O livro, em si, não tem a ver com os bichanos. Só entrou para o clube porque a autora, vencedora dos prêmios mais relevantes da ficção científica e da fantasia (Nebula, Hugo, Locus), os amava: "A presença de um gato me mantém em contato com o mistério, a irracionalidade, a beleza, a teimosia selvagem do mundo não humano" ─ ela chegou a escrever Book of Cats, um compilado de poemas e meditações sobre a "felinidade", sem tradução no Brasil, e Gatos Alados, série infantil focada no desejo de liberdade, respeito à natureza e à diversidade.

Última participação da Jujuba no Cluboca do Livro
Esses temas também aparecem em A Mão Esquerda da Escuridão. Ambientado no planeta Gethen, chamado de Inverno pelos terráqueos por sua temperatura hostil, o romance traz personagens andrógenos e sem sexo definido, que apenas durante o kemmer (e aleatoriamente) se tornam masculinos ou femininos ─ a mãe de uma criança é, sem qualquer estranhamento, o pai de outra. Não se tratam, porém, de habitantes neutros, enfatiza a obra, mas de potencialidades ou integralidades.
E essa característica biológica molda a cultura local, eliminando os papéis de gênero tradicionais e as estruturas sociais baseadas na desigualdade entre homens e mulheres. Visualizem o sonho: qualquer um pode exercer qualquer profissão, o fardo e o privilégio da gravidez são compartilhados, não há divisão da humanidade em metades forte e fraca, protetora e protegida, dominante e submissa, dona e escrava, ativa e passiva ─ nem estupro, uma vez que os gethenianos passam a maior parte do tempo assexuados.
Durante o kemmer, ninguém trabalha ─ chupa, Fiesp! E nunca fazem guerra. Moradores do reino de Karhide, monarquia baseada em honra e tradição, são condenados ao exílio, morrendo sozinhos de frio e fome. Já Orgoreyn, estado burocrático e autoritário, possui uma colônia penal sem muros ou grande aparato de segurança, pois o frio e o isolamento tratam de desestimular eventuais fugas. Em época de Guerra Fria, Le Guin critica as contradições de ambos os sistemas políticos em disputa.
O livro alterna capítulos narrados por Genly AI, emissário humano enviado por uma coalizão interplanetária para convencer Gethen a se unir ao Ekumen, permitindo intercâmbio político e tecnológico, e Estraven, primeiro-ministro de Karhide que o ajudará nessa missão. Mitos e lendas do planeta gelado incrementam a história, junto com relatos de pesquisadores de campo ― um deles acredita que os gethenianos tenham sido um experimento antigo da Terra.

A maior parte do romance, porém, descreve os quase três meses de travessia da geleira Gobrin, uma das regiões mais inóspitas de Gethen, quando Genly e Estraven passam a entender melhor a cultura um do outro (contornando uma angustiante tensão "sexual"), e precisei lutar para manter os olhos abertos ─ respeito máximo, porém, à habilidade da autora de usar a forma para reforçar o conteúdo.
Aproveito a deixa para falar de Le Guin. Filha do diretor do Museu de Antropologia da Universidade da Califórnia, não havia fonte melhor para formar sua bagagem como escritora, complexificada pelo taoísmo, o feminismo e as ideias de Jung, principalmente sobre os arquétipos. Isso lhe rendeu cinco obras rejeitadas por editoras, entre 1951 e 1961, todas consideradas inacessíveis. rs
Em 1968, na publicação de Nine Lives, a revista Playboy disfarçou seu nome feminino como "U. K. Le Guin", episódio sobre o qual lamentou: "Parecia tão bobo, tão grotesco, que falhei em perceber que também era importante". Nunca mais sofreu preconceito de um editor por seu gênero. Ainda teve peito para recusar o Prêmio Nebula de 1977, em apoio a Stanislaw Lem, que criticara a ficção científica estadunidense e demonstrara simpatia ao bloco soviético.
Em 2009, saiu da Authors Guild, organização de escritores, por colaborarem para o projeto de digitalização do Google, classificando a atitude como "acordo com o demônio". E condenou o controle que a Amazon exerce sobre a indústria editorial, durante a premiação de 2014 do National Book Award. Quando uma figura dessas morre (aos 88 anos!), não se espera menos do que Margaret Atwood discursando em seu funeral.
Com esse abre, espero que me desculpem pela demora para contar sobre nosso encontro, realizado no dia 12 de abril. 😊
A discussão começou com a interdependência dos opostos, proposta pelo livro, não só masculino e feminino, mas também calor e frio, vida e morte, e até a luz e a escuridão, expressas no título, uma alusão ao conceito taoísta de Yin e Yang, representando o equilíbrio entre as forças opostas e complementares que regem o universo. A autora explica com poesia:
A luz é a mão esquerda da escuridão
E a escuridão, a mão direita da luz.
Dois são um, vida e morte, deitados
juntos como amantes em kemmer,
como mãos unidas,
como o fim e o caminho.

Não passou batido, porém, a representação da androgenia de Gethen pelo pronome masculino ─ usado para se referir a um deus transcendente, por considerarem menos específico do que o pronome feminino. A escolha foi questionada à época por movimentos feministas e respondida por Le Guin em artigo: "Muitas mulheres queriam ir além, arriscar mais, explorar a androginia de um ponto de vista feminino também. [...] Acho que estavam certas em pedir mais coragem da minha parte".
E, para o texto não ficar gigante, encerramos falando sobre a colaboração, em vez da dominação, pouco comum na ficção científica estadunidense, que tende a retratar alienígenas como colonizadores, reflexo de sua sociedade ─ o Ekumen de Gently propõe troca, embora tivesse poder para conquistar Gethen.
Le Guin escreveu um ensaio maravilhoso que contesta a narrativa dominante centrada no "herói" e na "espada", chamado A Teoria da Bolsa de Ficção (1986), que li indicado pela Silvana Perez. Nele, a autora argumenta que a primeira ferramenta cultural essencial da humanidade foi uma bolsa (rede ou cesta) para carregar alimentos, não uma arma de caça ─ os veganos piram!
A maior parte da dieta humana na pré-história (entre 65% e 80%) vinha da coleta de vegetais, mas, como perseguir mamutes parece mais excitante, acabou virando a base da ficção tradicional: uma narrativa em forma de "flecha", que busca o conflito e o triunfo. Com a teoria da bolsa, Le Guin sugere manter elementos diversos em uma relação complexa, realista e inclusiva, voltada ao processo contínuo da vida, em vez de focar em um herói central ou clímax violento.
Já botei na lista outro livro de ensaios, o Sem Tempo a Perder: reflexões sobre o que realmente importa, em que ela detona o capitalismo. ❤️
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Discussões anteriores
:: Vou te Receitar um Gato, da japonesa Syou Ishida
:: O Mestre e Margarida, do russo Mikhail Bulgakov
:: Um Homem Chamado Ove, do sueco Fredrik Backman
:: Um Gato entre os Pombos, da inglesa Agatha Christie
:: Felinos e Macabros, coletânea de contos de autores como Edgar Allan Poe, H. P. Lovecraft e Bram Stoker
:: Diário dos Gatos Yon & Mu, do japonês Junji Ito
2 comentários:
Meu coração partido de ver a Jujuba... Quanto ao livro, esse não engrenei, mas achei interessante suas colocações. Mais pra frente tento de novo.
Foi uma tarde maravilhosa, ainda mais com a presença da Jubs! ;)
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