corpo ao pé da cama. Sonhei, então, que você levantava e vinha se aconchegar no meu colo. Eu dizia que isso não podia acontecer porque estava morta, mas te enchia de carinho. Só um instantinho, que fez muita diferença.

Obrigada por cuidar de mim, mesmo quando essa era minha função. ❤

*

Preciso agradecer ainda o Dr. Nivaldo, que em 2008 aceitou hospedar a pastora belga grávida recém-resgatada por uma desconhecida, com toda a cara de golpe, acabou virando amigo e mesmo aposentado em Brotas me aconselhou sobre as possibilidades de tratamento para a Pips no final. O Adriano, terapeuta que também tenho o privilégio de chamar de amigo (foda-se Freud), por me ouvir falar do mesmo assunto há 52 sessões. E a Liliane, apoiadora querida que ainda me paga para escrever por fora, que nunca cobrou aqueles textos não entregues.

18.4.24

Saudade

Esta é uma história sobre escolhas. Começou no dia 14 de fevereiro de 2007, quando João te encontrou pequena, rabinho quebrado, o clássico nariz de chocolate que viraria nome, lembra? Eu escolhi te deixar para adoção no pet shop, porque acreditava que não daria conta de cuidar de quatro gatos. Mas a gaiola estava lotada e não voltei na semana seguinte.

Você poderia ter tido uma família mais exclusiva ― não só dei conta de cuidar de quatro gatos como de cinco, de sete, de dez (e algumas dezenas de temporários). Geniosa, ficava na ponta mais afastada do montinho felino ou reinando exclusiva na estante do escritório, em sua almofada de joaninha ― que nos acompanhou por três mudanças, ganhou uma cestinha, um remendo à la Tim Burton e só aposentou com a cama nuvem, depois de uma tentativa fracassada de roupinha.


Em Sorocaba, escolheu a lavanderia, menos disputada, para chamar de sua. Eu achava que era por causa da estante, aquela que ficava no escritório de São Bernardo, mas você gostava mesmo é da caixa suja do aspirador de pó ― e continuou gostando aqui em Araçoiaba. Da lavanderia, da estante, da caixa suja do aspirador de pó.

Já para Guda nunca deu bola ― e ela tentou até o fim, um ano atrás. Como pode caber tanta rabugice em uma gata-anã, que pesou 2,5 kg praticamente a existência inteira (até perder 900 gramas nos dois últimos meses)? E que roubava glutadela com esta carinha. E miava feito cabrita, soltando barulhinhos onomatopeicos quando subia nas coisas, pulava no chão, percebia nosso toque, bebia água, mastigava a ração.

Aí, escolhi cuidar do Intrú, que não tinha a sorte de morar do lado de dentro da porta de vidro de alguém e resolveu montar acampamento bem do lado de fora da porta de vidro da sua lavanderia ― fiz justiça gastando a maior parte dos lencinhos umedecidos dele com você. Veio, então, a ataxia, a cistite e os sintomas respiratórios, uma possível artrose, um possível trombo, a apatia.

Eu não sabia se sentia dor ou estava só sendo ranheta você ― esperei sete anos para te ter enrodilhada no colo. Se a pele flácida era de desidratação ou velhice. Se voltaria a afiar as garras no tronquinho do gatil ― três meses antes, você caçava animada os croquetes no parquinho! O raio-x indicou apenas problemas na coluna pela idade. Mas você, sempre sem parada, seguiu aquietando ― e Jujuba insistindo em ficar grudada.




Achei que não passaria de sexta ― a do dia 29 de março! E escolhi parar a vida. Botei fraldinha, liberei o quarto para dormir, aquele em que você nunca pôde entrar porque tenho alergia a gatos, comecei a te carregar por todo o lado para garantir que não cairia. Mas você não morreu. Ficou presa em um corpinho que não funcionava direito ― hidratada, com as mucosas coradas, olhos brilhantes (os mais lindos de Gatoca), sem qualquer episódio de vômito ou diarreia.




Como não conseguia mais chegar sozinha no jardim, te ajeitei no catnip só para voltar com formigas na cabeça e uma lesma entrando na boca. Pensei em parar sua vida. Eis que você adorou o suco de maçã. De manhã, acordava com a carinha colada à minha, não importava em que posição te colocasse. E sonhava loucamente.


Escolhi continuar. E também sonhei: você encostava a testa na minha e pressionava nossas cabeças uma contra a outra com as patinhas. Parecia uma despedida. Quando um dos dentes se pôs a sangrar, escrevi ao veterinário da cidade perguntando sobre a eutanásia. Só no consultório.

Em vez do terror da viagem de carro pelas estradas de terra esburacadas, escolhi te levar no sling improvisado para um último passeio pelo bairro, que você sorveu com os faróis ainda mais gigantes, cada folha, cada bicho, cada portão ― surda há uns dois anos, os cachorros latiam no vazio.



De segunda para cá, a dúvida foi me consumindo: havia algo mais para aproveitar? Será que eu tinha passado do ponto? Nesta madrugada, você arrumou um jeito de me confortar. Ignorando quaisquer limitações neurológicas, deitou no meu peito e só percebi quando acordei pela primeira vez ― na segunda, você estava encaixada entre minhas pernas, como um pacotinho.




Partiu na sua inseparável cama nuvem (como encará-la desocupada?), enquanto ganhava um cafuné com a mão que não estava tentando responder os e-mails atrasados.


Não te dei uma família exclusiva, mas garanti 17 anos e dois meses de presença, trabalhando em casa muito antes de o home office ser moda. E uma aposentadoria entre capuchinhas e passarinhos, mudando para o interior de aluguel e tomando um golpe da empresa de contêineres.


Podem ter sido escolhas inexperientes, de gateira de primeira viagem, e desajeitadas, de quem tantas mortes depois ainda não aprendeu a perder. Mas você sabe que foram as melhores que consegui fazer, né?