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3.10.14

Cada povo tem o governo que merece

Eu não gostava de bicho. Nem de política. Já votei com a boiada, anulei, invejei quem viajava nas eleições. A vida deu um triplo mortal carpado nestes sete anos! Foi impossível resistir aos olhos brilhantes do Mercv na caixinha de papelão. E é impossível tocar um projeto social sem entender o funcionamento da engrenagem. Você começa tirando da rua animais que deveriam ser responsabilidade do município e termina discutindo o conflito entre Israel e Palestina.

Quando a Isis Mastromano me mandou a matéria do Vista-se sobre um candidato à presidência que tinha planos de incentivar o vegetarianismo no Brasil, eu lamentei o 1% das intenções de votos que ele dividia com mais cinco lanterninhas. E demorou para cair a ficha que Eduardo Jorge era o secretário do Meio Ambiente que respondeu pessoalmente meu e-mail sobre a feira ilegal de filhotes no Parque do Ibirapuera, em 2007, prometendo providências ― que foram cumpridas.

Na palestra sobre educação humanitária do fim de agosto, Nina Rosa cobriu o político de elogios. E eu não conseguia entender porque ele é tão zoado no Facebook. Como todo cidadão deveria fazer, resolvi ler seu plano de governo direto no site, sem atravessadores. E me senti no Uruguai. O pessoal admira o Mujica, mas, quando aparece um candidato não trabalhado no marketing, que fala sobre cultura da paz e abolicionismo animal, ridiculariza. Eis algumas propostas, bem resumidamente:

- Criar políticas públicas que equacionem social, ambiental e econômico.
- Dar mais poder aos municípios, para garantir maior participação do povo.
- Reduzir o salário dos parlamentares e extinguir a remuneração para vereadores ― "política não é negócio, é para servir".
- Proibir que empresas (com interesses próprios) financiem as campanhas eleitorais.
- Incentivar a agricultura familiar e combater o desperdício de alimentos.
- Privilegiar pequenas centrais hidroelétricas, subvencionar fontes de energia mais limpas e desativar usinas nucleares.
- Promover junto às nações o debate para estabelecer metas de redução não voluntárias de emissões de gases de efeito estufa, proporcionais às responsabilidades históricas e atuais.
- Priorizar a formação de médicos especializados na saúde da família.
- Descriminalizar a interrupção da gravidez, para garantir a segurança de milhares de mulheres que hoje realizam o procedimento clandestinamente.
- Estruturar a educação sobre os quatro pilares da Unesco: aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a viver juntos, aprender a ser ― o sistema deve compor-se da maior multiplicidade de atores, lugares e tempos.
- Promover a inclusão social para deficientes.
- Reparar as sequelas da escravidão.
- Fortalecer a participação das mulheres nos espaços de poder e decisão.
- Promover a igualdade de direitos da população LGBT.
- Caracterizar as forças armadas como de autodefesa.
- Combater a economia do crime com a legalização e REGULAÇÃO pelo estado do acesso à maconha, além de criar políticas de educação que reduzam o dano causado pelo uso da droga.
- Priorizar políticas públicas relativas à mobilidade urbana, aos modos não motorizados e ao transporte coletivo, favorecendo à humanização do espaço público e a democratização do acesso à cidade.
- Proibir testes de cosméticos em animais e incentivar a pesquisa e o desenvolvimento para eliminar também o uso de animais como cobaias em outros setores.
- Difundir e promovera alimentação vegetariana como hábito saudável, benéfico para o meio ambiente e respeitoso para com os bichos.
- Eliminar subsídios e financiamentos públicos a granjas industriais que mantenham galos e galinhas em confinamento intensivo.
- Criar benefícios fiscais a produtos que proponham substituir (em termos de nutrição, culinária e/ou paladar) alimentos de origem animal.
- Reduzir a jornada de trabalho para 40 horas semanais e começar uma transição para 30 horas, sem redução salarial ― "trabalharmos menos, para trabalharmos todos".
- Defender a regulamentação do Imposto sobre Grandes Fortunas.
- Apoiar fortemente as redes de produção, troca, consumo e financiamento sustentáveis, que dão forma à economia solidária, da qual o cooperativismo é parte fundamental.

Agora, leiam os planos de governo dos "favoritos" ― copiar e colar artigos da USP não vale!

