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30.9.16

Diário do Rei #6

Ouvi mamãe comentando que se sentiu uma criminosa na fila do açougue ― ela não come as coisas boas da vida! O moço do balcão ainda fez piada porque o microfilé de frango custou R$ 1,41. Em casa, ela olhava para mim e para o frango com cara de choro. Até que o papai salvou o almoço cortando tudo em pedaços pequeninos, como um bom serial killer.


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29.9.16

Diário do Rei #5

A ração nova me atacou! A renal aceitava relativamente bem a sina de que seria comida, N&D lutou bravamente por sua vida. E perdeu. *risada maquiavélica*


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28.9.16

Diário do Rei #4

O lugar tinha cheiro de cachorro. Não podia vir coisa boa. Rasparam meus bracinhos e me cutucaram com agulhas um monte de vezes, culpando a tal da veia mole. Eu só conseguia pensar que era um daqueles dias em que não deveria ter saído do almofadão. Mas, aí, barriga começou a ficar grande e divertida. Quando eu andava, fazia barulho de mar.


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27.9.16

Diário do Rei #3

A mamãe estava engraçada pulando e cantando pela casa que eu engordei 300 gramas. Como isso pode ter acontecido se não comi grama nenhuma? O que fiz foi beliscar a ração dos meus irmãos, depois de um longo inverno. Ela não é gostosa como meu peito de peru, mas a gente pode comer quando quiser e ainda mora uma alma de gordinho neste corpo.


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26.9.16

Diário do Rei #2

Quando a gente morava na casa com jardim, tia Mari comprava duas fatias de presunto na padaria para me dar escondido e a mamãe ficava furiosa. Como a Roda da Fortuna gira (ouvi ela esbravejando isso uma vez), sexta-feira eu comi 18 fatias de peito de peru. Dezoito! Mordia os dedos do papai na pressa, com medo que eles mudassem de ideia. À noite, não podia nem sentir o cheiro do pacote. A vida é mesmo esquisita.


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23.9.16

Diário do Rei #1

Mamãe me disse que nós vamos ficar um tempão sem nos ver. Eu não entendi muito bem o motivo, só a parte em que agora posso fazer coisas que antes eram proibidas para ter um estoque de boas lembranças quando a saudade apertar. Na terça, comi um sachê inteirinho, sem dividir com meus irmãos. Foi incrível!


(Simba está no estágio terminal da doença renal. Não contei antes porque precisava de um tempo para chorar sozinha. Os dias têm sido dias difíceis por aqui. Decidi escrever o diário do leãozinho para encarar de um jeito mais leve essa despedida, para enxergar as pequenas coisas boas no meio do turbilhão, para lembrar que fiz tudo que podia quando bater a clássica culpa, para vocês relerem posts felizes se a gente sumir de repente.)

22.9.16

Milho de pipoca vira graminha para gato!

Realizar o sonho da casa própria com jardim está ficando cada vez mais difícil para quem mora nos grandes centros urbanos. Isso não quer dizer que os bichanos não possam mastigar um matinho de vez em quando. Além de servir como diversão, as fibras ajudam na digestão e na eliminação das bolas de pelo ao provocar vômitos.

Os pet shops vendem sementes e vasinhos prontos, de trigo, centeio, aveia ― aqui não funcionou muito bem, como vocês podem ver pela foto. Mas também dá para plantar o milho comprado no supermercado para fazer pipoca. Só não vale a versão de micro-ondas!

Usem um vaso furado para facilitar a drenagem da água, forrem o fundo com pedrinhas, encham de terra vegetal (não precisa adubar), deixando uns três dedos da borda livres, espalhem o milho sem grudar muito os caroços, cubram com mais um dedo de terra e reguem cuidadosamente.

O vasinho deve tomar sol todo dia e a terra, estar sempre úmida ― úmida é diferente de encharcada, hein! Em cerca de três semanas, a graminha alcançará um tamanho bacana, se vocês tiverem lembrado de protegê-la dos bigodes, claro.


* Texto escrito para o Yahoo!

21.9.16

Eu devia ganhar dinheiro com isso...

