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16.2.08

Passarinhoca

Este post era para ser engraçado. Eu pretendia contar que na véspera de soltar a pomba, Pimenta apareceu com as asas de um passarinho abertas sobre o rosto. Consegui tirar-lhe o jantar a força, mas o montinho de penas ficou caído no chão, todo desconjuntado. Cinza, cabia inteiro em uma das mãos. E carimbou-a de cocô vermelho enquanto eu pedia socorro na Fauna ― Mariana, assumindo o apoio técnico, tentava matar os bichinhos minúsculos que andavam pelo meu braço.

Drª. Melissa aconselhou-nos, antes de qualquer coisa, a observar de onde saía o sangue: nas fezes, indicaria hemorragia interna e dificilmente ele sobreviveria à cirurgia; no corpo, podíamos estancar com uma gaze seca; se não estivesse pingando, bastava deixá-lo quietinho e quentinho, em um quarto escuro. A experiência, por si só, já havia sido deveras traumatizante.

Eu coloquei água em uma tampinha de garrafa e preparei o mesmo cardápio da hóspede anterior. Quando considerei que os pedaços estavam suficientemente pequenos, piquei mais umas cinco vezes, para garantir.


Mas ele não comia nem apoiava um dos pés na gaiola. E, na manhã seguinte, continuava igualzinho. Corremos, então, para a clínica.


Eis que, no caminho, o safado resolveu usar as duas perninhas, piou, chacoalhou as plumas e se entupiu de mamão. Parecia adivinhar que devia sorrir para se livrar dos remédios. Ou que a papinha que a veterinária lhe receitaria tinha gosto de Chocooky. Nem acreditamos que o ataque da Diana perfurara apenas de leve uma das asas. Era um sanhaço filhote, que provavelmente mal sabia voar e ainda comia na boca.


Nós podíamos experimentar soltá-lo no jardim e ver se ele voltava para casa. Em caso de fracasso, o alimentaríamos até que aprendesse a ganhar os céus, correndo o risco de ele nunca mais partir, por nos considerar suas mães. Ou o entregaríamos direto ao Parque Estoril, onde certamente seria cuidado por biólogos e veterinários, pois se tratava de um pássaro raro da fauna brasileira, não uma praga urbana.

Escolhemos a primeira opção, mas, por conta da chuva, preferimos esperar mais um dia. Foi aí que o texto ganhou contornos de tristeza. Será que o aquecedor estava forte demais? Ou Godofredo (como Mariana o batizara desconhecendo o significado) engasgara com os grãozinhos do pão integral? Talvez, tenha morrido por estresse do cativeiro. Completamente solitário.

Quando o encontrei tombado sobre a tampinha de água, senti-me culpada por não visitá-lo de madrugada, já que havia precisado levantar para tomar remédio. Lembrei dele espirrando mamão pelo quarto inteiro e, meia hora depois, dormindo de suspirar. Até desisti de dar a última papinha, na seringa de fartos 1 ml. Antes de deitar, aliás, confesso que achei estranho ele cochilar de lado. Mas, como acontecera à tarde também e a respiração parecia normal, desencanei.

Por que me deixaram salvá-lo para esse desfecho? Admito que não sei lidar com a perda ― ou com as coisas que fogem do controle da minha insignificância. E meu coração só parou de retorcer quando Drª. Melissa disse que a culpa era do trauma causado pela Pimenta. Às vezes, passam-se meses do choque, mas a sensação fica armazenada no corpo do animal e, cedo ou tarde, os órgãos acabam paralisando (cientificamente não consigo explicar).

Nas aves, esse processo ocorre de forma especialmente rápida: saltitante em um dia, estrelinha no outro. Resta-nos o consolo de que toda a correria proporcionou ao pequeno uma partida menos thriller. Agora, o mamão do café da manhã vem carregado de lembranças. E pode parecer loucura, mas juro que um casal de sanhaços insiste em gritar aqui na janela do escritório há duas semanas.

O que está acontecendo com os passarinhos de São Bernardo?!?!?!?!?!

Anteontem, Pimenta (alimentada com ração super premium!) caçou outro infeliz. E, dessa vez, o estrago foi grande. O bichinho, de peito amarelo, nem conseguia ficar em pé. Quando tentava voar, só dava cambalhotas, quicando peito e costas no chão freneticamente. Para melhorar, a cabeça sobrou tombada de lado. Completamente falida, graças à pomba e ao sanhaço, eu recorri à irmã de uma amiga, estudante de veterinária.

Ela me falou da tal síndrome vestibular, que faz o animal perder o equilíbrio por causa de uma pancada justamente na cabeça descoordenada. Para se recuperar, portanto, ele precisaria tomar vitamina diluída em água ao longo do dia e antiinflamatório. A cauda, que virara ao contrário, deveria ser imobilizada com palito de sorvete. E as feridas, cuidadas com pomada. Eu concluí que sairia mais barato levá-lo ao veterinário. E, se ele passasse da primeira noite, ainda corria o risco de ficar tortinho para sempre.

