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4.9.20

Ensinei uma rolinha a voar!

Elas encaravam fixamente os vasos do outro lado da porta de vidro — três gatas e um desejo. Nosso jardinzico, admito sem nenhuma modéstia, junta a maior quantidade de pássaros por metro quadrado da região — até porque é um bairro concretado. Mas ave que se preze não fica parada no mesmo lugar, né?


Foi Leo quem encontrou a rolinha encolhida.




E quem nos revelou se tratar de uma rolinha, na verdade, foi a Mônica Campitelli, amiga-bióloga. Seguindo as instruções dela, ajeitei comida e água perto da primavera, longe do sol. E fiquei observando enquanto decidia se valia a pena levá-la ao veterinário — animais silvestres se estressam muito fácil.


A combinação de arroz, mamão e couve-manteiga orgânica, que num passado remoto fez a alegria da pomboca, não agradou. E a bichinha andava para um lado para o outro desengonçada, despencando quando tentava voar. Imaginamos que pudesse ter se chocado contra o vidro.


Veio a tempestade — em um filme essa reviravolta soaria forçada, mas na vida real pode! Leo ajeitou a rolinha no banheiro, transformando em casa a caixa de transporte dos bigodes, de porta aberta mesmo, só para ela se sentir protegida.


E escrevi para o Eduardo Carneiro, vet homeopata que atende em São Paulo. Se fosse uma contusão, Arnica montana C6 ajudaria. Só que a gente não tinha. Pinguei, então, duas gotas de Pulsatilla C6 na água para trabalhar o emocional — servem glóbulos também.


E apelei à Gabriela Fromme, amiga-veterinária-não-praticante, que mora aqui em Sorocaba. Nessa hora, o roteirista abandonou de vez o bom-senso. Gabi entendia tudo de rolinhas porque teve um ninho na janela da cozinha — sim, rolinhas são pombas mais arrumadas, no quesito sociabilidade. E a cauda diminuta denunciava um filhote!

Por isso o voo atrapalhado.

No dia seguinte, levei a caixa de transporte para o jardim, já com papel picado dentro (tecido amassado também funciona), porque a pata das aves não se estrutura direito em pisos lisos. E, embora Gabi tenha garantido que não precisava me preocupar com os cocôs, pois "o ninho delas é uma meleca", não resisti.


(Limpei também a privada, a parede, o creme de cabelo e as gavetinhas de maquiagem, todos lugares que ela conseguiu carimbar. Não, não usei violência. Até porque já havia segurado a vontade de encher a pequena de cafuné — quanto menos a gente mexer nesses animais, melhor.)

Junto com o abrigo improvisado e a vista para a horta, a criatura ganhou um banquete mais adequado: alpiste, quirela (ou quirera) de milho e aveia — não fazia ideia de que a aveia da granola não existe pronta na natureza, gente!


E eu fiquei lá, assistindo e encorajando as tentativas destrambelhadas de voo. Gabi havia dito que rolinha sai do ninho em menos de duas semanas e essa já devia estar na fase final de aprendizagem. Outra opção seria achar o tal do ninho, mas bateu o receio de revolvê-la à família errada e criar uma crise.

A cada investida, ela subia um tantinho mais alto. Até que alcançou o muro. E se pôs a piar. Vocês não imaginam a emoção! Piou. Piou. Piou. Eu filmando de mãos trêmulas — será a superproducinha deste mês para os apoiadores! Quando parecia ter desistido, chegou a resposta.


Para ampliar, cliquem na imagem

E a bichinha cruzou o céu em cima da minha cabeça, acompanhada por asas maiores.

:: Curiosidades

- Não deu para saber se nossa rolinha era "rolinho", porque a coloração só vem depois. As fêmeas puxam para o roxo.

- Outra característica de filhote, além da cauda curtinha, são as narinas "levantadas", como nestas calopsitas, porque o bico ainda está se formando.

- Aves têm parasitas parecidos com mosquinhas, mas não há motivo para histeria. Basta deixar o desinfetante agindo por um tempo no local (piso e caixa de transporte, no meu caso) e lavar normalmente — se não puder lavar, passe um pano úmido com o produto e espere secar sozinho, tirando o excesso com água limpa depois.

8 comentários:

Patrícia Sloi Urbano disse...

Parabéns Bia por mais esse ato generoso com um animalzinho. História linda e emocionante.

Anônimo disse...

Que história linda!

Maria disse...

Sempre encantada com suas histórias, com seus gatuchos e seu esforço pra melhorar esse mundo tão cruel!

Maria Alice dos Santos disse...

Uma vez eu tinha ido na Nipon, na Saude em SP, e parei o carro no estacionamento em baixo de uma arvore. Quando abri a porta do carro e botei o pé para fora, pisei em algo que se mexia. Levei um susto, mas não amassei a pequena ave que era tb uma rolinha caldo de feijão minusculazinha. Arrumei uma caixinha e a levei para casa. Fui alimentando com fubá e agua num palitinho e ela aceitava. Colocava para dormir numa caixa com uma lampada. Ela cresceu mas não voava. Acho que quebrou a asa na queda da infancia. Ela passou um bom tempo comigo, andava atras de mim o tempo todo e subia no peito do meu pé quando eu ficava parada na pia fazendo minha comida. Não me lembro quanto tempo ela viveu comigo. Fiz o que achei certo por ela. até que um dia ela estava fria, molinha. coloquei ela na lampada para aquecer, mas ela resolveu ir para o outro lado do arco iris. Chamava a minha rolinha de Zizo. Minha pequena companheira ou companheiro Zizo.

Beatriz Levischi disse...

♥️

Que amor, Maria Alice! Estava sentindo sua falta nos comentários! :)

Denise disse...

A vizinha da rua né chamou pois tô há uma rolinha caída perto da árvore,anda mais não voa,levei pra casa e meu marido olhou tudo aparentemente não tem nada machucado,mas está apática, não come, não bebe água e fica só parada em um lugar da gaiola que preparei para cuida lá, não sei o que fazer😞

Beatriz Levischi disse...

Tem coisa que a gente não enxerga mesmo, Denise, como as contusões. O ideal seria levar a rolinha a um veterinário de silvestres. Animais de vida livre podem morrer presos, inclusive. Eu só instalei a pequena no banheiro por causa do temporal e, no dia seguinte, já devolvi no jardim.

Denise disse...

Então tenho medo por causa dos gatos que tem na rua,e aqui onde moro não tem veterinário especializado em pássaros, não sei o que fazer 😢