A instrução foi clara: "Quando ouvirem o sinal, vocês correm para a almofada, Simba e Clara se posicionam no meio, invertidos, Pufosa e Keka viram para o lado esquerdo, Guda e Mercv para o direito e todo mundo toma o cuidado de manter as orelhas como na figura 3, ok?".


Vejam outra performance dos figuras aqui e façam uma doação ao projeto. rs

16.9.16

Aniversariante do mês - setembro de 2016

Ainda faltam algumas horas. Mas eu sinto que não há tempo a perder. São 13 anos. A rua deixa marcas profundas ― nas orelhas mordidas de briga, nas almofadinhas rachadas pelo asfalto, na fechada receosa de olhos quando a mão se aproxima da cabeça. Entre sarna de ouvido, malassezia, alergia respiratória, infecção de pele (1 e 2), intolerância alimentar, desidratação, coluna podre e doença renal, ele foi se despedindo do apelido de Gordinho.

E, embora os 6,5 kg tenham virado 4 kg, segue me recebendo com festinha quando chego da rua, fazendo festinha para a ração nova, festejando tudo que se move fora da janela. Simba é um gato festeiro. O sol da casa. Aquele que todo mundo quer dormir em cima, mesmo com os ossinhos atrapalhando o conforto.

Enquanto ele brilhar, ainda que entre nuvens, eu festejarei também.


*Novelinha: Conheça a história do Simba

Outros aniversários: 2015 | 2014 | 2013 | 2012 | 2011 | 2010 | 2009 | 2008 | 2007

14.9.16

Yin e Yang

Pufosa é o princípio sialata feminino: a lua que precisa do aconchego para aquecer a escuridão. Simba é o princípio tigrado masculino: o sol que se refresca com o banho demorado de lambidas. Tudo em Gatoca recebe influência de duas forças fundamentais, opostas e complementares.

Isso quer dizer que nada existe no estado puro, mas em transformação contínua ― desfiando, quebrando ou sujando. E que qualquer vontade de despachar os bigodes para o Cazaquistão desaparece quando vista por este ângulo.

9.9.16

Paranapiacaba e nossa primeira visita à promotoria

Em julho, eu escrevi sobre a situação deprimente dos animais de Paranapiacaba e pedi ajuda para pressionar o Centro de Controle de Zoonoses de Santo André, a Vigilância Sanitária e a Secretaria de Gestão de Recursos Naturais de Paranapiacaba e Parque Andreense, já que a proposta de parceria do Gatoca foi solenemente ignorada, após semanas de e-mails e ligações.

Vocês enviaram outras dezenas de mensagens, de acordo com os comentários nas redes sociais, e eles continuaram se fingindo de mortos ― enquanto cães e gatos morriam de verdade na vila, de fome e frio. Nem os contatos na imprensa adiantaram, visto que matérias sobre o assunto se enfileiram no Google há anos e nada muda.

Aí, Claudia Kumahara e Eduardo Perez disseram que qualquer terráqueo pode protocolar uma denúncia no site do Ministério Público e eu fiz melhor: marquei uma reunião na Promotoria de Justiça do Meio Ambiente, contato direto do MP com o cidadão. Tirei a camisa amassada do armário e levei a amiga-advogada Luana Gonçalves junto para não passar vergonha. rs


José Luiz Saikali nos informou que, em 2014, o Ministério da Saúde publicou uma portaria determinando que os recursos destinados aos CCZs só poderiam ser usados para prevenir e combater doenças transmissíveis a seres humanos e a prefeitura se isentou dos demais cuidados com os animais. O promotor tentou negociar, informalmente, a ampliação do canil municipal e o resgate dos bichos atropelados e machucados, mas, pasmem, também ficou falando sozinho.


E duas ONGs cansaram da palhaçada e entraram com uma ação civil pública contra o município. A gota d'água foi a remoção das famílias do Núcleo Espírito Santo de Cidade São Jorge, em outubro do ano passado, deixando para trás 200 cães de porte grande, proibidos nos novos conjuntos habitacionais. Equipe Singulariana de Proteção aos Animais (Espa) e União Andreense Protetora dos Animais (Uapa) juntaram 11 advogados para assinar a ação: 1022552-07.2015.8.26.0554.

