A ideia era escolher um dos 11 volumes de
Macanudo publicados no Brasil, mas quem resiste a um quadrinho que junta coelho escritor, frajola com nome de cineasta italiano, pinguins ativistas, criança com questões existenciais, amigo imaginário sem gênero definido, duendes usando chapéus de pompom e uma figura misteriosa com nariz de cenoura?
Acabei comprando o primeiro e o especial de dez anos, para juntar com o quarto e o quinto, lembranças da exposição do Centro Cultural Correios, em julho de 2015, quando assisti ao Liniers compartilhar sua euforia numa folha em branco gigante ─ e comi algodão doce com a
Amanda, que vocês acompanham por aqui há duas décadas.
Para ampliar, cliquem nas imagens
Ricardo Liniers Siri nasceu na Argentina, tem parentesco com um vice-rei fuzilado e, para a nossa sorte, não seguiu a carreira de publicitário. Aos 29 anos, encarou a crise política e econômica de seu país, a tensão mundial pós-ataque terrorista às Torres Gêmeas dos Estados Unidos e decidiu que os leitores de jornal mereciam "uma pequena carícia".
Por indicação da quadrinista
Maitena, suas
tirinhas "bacanudas" (em um misto de tradução livre e licença poética) começaram a sair no
La Nacion, chegando ao Brasil em 2009 pela
Folha de S.Paulo. De lá, tirei esta confissão: "Meus quadrinhos têm uma alma meio tangueira, uma coisa argentina de alimentar frustrações. Queremos ser pentacampeões, e isso nunca acontece. Queremos ter políticos honestos, e eles não aparecem".
Identificação explica o sucesso bananeiro da HQ, marcada pelo
non sense e mais necessária do que nunca.
Michel Gherman, professor de sociologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, diz que o
fascismo odeia o abstrato porque vem acompanhado por alteridade e pensamento crítico ─ compreender o outro exige a capacidade de imaginar uma realidade diferente da nossa. "Um mundo somente literal é um mundo militarizado".
No
encontro, cada participante mostrou suas tirinhas favoritas e compartilho as minhas aqui, para vocês também se divertiram com os personagens líricos, melancólicos, reflexivos e amalucados do Liniers ─ que se desenha como um
coelho, estratégia para ajudar a rir de si mesmo. Ele desconhecia o
alter ego leporídeo de Matt Groening, mas recebeu a benção oficial do criador dos
Simpsons quando sua cunhada passou a namorá-lo.
(Referência à comédia de ficção científica O Dorminhoco, sobre um dono de loja de produtos naturais e aspirante a músico de jazz que acorda do congelamento sem consentimento em um futuro distópico, onde os dissidentes têm seus cérebros eletronicamente simplificados.)
Fellini homenageia o diretor italiano Federico Fellini e divide suas aventuras com
Enriqueta, uma garota introvertida, meio filósofa e apaixonada por livros.
Olga, um monstro azul e peludo, aparece apenas para Martinzinho e, contrariando a expectativa do autor, virou um dos personagens mais queridos do público ─ Liniers pretendia desenhar um boneco que protegesse o garoto, como o Han Solo de sua infância, só que não conseguiria pagar os direitos autorais ao George Lucas.
O
Misterioso Homem de Negro brinca com os clichês visuais do mistério, em contraste com situações banais. "Fiz num dia em que estava me sentindo esquisito, pus nele capa e chapéu para ficar elegante, mas não achava que iam gostar, porque suas histórias não se fecham."
Os
pinguins (e outros animais) traduzem sentimentos puros e o estranhamento do cotidiano, com uma boa dose de crítica social.
Já os
duendes exploram o absurdo e o encantamento, isentos de qualquer racionalidade.
Tem, ainda, as tirinhas com
famosos, como Picasso.
De
formatos experimentais.
E que funcionam como
chacoalhões amorosos.
Discussões anteriores
::
Vou te Receitar um Gato, da japonesa Syou Ishida
::
O Mestre e Margarida, do russo Mikhail Bulgakov
::
Um Homem Chamado Ove, do sueco Fredrik Backman
::
Um Gato entre os Pombos, da inglesa Agatha Christie
::
Felinos e Macabros, coletânea de contos de autores como Edgar Allan Poe, H. P. Lovecraft e Bram Stoker
::
Diário dos Gatos Yon & Mu, do japonês Junji Ito
::
A Mão Esquerda da Escuridão, da estadunidense Ursula K. Le Guin