A polícia ambiental nem quis saber do caso: "Minha senhora, com a escassez de profissionais no Estado, a ave morreria antes de encontrarmos um lugar para entregá-la. Pode mantê-la aí mesmo, na sua casa, que ela se cura sozinha". Resignadas, Mariana e eu tampamos as janelas do banheiro com um cobertor, arrumamos uma caixinha acolchoada para acomodar o convalescente, ligamos o aquecedor e tentamos dar comida na boca. Mas ele não agüentou.

9 comentários:

Ana Paula disse...

Me solidarizo contigo.
Estes dias uma pombinha caiu do ninho na minha sacada depois de chuva. Manteiga derretida como sou, peguei a ave quase desfalecida e coloquei numa caixa de sapato sob uma lâmpada. Ela estava bem, mas resolvi devolver no ninho um dia depois. A pomba mãe, para espanto meu, veio e cuidou da pequena. Só que uma nova chuva acabou com todo o ninho e com a vida da pobre pombinha. Fiquei triste, mas às vezes a gente tem que deixar a natureza ter o ritmo dela. Não tem muito o que fazer. Como você disse, pelo menos tentamos dar uma partida menos thriller.
abraço, Ana

Kiki­ disse...

Aqui em casa os cachorros matam mais passarinhos do que os gatos. Tenho uma cachorra que come passarinhos em dois segundos, ela dá duas mastigas e engole. Minha mãe fica histérica e começa a gritar para ela largar, mas nunca dá tempo... Ela comeu um sabiá mês passado. =[

Os gatos matam passarinhos, já tomamos da boca deles e outros não deu tempo, teve um que ficou picado em mil pedaços, inclusive em cima da minha cama. Mas quando salvamos fazemos o mesmo que você. Consegui levar um para um parque uma vez.
É complicado porque aqui em casa tem muitas árvores, não tem como evitar isso.

mlicursi disse...

Bia,
trabalho aqui no Rudge Ramos, em São Bernardo.
E aqui vive cheio de pássaros: piriquitinhos, sanhaços, sabiás laranjeira.
Damos mamão maduro e manga, além da ração que sobra da Tiguinha...
Acredita?
Eles adoram...

Sinto pelo acontecido com o pobrezinho,,,mas os gatos foram domesticados parcialmente, né?

beijo

Rafaella disse...

Oi Bia !
Esse pássaro é lindo mesmo!
Ano passado , uma tempestade derrubou uma árvore aqui em frente de casa e meu avô trouxe pra dentro um pequeno ninho com 2 filhotinhos dessa mesma espécie que ele achou no chão...também temos gatos ( na época 4,agora mais ).
Me tranquei no quarto com os bebês e cuidei deles como filhos mesmo, acordava de madrugada preocupada , despistava os gatinhos quando abria a porta do quarto , etc...
estavam lindos e também adoravam mamão !
o primeiro bebê se foi na primeira semana e era o mais espertinho...o outro que era mais gordinho e preguiçoso, quando me via , piava o mais alto que podia acordando a casa toda!
morreu na terceira semana...
assim mesmo, a gente acorda e encontra o corpinho ali...
fiquei arrasada , me perguntando o que eu tinha feito de errado, enfim , acho que do mesmo jeito que você ficou...
nunca mais achei nenhum passarinho
e prometi pra mim mesma não levar mais pra casa , mas você sabe como pe né...
Bom é isso, leio sempre o blog e quando vi a foto do bicudinho aí, me lembrei dessa história !
também já consegui salvar uma andorinha e uma pomba da boca dos meus gatos , mas essas são outras histórias...

beijoss gateira e um cheiro na cabeça dos bigodes !

Lina Gatolina disse...

Talvez a solução seja interditar o espaço aéreo do Gatoca...

:)

D.

Anônimo disse...

oi, beatriz.
Que chato isso... Sei que essa é uma pergunta quase filosofica/espiritual mas sera que nao tem uma maneira de espantar os passarinhos de irem no seu quintal? Boa sorte. Kalu

Gisele G. disse...

Ai, Bia... Que triste... Sabemos que os bigodes não fazem por maldade, é instinto mesmo, e a Lei da Natureza, mas dá um aperto no coração ver qq animalzinho sofrendo (e pior, morrendo depois de cuidado!)...
Minha Bruna (uma sialata cinza inteligentíssima, q virou estrelinha após 15 anos comigo), insistia em me trazer passarinhos de presente. Uns sobreviviam após cuidados, outros não...
Força, querida! Vc sempre faz o possível (e, às vezes, até o in), por todos que cruzam seu caminho!

Anônimo disse...

É... gato com passarinho dá nisso mesmo...
E tem épocas que parece que é um atrás do outro, "quiném" eletrodoméstico que só quebra em grupo!
Força aí. É sofrido, mas encontrar os bichinhos e não fazer nada dá mais dó ainda. Paciência.
Beijo grande,
Juliana.

Beatriz Levischi disse...

E sabem o que é pior?! Essa irmã da minha amiga disse que não vale a pena se especializar em aves, porque o povo compra o bichinho por R$ 15 e se recusa a pagar as consultas. :\

Kalu, o que você sugere para espantar os passarinhos, se dez bigodes não cumprem esse papel?! rs

"Eletrodoméstico que só quebra em grupo" foi ótimo, Juliana!