Cada povo tem o governo que merece. Desta vez, eu vou votar idealista. E planto aqui minha sementinha de transformação. :)


4 links para ir às urnas consciente

www.verdinhas.org.br
Com o plugin, do Verdinhas você descobre quais empresas estão financiando as campanhas políticas ― vale a pena ler também a explicação de como essa informação pode ser maquiada.

www.bit.ly/1pMt1Zk
A ONG Transparência Brasil divulgou as instituições flagradas com trabalhadores em situação análoga à escravidão que doaram dinheiro aos candidatos.

www.naovoteemruralista.org
No site "Não Vote em Ruralista", da organização 350.org, há os principais responsáveis pela escassez de água, pelo desmatamento das florestas e (de novo!) pela manutenção do trabalho escravo.

www.bit.ly/worldanimal
A página da World Animal Protection traz os políticos engajados na causa animal.

8 comentários:

Marilia Bavaresco disse...

Muito bom. Eu estava precisando de um norte.

Valéria Werneck disse...

Os hipócritas não votam pq ele é a favor do casamento igualitário e legalização da maconha, mas entram em embates por um usuario inveterado de cocaína.
O imposto sobre grandes fortunas existe na constituição mas ficou só lá pra Inglês ver, pq quem quer mexer com os grandes e poderosos?
É por isto que não consigo deixar de pensar em Charles de Gaulle: "o Brasil não é um país sério"

Lucia Freitas disse...

#tamojunto. eu já sabia quem era (sim, eu lembrei da gestão do moço na Secretaria daqui) e apaixonei qdo ele defendeu a legalização do aborto, no primeiro debate da Band. Nem fui ler o plano de governo, confesso. E também serei idealista. :)

Maria Alice dos Santos disse...

Também estou querendo fazer diferente nesta eleição. Chega dos mesmos.

Bella disse...

Sem dúvida, as propostas mais alinhadas ao que eu penso.

Anônimo disse...

Um país onde pobre vota em direita. Onde brasileiros aderem a movimento neonazistas. Onde homens não se considera homossexual por serem ativos. Onde os tementes a Deus sequer dao ao trabalho de ler. Onde até causas nobres sao tao corruptiveis qto os crimes que criticamos. Eu vou viajar mas vou voltar so para ter meu voto validado. Vivemos em um pais injusto, patriarcal e explorador. Somos cúmplices.

Em busca de corpo e alma disse...

Eu vejo que não é o governo que o povo merece. E sim o reflexo do povo.
Somos nós que os elegemos. Somos nós que escolhemos e somos nós que vemos nosso reflexo na politica.
A diferença dos valores gritantes está assim como nós que baixamos um mp3 da música que gostamos e eles das regalias que existem. Não há crimes maiores ou menores.
Já votei no PT, pq faço parte da parcela que sai da casa do chapéu e vai pra onde Judas perdeu as botas. Faço parte da parcela que estudou em escola publica precária e que não pode fazer uma faculdade publica de ponta por "n" problemas que vêem desde a falta de planejamento e estrutura familiar. Ou mesmo uma faculdade particular melhor devido ao que podia pagar. E eu não me vejo melhor que os políticos que governam esse país. Meu S.O. é pirata, meu programa, qual ganho pão é tb não regularizado. Salvo animais, ajudo instituições de crianças que foram abandonadas ou mesmo vou visitar idosos esquecidos e nem por isso sou melhor. Não falo pelo vegetarianismo, não falo por usar meios de transporte publico ou mesmo as bicicletas ou a própria perna. Eu vou votar nele pelo motivo de ver nele o que gostaria de ver nesse país. Minorias como nós mulheres serem menos discriminadas, violentadas ou mesmo sem direitos. Vou votar nele pq acredito que é com mais arvores e mais educação que se pode ter menos gastos com tratamentos ineficazes, voto nele por ter amigos de cor, gênero, sexo e religiões que são iguais a cada um de nós. Por acreditar que respeito aos animais devem fazer parte de nossa vida.
A politica nada mais é que nosso reflexo. Eduardo Jorge, Luciana Genro e tantos outros que um dia vierem são meros reflexos do seu povo. E de nada adianta uma boa maçã onde o cesto está podre. Presidente, infelizmente não manda em nada. Temos um grande grupo que realmente dita as regras. :/

Beatriz Levischi disse...

Não desanimemos! Em quatro anos tem mais. ;)