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15.5.14

Sobre ajuda: tempo e limites

Faz duas semanas que eu rascunho este post na cabeça e, quando sento no computador para escrever, não sei por onde começar. A história da Mel sensibilizou bastante gente, rendendo sugestões de vaquinha, indicações de lugares que talvez cobrassem mais barato pela cirurgia, questionamentos existenciais variados. E eu me deparei com um misto de sentimentos.

É muito legal ter leitores/amigos que não se fingem de mortos nessas horas. Mas poucos de vocês conhecem os bastidores da proteção animal (ou de qualquer grupo de pessoas que lide com faltas). Por trás dos finais felizes e das fotos coloridas divulgados aqui no blog, há pilhas de travesseiros salgados, de passeios não feitos e de sofás que viraram socorro veterinário.

O mais difícil é aprender a dizer "não". Eu não posso, por exemplo, bancar uma operação de R$ 2 mil e virar as costas para todos os outros moradores da favela que baterão à minha porta com bichos em situação pior à da Mel. Por isso recorri à Metodista. E, depois dela, ainda foram mais seis e-mails trocados, cinco mensagens pelo Facebook e dez ligações.

Universidade de São Paulo, Universidade Paulista, Dr. Emílio Sciammarella, oftalmologista indicado pela Unip, Centro de Diagnóstico De Olho no Bicho, Dr.ª Amelia Leybonz, idealizadora do Veterinários na Estrada, Dr. Eduardo Perlmann, oftalmologista indicado por ela, Dr.ª Marcia Galego, professora da USP.

E Mel continuará cega ― a cirurgia custa caro para um profissional arcar sozinho e as instituições renomadas não estão dando conta da demanda. Tempo perdido, que ninguém fica sabendo porque nunca vira post. Mesmo os happy ending nos roubam um tempão "invisível".

Para dar uma segunda chance à família Cartoon, que vocês amam, eu passo uma tarde do fim de semana a cada 15 dias fotografando e outra editando as imagens, desde fevereiro. A vacinação da pirralhada rendeu a via-sacra São Bernardo-São Paulo-Santo-André-São-Paulo-São Bernado, que se repetirá na castração (adiada por causa da comemoração das mães).

E, com a grana gasta, daria para tirar as férias que fogem de mim há cinco anos! O objetivo deste texto, tão difícil de parir, é mostrar que as coisas são mais complexas do que parecem. E que só educação para os bípedes e castração para os quadrúpedes podem alaranjar o horizonte.

Aguardem o primeiro mutirão do Gatoca ― e outras ideias revolucionárias. :)

4 comentários:

Marco Mandarino disse...

Sabemos como não é fácil. Eu e minha esposa ficamos com o coração na mão cada vez que vimos algum bicho abandonado na rua. Moramos em um “apertamento” e trabalhamos em tempo integral, infelizmente não dá para pegar todos que aparecem. Além do que, como você mesma diz, os custos são elevados. Ficamos constantemente no dilema de ajudar ou não e infelizmente algumas vezes temos que falar não. Não por sermos egoístas ou insensíveis, mas porque a vida que todos vivem com a enorme quantidade de obrigações, afazeres, contas e impostos, etc nos obriga a sermos assim às vezes.

Temos dois gatos, uma com 14 anos que nasceu em nossa antiga casa e uma resgatada a cerca de 1 ano e meio e que a encontrei queimada e que deve ter por volta dos 3 anos de idade. Não consegui virar as costas quando a encontrei e acabamos adotando. Antes dessa gata aparecer tínhamos outra gata que já estava conosco à exatos 17 anos e que nos seus últimos 4 meses de vida, ficou dependendo de aplicações diárias de soro e outros medicamentos. Alguns muito caros.

Em suma, existe muita gente que não sabe o que é ter um bicho em casa. Ter um, não requer apenas responsabilidade e comprometimento mas também “bolso” para arcar com alimentação, vacinas, castração ou alguma doença, pois eles também adoecem.

Infelizmente enquanto não olharmos os animais como nossos irmãos e tratarmos os bichos como bichos, essa situação de abandono e desrespeito persistirá.

Marco Antonio

Em busca de corpo e alma disse...

Bia, o brasileiro está sempre a procura de um “salvador”, um super-herói ou heroína ou alguém com poderes extra comunais que acabe com a fome, inveja e todos os males do país e enriqueça os lares das pessoas para fazer aquela invejinha pro vizinho.
Já os animais precisam de algo que muitos de nós mergulhados no analfabetismo, ignorância e arrogância não conseguimos perceber pelo egoísmo de nossas almas pequenas.
As pessoas em grande maioria querem um mundo melhor para os filhos e nos primeiros anos de vida a pessoa não é fonte de inspiração.
Mas não me leve a sério. Sou uma pessimista como os natos capricornianos. Tanto que toda vez que me pego desacreditada venho aqui ler seus posts.
Eu não me considere e tb afugento qualquer titulo de proteção, veganismo, budista, humanitária, boazinha ou tonta.
Sempre que me perguntam, digo que sou apenas uma cidadã. Que assim como inúmeras pessoas que tiveram a chances e mazelas da vida optaram por seguir o que é certo.
O problema da proteção animal, bem como todos os nossos problemas está na educação e conscientização das pessoas. Como faz isso em um país que a própria população não briga por escolas melhores para o filho.?
Se não me engano a ampara animal está tentando montar uma unidade móvel, tipo castramovel. Mesmo com propaganda na rádio não estão conseguindo.
Eu mesmo, assim como boas protetoras se afastam ou agem sozinhas pq a corrupção tb engoliu causas humanitárias, animais e de esperança.
Não podemos salvar o mundo. E sabemos que cada porta aberta mais e mais teremos procura.
É possível sim fechar todas as portas. Mas por algum motivo a pílula da alienação não faz efeito em algumas pessoas.
Bia, talvez pelo seu dom de escrever possa tocar mais corações. E talvez a resposta de muita coisa esteja tão perto de nós.

Vânia disse...

Bia, tente ficar em paz, sei exatamente o q é a dor, o sentimento de raiva e impotência por não poder salvar a todos...somos assim, humanos, limitados, enxugadores de gelo...mas não vamos desistir, e não deixaremos vc desistir...fique bem!

Beatriz Levischi disse...

Apesar de ser capricorniana, eu não desanimo fácil. ;)