Roseli Denaldi, vice-presidente da Espa e responsável pela articulação, me recebeu em seu escritório ontem para explicar o juridiquês do processo. O pedido inicial focava nos bichos do Núcleo Espírito Santo, mas a prefeitura enviou procuradores sem poder de decisão à audiência para tentativa de reconciliação e as protetoras acabaram fazendo o sujo trabalho sozinhas.


Em agosto agora, então, as ONGs protocolaram uma liminar ampliando as exigências para Santo André inteira ― liminar indica que existe urgência no caso, não dá para esperar anos pela sentença. E o juiz Marcelo Franzin determinou que o município tem três meses para recolher os animais em situação de risco (atropelados, doentes, idosos, prenhes e filhotes) de TODO o perímetro da cidade, incluindo Paranapiacaba. :)

Ao final do terceiro mês, devem apresentar um relatório das ações efetuadas e um protocolo para nortear ações futuras. O descumprimento da liminar, considerado crime de improbidade administrativa, renderá multa de R$ 10 mil por dia, limitada a R$ 1 milhão. Se eu fosse o prefeito, sentiria vergonha dos quatro primeiros parágrafos da decisão do Franzin (íntegra abaixo). Pena que a maioria dos políticos não vem com esse acessório de fábrica.


Para ampliar, cliquem nas imagens

7.9.16

Monstro de várias cabeças

Funciona assim: você adota o primeiro bicho e, sem feijões mágicos ou banho e jantar após a meia-noite, ele logo vira dois. Pisque mais demoradamente e terá três. Entre um frila e outro, quatro. Até o golpe da barriga, com ninhada extra de cinco, que pare também a Louca dos Gatos.

Pode parecer absurdo, mas a linha que separa quem ajuda e quem precisa de ajuda é mais fina do que um bigode felino.

2.9.16

Encontrou um gatinho na rua?

Não se omita. Você pode salvar uma vida sem ser rico, sem morar em uma casa grande, sem ter experiência com resgates. A gente ensina todos os passos! Não há recompensa maior do que o olhar de gratidão de um animal que ganhou a chance de recomeçar. São Francisco ainda não precisou dos seus serviços? Guarde este post. E compartilhe com os amigos que também sonham com um planeta mais humano. :)

Passo 1
Atraia o bichano para dentro da caixa de transporte com um petisco. Se ele parecer assustado, ganhe sua confiança primeiro: sente no chão, converse num tom de voz amigável, deixe-o cheirar suas mãos antes de arriscar um cafuné.

Passo 2
O bigode precisará de potes de comida e água (tupperwares servem), ração específica e uma bacia com granulado sanitário. Isso tudo pode ser instalado num banheirinho, caso você já possua outros animais ― não se mistura a bicharada sem ter certeza que está todo mundo saudável!

Passo 3
Para evitar empestear o recinto de pulgas, aplique o remédio no cangote assim que tirar o peludo da caixa. Existem antipulgas que também exterminam vermes intestinais e sarna de ouvido, embora eles custem mais caro.

Passo 4
Leve o bicho a um check-up veterinário e aproveite para vaciná-lo. A Arca Brasil tem uma lista de profissionais solidários, que cobram preços mais acessíveis. Se o tratamento ficar salgado, vale fazer uma Vakinha.

Passo 5
Quando o gatinho estiver gorducho, pode encarar a castração. A cirurgia é simples e indolor, evita marcação de território, problemas hormonais, tumores na próstata, testículos, mama e ovários, ainda deixa o peludo mais calmo e carinhoso. Veja onde operar de graça (ou quase).

Passo 6
Para encontrar a família de comercial de margarina, capriche nas fotos do bigode e no textinho sobre sua personalidade, incluindo passatempos favoritos e hábitos engraçados. Várias ONGs têm páginas de divulgação no Facebook, como o AUG Repassa, a Catland Divulga e a MundoGato Classificados, basta mandar mensagem.

Bônus!
Se a adoção demorar para sair e o coração começar a apertar de ver o pequeno dormindo na privada, siga estas dicas para adaptá-lo com os veteranos.